Por Maria Alfacinha | Quarta-feira, 16 Maio , 2012, 17:30

 

Quando se trata de pensar na vida não sou mulher de olhar para trás, aquele recordar de saudade que soa a “no meu tempo” como se o tempo já não me pertencesse, ou já não houvesse lugar para mim. Gosto de olhar para trás e relembrar o que fiz, onde andei, o quanto me diverti e até o quanto chorei.
A distância temporal suaviza as dores e parece trazer consigo uma paleta de cores suaves com que a lembrança pincela delicadamente cada memória, criando por vezes enormes telas de inimaginável beleza, fruto da fantasia do momento vivido ou simplesmente empolado pela saudade, ou minúsculos e singelos quadros repletos de pormenores minuciosos, de aroma doce e sabor reconfortante, tão minúsculos que quando os olho já não sei se são reais ou sonhos que um dia sonhei.

 

Não costumo, não porque me forço mas porque não sou assim, repisar mágoas antigas, velhas de mortas. É de feitio, não tenho paciência para gastar energia em sentimentos negativos e dolorosos que nos envenenam a alma e a existência. Prefiro arrumá-los num canto até ter readquirido a capacidade de os olhar de frente e de os vencer pela determinação e força que tenho em mim - sei que a tenho, nem sempre a encontro, mas anda por aqui - algures entre o meu estômago que se revolta nas injustiças e a cabeça que sabe há muito que tem que ser parceira do coração.
O tempo sempre me foi precioso, não suporto o desperdício. Aliás, abomino o desperdício de tudo. Não só o desperdício de tempo mas o de sentimentos, de comida e de esforço. Dói-me o desperdício de pessoas, de vidas e de lágrimas. Aborrecem-me de morte as queixas constantes, a ladainha das dificuldades, o choradinho do coitado. O Fado da Desgraçadinha, com música de masoquista e letra do “Não venhas tarde”. (Pela inversa, lamento quem não chora, quem não sabe purgar a dor., quem não consegue ser frágil e carente, quem acha que já não tem idade para pedir colo e mimo. )

 

Quando se trata de pensar na vida não sou mulher de olhar para trás e enumerar os arrependimentos. Nem penso nisso, excepto quando me questionam. Há coisas que teria feito de outra forma? Sem dúvida! Mas hoje sei que o que fiz, quando o fiz, tinha razão de ser ou não sabia fazer melhor, ainda não tinha aprendido, ou talvez nunca venha a aprender. Não sei. Hoje sou diferente do que era há 5, 10, 20 anos. Não no essencial mas no pormenor. E dou comigo a sorrir da mulher que era, a rapariga que fui. Não com mágoa ou saudade apenas a sorrir porque era ingénua, inconsciente e se hoje nada sei na altura ainda sabia menos. Talvez - e nem disso tenho quaisquer certezas - talvez me arrependa de ter confiado tantas vezes. Talvez. Talvez se não tivesse confiado tanto, a minha vida tivesse sido diferente. Talvez. Talvez tivesse sido melhor. Talvez. Mas teria sido eu? Se me tivesse recusado a fazer do Acreditar um lema, da Entrega um modo de vida, do Amor uma bandeira?
Talvez. Ou talvez não.


Por Maria Alfacinha | Terça-feira, 24 Abril , 2012, 14:35

 

Cheguei tarde a casa. Chego sempre tarde. Chego sempre demasiado tarde embora nunca seja demasiado tarde para chegar a casa. Chega-se quando se chega e é sempre bom chegar, finalmente. Cheguei cansada, com frio e com fome e bastou chegar a casa para me sentir melhor. O frio e a fome depressa desapareceram e o cansaço parou de gritar, como se soubesse que já iam tratar dele, como quando éramos crianças e corríamos para casa porque a mãe era perita em esfoladelas nos joelhos, limpava-as com agua oxigenada soprando o ardor, pintava-as com mercurocromo e fazia desaparecer a dor com beijos, porque os beijos curam todas as dores, mesmo aquelas que não se veêm, todas as crianças sabem isso, os adultos têm tendência para esquecer, com excepção feita às mães, aquelas mães a sério que, mesmo depois de crescermos, assim que nos abrem a porta preparam-nos um lanche, não importa a hora, não importa o quê, e depois ficam a olhar para nós enquanto comemos como se fôssemos meninos a regressar da escola, alimentando-se só de nos ver, bebendo cada palavra que dizemos. O meu cansaço sente-se assim, como se a minha casa fosse a sua mãe, sossegando quando a avista, antecipando o momento do aconchego das quatro paredes, o embalar da serenidade, e a segurança do colo onde poderá desaparecer.

