Por Maria Alfacinha | Quarta-feira, 18 Janeiro , 2012, 16:18

Não sei nem me interessa.

Tenho (ou não tenho, problema meu!) mais em que pensar.

Na realidade não quero saber quem é que também vai ficar sem emprego, quem é que também vai perder a casa, quem é que está a ter as mesmas dificuldades que eu. Não me consola, não me ajuda, pelo contrário só me deprime. E não me posso dar ao luxo de entrar em depressão, preciso de me concentrar, manter as forças e o optimismo nem que seja fingido.

Lamento se não me mostro solidária, compreensiva, ávida de lágrimas e pormenores humilhantes. São sempre humilhantes os pormenores, a forma como nos dispensam, como nos olham sem nos verem, não sabem? É assim! Revoltem-se, recusem-se a aceitar, partam a loiça toda mas não acreditem, não se convençam do que vos dizem. E não quero analisar o porquê das minhas dores e dos meus medos. Não quero debatê-los em praça pública. Amolece-me a vontade e derrota-me antes de tempo.

Sim, eu sei que tudo se vai resolver.

Nem que eu morra a tentar.


Por Maria Alfacinha | Sexta-feira, 13 Janeiro , 2012, 17:18

Por Maria Alfacinha | Quarta-feira, 28 Dezembro , 2011, 16:28

Sou dada a reflexões; quem me conhece sabe disso.
Por vezes basta um gesto, uma palavra, uma vaga sensação e dou por mim a reflectir nos porquês, nos ondes, nos comos… Mesmo quando o assunto é sério, no sentido de grave, esta mania (deve ser mania…) não é preocupante já que a maior parte das vezes o meu botão ON/OFF, aquele que há uns anos atrás pensava servir apenas para adormecer e acordar, funciona às mil maravilhas e permite-me desligar a reflexão antes que a mesma se torne deprimente. A regra número Um de todas as reflexões é não lhes dar o controlo da nossa disposição e a regra número Dois é, exactamente, não nos darmos a reflexões quando já estamos, ou estamos prestes a entrar, em depressão. É certo que todos nós temos uma mais ou menos diligente veia masoquista que nos impele a, de quando em vez, mesmo tendo perfeita consciência que mais valia estarmos quietos, matutarmos no que dissemos ou devíamos ter dito, no que fizemos ou devíamos ter feito, no que decidimos ou devíamos ter decidido, enfim… qualquer desculpa é boa para nos sentirmos o ser mais infeliz, incompreendido e digno de compaixão que alguma vez surgiu na longa história da Humanidade. Se há alguém que nunca o fez, por favor diga qualquer coisa pois acho que nunca tive oportunidade de conhecer um tal prodígio da Natureza. Regra número Três das reflexões é que embora possam servir, também, para reconhecer mágoas e dores não podem, não devem, conseguir transformar-nos em Calimeros. Adiante!

 

Voltemos às reflexões. Uma das coisas que nos vão acontecendo ao longo da vida e para as quais não estamos realmente preparados é a questão da idade. O dia em que descobrimos que afinal não temos a vida toda à nossa frente, por exemplo. O quê?? Então já não vou ter tempo para ser astronauta? Ou bombeiro, ou neurocirurgião, ou pirata que para o caso pouco interessa? Outro: o dia em que, ainda mal refeita da pancada anterior, abro o jornal e encontro o emprego que é a minha cara, um anúncio que parece ter sido escrito depois de alguém ter lido o meu currículo. É verdade que procuram candidatos entre os 18 e os 35 anos, mas é com certeza um pró-forma, uma outra maneira de dizer que o lugar requer disponibilidade, energia e uma formação actualizada, por outras palavras, euzinha! Algum tempo depois a resposta: “blablabla… não se enquadra na faixa etária pretendida.” Volto a ler a carta que enviei para tentar perceber onde falhei - não devo ter deixado claro o meu interesse e mais-valias - hesito entre telefonar e exigir uma entrevista pessoal ou enviar um curto email - “Your loss!” - que me tornará persona non grata junto da empresa ou do recrutador, mas que me devolverá imediatamente a auto-estima.  Mais um exemplo? Há uns meses tive gripe. Quando a febre passou, fui ao médico de família para rectificar ou não a medicação que me tinha aconselhado. Depois de passar as receitas, começou a preencher credenciais. O diálogo que se seguiu parecia retirado dum episódio da Twilight Zone: “Vai fazer também estes exames.”, “Porque…?” “Porque está na idade de os fazer.”, “Mas tenho que os fazer já?” “Quanto mais depressa melhor.” “Mas desconfia de alguma coisa?” “Não, mas é melhor prevenir.” “Mas acha que as dores de cabeça é algo mais que um sintoma da gripe?” “Não deve ser, mas vamos verificar.” Já no corredor parei a olhar para os papéis que trazia na mão e a recordar o sorriso condescendente com que tinha sido dispensada. Mas o que é que se passou aqui? Preciso de um anti-histamínico e mandam-me fazer uma colonoscopia? O que é que tem uma coisa a ver com a outra? Pobres médicos... eu sei que não sou uma doente fácil. A primeira razão é exactamente essa: não me sinto doente. Não me doem as costas, os ossos, o coração - de vez em quando dói-me a alma mas à alma os médicos não ligam nenhuma e alguns até são capazes de pensar que temos algum problema na cabeça... - não tenho insónias, não sofro de palpitações, o meu colesterol está óptimo, a tensão arterial é invejável. A única coisa que nos últimos anos perdi, além da paciência para algumas coisas, foi a visão próxima e passei a ter que utilizar óculos para ler. Quando o optometrista me disse que talvez fosse melhor passar a usar óculos o tempo todo mandei-o dar uma curva. Obviamente. No dia em que não conseguir ver para onde é que vai o autocarro, ou não conseguir reconhecer alguém que passa no outro lado da rua, volto lá e tratamos do assunto. Hoje ainda não é o dia. E enquanto não me declararem incompetente vou continuar a ter a última palavra sobre o que é que preciso e não preciso. Ah! E exames extra serão feitos na Primavera, incluídos no check-up anual. Estamos conversados.