 

Chegar a casa é encontrar a paz, na quietude do bairro, nos sons da cidade cada vez mais distantes quase em surdina, na pose preguiçosa dos meus cães estrategicamente enrolados por forma a não me perderem de vista, controlando todos os meus movimentos, não vão deixar escapar qualquer olhar, um simples sorriso, que pode ser o sinal que chegou a hora do mimo, a autorização que anseiam para competirem por uma festa ou uma palavra. Por vezes tento escolher uma melodia que enfeite a noite com acordes doces, mas desisto rapidamente. O silêncio é, descubro em todos os regressos, um bem precioso essencial ao meu equilíbrio e há dias em que até a música me perturba em vez de acalmar, como se me obrigasse a pensar, e a última coisa que eu quero quando regresso a casa é pensar no dia que passou, no dia que já foi, no dia que será amanhã. Porque regressar a casa é também esquecer que há um mundo de obrigações lá fora, uma multidão de outros que já não precisam de mim mas continuam a ocupar todos os meus minutos, e que me roubam o ar que respiro, que me fecham a porta na cara com sorrisos complacentes ao mesmo tempo que exigem compromissos e deveres sob leis absurdas, acenando-me com promessas de um futuro, convencidos, certamente, que anseio pela utopia que pintam em cores de retoma e que só me fazem lembrar aquelas imagens do Paraíso que as Testemunhas de Jeová insistem em utilizar como argumento de conversão, como se ter que esperar a Morte para ser feliz, fosse um caminho de Vida.

 

Ontem cheguei tarde a casa. Mesmo quando chego cedo, chego sempre tarde. Mas nunca é demasiado tarde. Aqui, no meu mundo, há paz. Não amanhã, não daqui a 10 anos, não depois de morrer. Hoje! Neste mundo que criei, onde se fazem lanches para quem chega não importa a hora, não importa o quê, onde o silêncio não pesa, o ar é doce e onde os beijos curam todas as dores, principalmente aquelas que não se veêm. E no armário da casa de banho, está um frasco de mercurocromo, para quando alguém esfolar os joelhos.
Aqui, na minha casa-mãe.


Por Maria Alfacinha | Quarta-feira, 11 Abril , 2012, 16:18

"Desculpe interromper. Posso dizer-lhe uma coisa? Posso? Queria agradecer-lhe. Fez-me sorrir e já há muito que não o fazia. Muito obrigada. Do coração. Sentar-me? Não incomodo? Agradeço. Não, não quero tomar nada, estou bem assim. Triste? Talvez. Pareço triste? Deve ter razão. Tenho andado a coleccionar dores e mágoas, sabe? Perdi, na estrada da vida, a vontade e os sonhos. Viver tornou-se um fardo, um peso que tenho que carregar. Gostaria de dizer a mim mesma que vai passar, gostaria de acreditar nisso. Mas a cada dia que passa mais distante fico de tudo e a esperança tornou-se uma palavra vã. Já não espero nada. Não espero nada da vida, não espero nada de ninguém. Sobrevivo não me esquecendo de respirar, esforçando-me por acordar todas as manhãs, arrastando-me no cumprimento das tarefas, iludindo-me com os poucos momentos em que a vida parece fazer sentido. Estou cansada sim, mas já não é um cansaço físico. Com esse consigo lidar, sempre consegui. É um cansaço emocional, como se o coração não fizesse mais do que bombear sangue. Acusam-me de frieza, de não ser capaz de sentir e eu sei que é assim. 

Desculpe novamente. Não converso há tanto tempo que já não o sei fazer. Sequei-me nas esperanças que me foram roubadas, gastei-me nos sonhos que não me deixaram sonhar, fiquei vazia de propósitos, de vontades. Dias há em que me atrevo a tentar mudar o trajecto deste caminho que não escolhi, agarrando-me a cada gesto, esforçando-me por desenhar novos planos, pegando em cada palavra com as duas mãos, tentando, quase em desespero, torná-la num projecto, algo por que ansiar. E por cada pequeno destroço a que me agarro, a cada pequeno grão de esperança que tento fazer germinar, surgem dez, vinte eu sei lá quantos outros percalços que me roubam a atenção e desperdiçam o meu tempo. A felicidade, ou algo parecido que possa chamar assim, já só a encontro no sono, nas horas em que mergulho na escuridão e esqueço, ou faço por esquecer, esta vida que não quero, que não quis, que nunca quis para ninguém. Dormir é hoje o meu único prazer, um prazer com sabor amargo pois a cada acordar ganho a certeza que perdi horas de vida, que desperdicei o pouco tempo que me resta, que nos resta a todos.

Sonhar? Não, já não sonho. A cada acordar estou mais velha, mais perto do fim mas já não me importa morrer, já não me custa pensar nisso. Não procuro a morte mas não me assusta. Em dias de maior desespero quase que a vejo como uma aliada, uma amiga com quem posso conversar, que não me diz para lutar, que não me exige nada. Noutros dias sinto apenas que ela está ali, ao meu lado, uma presença quase confortante. A cada tropeço, a cada nova queda, sorri-me e murmura: um dia… um dia. Não me estende a mão, não me ajuda a erguer, não limpa as minhas feridas ou seca as minhas lágrimas. Observa-me e sorri. É uma mulher bonita, a Morte. Bonita, não sedutora, pelo menos ainda não a vejo assim, é apenas bonita, calma. E sorri, sorri muito. Quando eu sorria, sorria assim. Um sorriso bonito como o meu. As vezes, antes de adormecer, fico a pensar nela, a imaginá-la. Adivinho-lhe o abraço quase maternal, o colo repousante e penso como seria bom deixar-me embalar no seu peito. É uma sensação boa, sabe? Não ter medo de morrer. É menos uma preocupação, menos uma dor para lidar.

 

Agora deixei-a triste. Devia ter estado calada. Posso abraçá-la? É uma boa ouvinte e quero agradecer-lhe. E já me fez sorrir outra vez, está a ver? Volto para casa com a alma mais leve. Obrigada, obrigada do coração. E seja feliz, sim? Não permita que lhe roubem o sorriso. Nada nem ninguém tem o direito de o fazer. Nada nem ninguém."

in "Gente"

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Por Maria Alfacinha | Segunda-feira, 09 Abril , 2012, 11:17

Gosto do silêncio, das sombras dos ruídos. Gosto de acreditar que, assim, consigo escutar o meu próprio coração a bater, cadenciado, sem pressa, igual ao tempo, porque no sossego o tempo arrasta-se como se, também ele, se tivesse perdido em vagares, e fosse apenas um sussurro sem voz. Gosto de acordar cedo e ficar a ouvir o Nada. Aperceber-me do sacudir das asas dos pássaros e do vento nas folhas do limoeiro. Reconhecer o dia apenas pelo som, acertar a minha respiração pelo compasso de um relógio imaginário. Serena-me, dissipa os maus sonhos, apazigua-me a alma e adoça-me o espírito.


Gosto do que nada tem, nada exibe, nada oferece. Gosto do que apenas existe. Do que apenas É. Gosto de lhe descobrir o Ser, as entranhas, a Alma. Gosto da ausência de uma “razão para”. Gosto do “porque sim” e do “porque não”, por serem indiscutíveis, por não haver argumento que os contestem. São imponentes como redutores de debate, provocadores da Imaginação, inspiradores de Criatividade. Gosto de tudo o que me força a abusar do tacto, a aprender com a ponta dos dedos, a sentir com cada décimo de centímetro da minha pele. Gosto de descobrir formas e cores, texturas e sabores, apenas pelo aroma que emanam, pelo calor que irradiam. Desafia-me a vontade, desperta-me o inconformismo, espicaça-me o desejo.


Também por isso gosto de janelas sem paisagem. E gosto de paisagens desertas. Gosto de olhar para o Infinito sem tropeços que me atrapalhem a visão. Gosto de me sentar assim, ouvir o silêncio e pensar no que não há, no vazio, na imensidão estéril com que a Natureza também nos brinda. Sentir-me pequenina em importância e enorme na capacidade de tudo poder. Porque numa paisagem vazia nada nos distrai, nada interrompe o curso do pensamento, nada nos desvia do nosso propósito. É tão mais fácil entender, encontrar uma razão para nos ter sido concedida esta graça que se chama Vida...


Por Maria Alfacinha | Segunda-feira, 02 Abril , 2012, 19:09

Creio firmemente que as palavras têm uma alma própria. Escritas ou faladas são muito mais que simples conjuntos de caracteres ou sons com significado. Vivem para além de quem as escreve ou de quem as lê. Têm cor, cheiro e sabor. Possuem uma luz que só os mais abençoados conseguem descrever. Tocam-nos. Provocam-nos. Despertam-nos sentidos e convicções que nem sabíamos possuir. Riem-se de nós, mudam-nos a vontade e desentorpecem-nos o querer. Há palavras negras, rosa, laranja, de todas as cores. Há palavras com cheiro a terra molhada e sabor a algodão doce e palavras fétidas que soam a dor. Há palavras que nos embalam ou que nos repelem, que nos enojam ou que nos aquecem. Há palavras para tudo o que nos possamos lembrar. As que nos esclarecem, as que nos confundem, as que nos consolam, as que nos sacodem, as que nos afligem, as que nos fazem sonhar e até há palavras por inventar, por nascer, por criar.

 

Benditas palavras. São parte do meu corpo, alma e coração. São razão quase-quase suficiente para sorrir, para sentir. São essenciais, indispensáveis, imprescindíveis à minha sanidade mental. Sem palavras não sou Eu. Sou apenas Alguém. Perco a identidade, perco o Ser, perco a memória e a capacidade de desejar. São o meu Ar. Benditas palavras! Benditas até quando parecem malditas. Porque as palavras têm essa capacidade imensa de se transformar naquilo que quisermos entender. Fazem-me lembrar pequenos camaleões quando se adaptam aos olhos de quem as lê, às circunstâncias, ao momento, dotadas de quereres e sentires diferentes no tempo, no espaço, as palavras têm uma magia própria, um sentir, um querer. É nelas que revejo os amigos, os amores, os risos, as memórias de uma vida que nem sempre vivi. Mas é também com elas que resguardo o peito, disfarço as lágrimas e as dores e embalo os sonhos que ainda não perdi, que receio perder, os sonhos pelos quais sou capaz de morrer. E são elas, as palavras, que - tantas e tantas vezes! - me conservam a razão.

 

Ah, perca tudo o que há para perder, mas que não perca as palavras onde guardo o que sou. Na estrada da vida é a bagagem que não me pesa, é em mim vida e cor e musica e amor. E se alguém se cruzar comigo e quiser saber o que trago para dar, com toda a verdade posso responder: “São palavras, Senhor, são palavras”


Por Maria Alfacinha | Sexta-feira, 23 Março , 2012, 14:22

Era uma vez uma menina que não gostava de ser criança. Não que fosse infeliz, não que a tratassem mal. Mas falava uma língua que as outras crianças da sua idade não entendiam e a menina gostava de falar e gostava das conversas de gente crescida, do som das palavras que não entendia. A gente crescida percebia que ela estava a ouvir e afastava-a: “Vai-te embora menina! Estas conversas não são para crianças”. Outros, percebendo o efeito que este gesto tinha na menina vinham atrás dela e tentavam consolá-la. Sentavam-se no chão e falavam língua de criança. E a menina aborrecia-se com as palavras simples que lhe ofereciam. Entendia-as todas e ela preferia o som das palavras que não entendia. Ficava presa no sorriso de quem lhe queria bem e imaginava sons de histórias que inventava para esconder as palavras que ouvia. Não podia desiludir aquela pessoa crescida que se esforçava por a consolar. E por isso sorria, não ouvia, mas sorria para fingir que lhe prestava atenção. Sabia já que assim a deixariam mais depressa e que poderia fugir para o quintal à procura de borboletas ou bichos de conta.

 

Era uma vez uma menina que tinha pressa de crescer. Não gostava de estar presa num mundo onde não falavam a sua língua. Era estranho este mundo. Os bebés entendiam-na, os animais também. Uns e outros gostavam quando ela aparecia. Os bebés guinchavam e agitavam as pernitas. Ela contava-lhes histórias e eles riam-se e puxavam-lhe as tranças. Os cães corriam para ela e faziam-lhe companhia deitados ao seu lado na relva, quando ela ali montava escolas e mercearias e hospitais. Gostava também de montar trabalhos. O pai ia para o trabalho e ela gostava de montar um trabalho igual. Um caderno, muitos lápis, um búzio grande a fazer de telefone. Depois sentava-se à frente destas coisas e ficava quieta. À espera. De vez em quando rabiscava no caderno, mais desenhos que palavras que ainda conhecia poucas e no fim o seu nome que já sabia escrever. Falava com os cães conversas de clientes, inventava o toque do telefone e encostava o búzio ao ouvido prestando atenção ao mar do outro lado. Dizia: “Pois, pois! Obrigado!” pousava o búzio e voltava a ficar quieta. À espera. Era isso o trabalho. O nosso nome em todos os papéis e esperar que o mar nos telefonasse.

 

Um dia a irmã da menina que vivia fechada num mundo estranho, pegou-lhe na mão e levou-a a visitar uma senhora de bata branca, como as dos médicos, que sorriu para ela e lhe acariciou a cabeça. Sentou-se num sofá, com as pernas a balançar, enquanto as duas conversavam percebendo que alguma coisa de diferente se estava a passar. O sol entrava pelas grandes janelas e a menina sentia-se quente e confortável ali. Reconhecia o cheiro a lápis de cor e olhava curiosa para os desenhos espalhados pela sala. A senhora então voltou a sorrir, levantou-se e à laia de despedida disse-lhe: “Então vemo-nos em Outubro”  e a menina percebeu que alguma coisa tinha mudado quando a irmã lhe explicou que ela vinha para aquela escola. Ah, nunca um Verão custou tanto a passar. Todas as pessoas crescidas lhe falavam na escola, como ia ser bom aprender a fazer contas. E ia poder finalmente ler sozinha as histórias que usavam para a adormecer. E ia ter uma mochila, e um livro só dela que tinha que estimar. E o coração da menina batia mais forte cada vez que lhe falavam na escola e diziam que já era crescida.

 

Até que o grande dia chegou. A menina acordou cedo e saiu orgulhosa de casa com a mochila que cheirava a nova, bem como tudo o que lá ia dentro. Os tios que viviam ao lado, vieram à rua despedir-se dela e a menina, vaidosa, apressava os pais. Partia para um novo mundo e não queria chegar atrasada. À porta da escola olhou com estranheza todos aqueles meninos vestidos como ela. Alguns sorriam mas muitos choravam agarrados aos pais. Quando a senhora de bata branca se aproximou sempre a sorrir, foi sem medos que lhe pegou na mão, tão excitada para a seguir que os pais tiveram que lhe pedir o beijo que ela já esquecia. Antes de entrar voltou-se para trás para acenar aos pais que ficaram parados no sítio onde os deixara. O pai dava palmadinhas nas costas da mãe que tirava um lenço da mala. Hesitou quando percebeu que a mãe chorava mas ela sorriu-lhe e fez-lhe sinal para continuar. E a menina cheirando a novo como a sua mochila e tudo o que lá ia dentro entrou finalmente no mundo dos crescidos.

 

in "Histórias de menina"


Por Maria Alfacinha | Segunda-feira, 19 Março , 2012, 12:45

Depois de passar meses à procura de emprego, a responder a anúncios de rajada, distribuindo currículos como se o mundo fosse acabar amanhã, a massacrar amigos e conhecidos para que se mantenham atentos e a ocupar praticamente todas as horas do dia em verdadeiros exercícios de imaginação tentando perceber o que faz falta a quem e como poderei ser eu a fornecer esse serviço, receio estar a ultrapassar algum limite social, ético ou de simples educação quando abordo desconhecidos que tiveram o azar de se aproximar de mim. Não sofro de timidez, desde miúda que o facto de não conhecer a pessoa a quem me dirijo não me causa qualquer constrangimento mas confesso que o estômago se me aperta em nós de angústia quando tenho que admitir que estava a ouvir uma conversa privada. Não é uma questão de vergonha é o assumir a falta de respeito pelo espaço que todos temos o direito de preservar e (também) por causa disso faço-o com muito cuidado e após alguma discreta avaliação do impacto que a minha atitude possa causar. Curiosamente tem sido uma experiência não muito desagradável seja pela solidariedade que as pessoas demonstram com desconhecidos ou apenas por uma questão de boa educação o que não me impede de ter que recorrer a todas as minhas forças para não regressar a casa com a sensação que andei a vender a “Cais” numa qualquer esplanada.

 

Há dias dei por mim a pensar que a dificuldade com que lidamos com o desemprego das pessoas é directamente proporcional à afeição que sentimos por elas. Ocorre-me a comparação, grosseira talvez, com a forma como lidamos com a morte. Primeiro lamentamos, abraçamos as pessoas, prestamo-nos a aconchegar-lhes a dor. Depois demonstramos interesse, queremos saber como aconteceu, solidarizamo-nos com a injustiça, partilhamos histórias semelhantes. A seguir chegam as palavras de ânimo, a certeza que tudo se vai resolver, as frases feitas, as portas fechadas que abrem janelas, quem sabe se não foi melhor assim e por fim a exigência da promessa que se precisarem de alguma coisa vão telefonar, a demonstração da disponibilidade para tudo o que seja preciso nem que seja para desabafar. De vez em quando vamos ao seu encontro, telefonamos, interessamo-nos e reiteramos a nossa disponibilidade. Tal como quando alguém morre o mundo não pára porque alguém ficou desempregado e a vida continua indiferente aos percalços. Dói-nos a impotência mas não podemos fazer mais nada e os contactos vão-se espaçando no tempo. E quando nos voltamos a encontrar queremos mostrar-nos animados e confiantes, quase que evitamos o tema, tratando-o como uma fase má que logo, logo vai passar, enaltecemos as qualidades, a força que sempre demonstraram, recordamos episódios passados quase tão complicados quanto este e que hoje fazem parte das histórias que nos fazem sorrir.

 

Desemprego não é um palavrão. É uma realidade que atinge cada vez mais aqueles que conhecemos e não apenas os pobres desgraçados com que nos cruzamos em alguns locais da cidade que até podemos evitar. E é uma realidade de que apenas alguns privilegiados estarão livres de viver. Desempregado não é sinónimo de coitado, não é uma palavra inventada para despertar piedade, é a palavra que designa alguém que não tem emprego e não alguém que tem uma doença contagiosa ou terminal. Evitar o tema do desemprego nas conversas não o vai fazer desaparecer. Não falar das dificuldades não vai alterar a situação. Olhem-nos nos olhos e devolvam-lhes o sorriso que tantos insistem em manter. Por vezes é a única coisa que lhes permite enfrentar um amanhã desconhecido.


Por Maria Alfacinha | Sexta-feira, 16 Março , 2012, 09:13

O João vai a passar na rua e cai num buraco. Levanta-se e quando percebe que não consegue sair sozinho grita por ajuda.

 

Um médico que ia a passar ouve os gritos, tira a caneta do bolso e passa-lhe uma receita. "Isto vai ajudá-lo!" diz o médico atirando a receita para dentro do buraco.
E segue o seu caminho.

Umas horas depois passa um padre.
"Ajude-me, por favor!" pede o João "Caí neste buraco e não consigo sair!".
O padre pára junto ao buraco e reza uma oração. "Tenha Fé, meu filho. A Fé irá ajudá-lo". E segue o seu caminho.

As horas passam.
A fome e o frio já apertam e o João, cansado de tanto tentar sair dali, senta-se num canto desanimado. Ouve novamente passos e reunindo as suas últimas forças grita por ajuda.
Á beira do buraco surge um amigo: "João! Estás magoado?".
"Um pouco mas não é nada grave. Só preciso de ajuda para sair deste buraco". O amigo, sem hesitar, salta para dentro do buraco.
O João assusta-se: "Ó homem. Mas tu és doido?".
O amigo sorri-lhe: "Não. Mas já estive neste buraco e sei o caminho para sair daqui. Não precisas de lutar sozinho."

 

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Num tempo em que todos têm opinião sobre tudo, arrogam-se o estatuto superior de quem não se deixou cair em buracos, distribuindo receitas de poupança a quem já não tem o que poupar, acenando com crenças ou pratos de sopa que funcionam como aspirinas mas não curam a origem da dor de cabeça, esta parábola diz algo que muito poucos têm coragem para fazer: "Toma a minha mão. Não precisas lutar sozinho."


Por Maria Alfacinha | Quinta-feira, 15 Março , 2012, 16:25

Fechei-me em casa. Fechei as portas, fechei as janelas, abri as cortinas. Apaguei as luzes, apaguei a televisão, fechei os olhos, abri os ouvidos, sustive a respiração. Esperei. Sem respirar. Tanto tempo que quase ouvi bater o meu próprio coração. Até que ouvi o que já suspeitava. Soltei o ar que guardava nos pulmões e sorri. Rolavam pedras no céu, ou eram os anjos a arrastar móveis ou as nuvens em cambalhotas. Pouco importava. Abri os olhos e a sala foi invadida pela luz, branca de pálida, brilhante de rápida. Veio-me à memória uma rima antiga: “Quem esta oração rezar, três vezes com devoção, não morrerá de tempestade, nem de susto de trovão”. E lembrei-me onde a aprendi.

 

A Casa da Eira, na aldeia das férias da minha infância, tinha um palheiro em acrescento numa das paredes, como se fosse uma varanda. Quando a chuva interrompia o Verão, era ali que construíamos castelos de faz-de-conta e florestas encantadas. Tanta palha era um sonho para meninos da cidade. Até a comichão era aceitável em troca do gozo das histórias lidas em voz alta, estendida na manta áspera que tinha cheiro a guardado e dos jogos inventados com o que havia à mão. Os livros por ali não abundavam. O padre, muito novo para os crentes - não tanto para nós - tinha algumas vidas de santos, parábolas e numa caixa que guardava numa gaveta da pequena sacristia, uma colecção fantástica de santinhos com que, alheios aos símbolos sagrados, fazíamos uma espécie de jogo de cartas onde ganhava quem conseguisse os santos mais milagreiros. Os nossos companheiros de férias batiam-nos aos pontos, bem mais conhecedores daqueles segredos e com alguns trunfos que, acredito hoje, inventavam com facilidade graças à credulidade de quem não percebia nada de santos. A vingança surgia quando a Mãe Natureza nos oferecia uma trovoada. Desde pequenos tínhamos sido habituados a apreciar as tempestades e a não as recear. Já os nossos amigos tremiam a cada trovão e piscavam os olhos com os relâmpagos, disfarçando o temor com as récitas a Santa Bárbara. E, graças à inconsciência do perigo, este era talvez o único jogo em que ganhavam os meninos da cidade, porque não tinham medo da trovoada.

 

Agora já chove. Uma chuva quase miudinha que, por aqui, não provocará estragos de maior. Embalados na melodia fresca criada pelas pequenas pancadas com que as gotas de água batem no chão, os meus olhos teimam em fechar-se, mesmo que inconscientemente resistam ao sono na ânsia de aproveitar o espectáculo que o céu preparou. Um relâmpago ilumina a casa, como se um anjo tivesse passado por aqui. Prendo a respiração e recito mentalmente: “Santa Bárbara generosa, disfarça não morras triste, Deus fez o que tu pediste, lá no céu e na glória”. Faço uma pausa, um pequeno compasso de espera pelo trovão que tarda. Nada ! E eu sem respirar, sinto a perder-me no riso, afasto a vontade de desistir, esta patetice infantil por querer fazer como em menina e suster o ar até que o céu me responda. Não sei se é pior sentir o coração a saltar ou este riso que não me larga, e o céu que teima em me provocar, como se as nuvens se divertissem a testar-me, até que explodem num ribombar imenso que faz tremer o ar a que junto a minha voz em coro, num só fôlego esquecido da pontuação: “Quem esta oração rezar três vezes com devoção não morrerá de tempestade nem de susto de trovão”. E perdida de riso, dou graças aos deuses por ninguém ter assistido a este momento.

 

in "Histórias de menina"


Por Maria Alfacinha | Sábado, 10 Março , 2012, 14:03

Era cedo, muito cedo ainda.
No céu azul-azul com sofás de nuvens o sol brilhava sem aquecer, como se se tivesse esquecido de cumprir tudo o que se lhe pedia, o que se esperava dele desde que tinha sido criado, há muitos, muitos, muitos e muitos dias atrás.
Mas ainda era cedo.
Muito cedo no dia e muito cedo no ano. A Primavera antecipada ainda agora chegara, não tivera tempo para se instalar, qual visita depois de uma longa viagem que não tem pressa em desfazer as malas, espalhar o que trouxe consigo pelo espaço que vem ocupar, ou distribuir as lembranças por quem a acolhe. Não havia, assim, qualquer estranheza na ausência do calor do sol. Nem no seu brilho que se exibe escandaloso quando a Primavera chega. Nem no facto de a praia estar deserta. Deserta e imensa, corajosa ao expor-se despudorada, branca, nua, qual corpo de gente rendido a um descanso merecido, imagem rara de uma inocência imponente sem temer, nem sequer se aperceber, da grandiosidade do oceano deitado ao seu lado.

Sentada numa pedra fugida ao paredão que um dia o Homem construiu acreditando que podia dominar a Natureza, descalcei botas e meias, arregacei as calças e mergulhei os pés na areia fina e fria, despertando-me os sentidos, forçando-me a constatar que se há algo em mim que consegue fazer-me entender tudo o que não tem explicação, é a pele com que nasci, que me resguarda e ao mesmo tempo me revela, sendo nela que me recolho enquanto me dou. Levantei-me apertando a camisola contra o corpo, escondendo as mãos por baixo da malha, envolvendo-me num abraço a mim mesma, não conseguindo evitar estremecer com o arrepio que percorreu a coluna, preciso, quase violento, desenhando claramente todas e cada uma das vértebras que a compõem e veloz, quase imperceptível, como se tivesse pressa em alcançar as pernas e despenhar-se aos meus pés, diluindo-se na areia, aconchegando-me e aquecendo-me em contradição de sensações.

Enfrentei o areal com ganas de conquista, perseguindo as pegadas que as gaivotas tinham deixado de madrugada, tentando acompanhá-las, seguir o mesmo caminho, descobrir-lhes o destino, esquecida que não sabia voar. Depois criei os meus próprios rastos, marquei rotas em linhas paralelas e círculos que não tinham fim, nem princípio, nem meio, vazios de tudo e cheios de nada. Procurei conchas, descobri seixos, inventei sereias e encantei-me com as ondas mansas que queriam beijar-me os pés. E só então parei e me deixei embalar pela canção que o mar um dia inventou para me sossegar.

Despedimo-nos sem mágoas, eu, a praia e o mar.
Disse-lhes "até já, não tarda muito estou aqui outra vez”.

A praia agitou pequenas dunas, o mar espraiou-se um pouco mais.
E eu regressei a casa com areia na dobra das calças, a pele sabendo a sal e um sorriso maior que o sol.


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