 

Na realidade o que se passa é que raramente nos sentimos tão velhos como os outros nos vêem - ou talvez deva dizer "como os outros nos medem" porque o que lhes importa realmente é o ano do nascimento - e como convivemos diariamente connosco cumprir mais um aniversário não nos coloca automaticamente numa “outra” idade. É apenas mais um dia que ontem. E percebemos que há coisas que já aprendemos, preocupações que já não o são e angústias que já não temos que ultrapassar. Há quem não acredite mas a idade tem coisas boas. Difícil é descobrir que não voltaremos a ser crianças. E isso acontece quando perdemos a geração anterior à nossa. Quando os nossos velhotes partem levam com elas as nossas histórias mais ternurentas, as nossas primeiras palavras, as nossas birras. Quem é que nos irá repreender por não nos agasalharmos como deve ser, quem é que vai achar que estamos magros ou cansados, que trabalhamos demais? Quem irá exagerar os nossos feitos, espalhar aos quatro ventos as nossas capacidades, ouvir atentamente os pequenos passos do nosso dia-a-dia, bebendo cada pormenor, repetindo-os depois com os olhos brilhantes de um orgulho como mais ninguém é capaz de sentir por nós? Mais ninguém ficará tão feliz por nos ver ou apenas ouvir a nossa voz. Mais ninguém.

 

Envelhecer é algo que, se tudo correr bem, nos vai acontecer a todos. Só por si já é uma coisa boa, não é? Com mais ou menos dificuldade, mais ou menos ânimo, saúde e uma generosa dose de bom humor podemos fazer de qualquer idade uma idade boa. Difícil, difícil - e se calhar é egoísmo (ou talvez sejam apenas saudades...)  - difícil mesmo é perceber que já não somos a menina de alguém.


Por Maria Alfacinha | Segunda-feira, 19 Dezembro , 2011, 17:16

Era um tempo em que havia tempo e o nosso mundo era bem mais pequeno. Havia a escola - a nossa porta para outro universo - mas havia principalmente a nossa casa e a nossa rua. Em casa haviam mães e pais e quase sempre avós mais ou menos carinhosas, mais ou menos rabugentas. Tínhamos irmãos e não tínhamos paciência ou não os tínhamos e ansiávamos por um. Era o tempo em que as nossas horas livres das obrigações escolares ou domésticas eram passadas na rua, em campeonatos de berlinde, corridas de caricas, a jogar ao lenço, ao ringue, às escondidas ou à apanhada, a saltar ao eixo, à macaca, ao elástico, “Mamã dá licença? Quantos passos?”, “O rei manda...” e o tempo em que quando os dias esfriavam e chovia, saltávamos de casa em casa, experimentando jogos ou inventando disparates, o tempo em que tudo servia para nos entretermos, a televisão era um luxo, não tinham sido inventadas as playstations e os lotos, jogos da glória, dominós, mikados, damas – que o xadrez exigia demasiada concentração – ou simples torneios de “bisca”, ocupavam toda a nossa atenção e preenchiam as tardes até à hora do lanche que ninguém estranhava ser servido a todas as crianças presentes, fossem da casa ou não.

 

Tínhamos animais. Galinhas, coelhos, pombos, peixinhos vermelhos, gatos e cães que nos acompanhavam para todo o lado, que esperavam que viéssemos da escola, que se deixavam abraçar, com quem dividíamos a merenda e os segredos, nossos cúmplices nas tolices, o nosso conforto nas horas de castigo. Os nossos cães tinham coleira para toda a gente saber que tinham uma família, mas não precisavam de trela porque eram eles que tomavam conta de nós. E as nossas mães sabiam disso e falavam com eles: "Vai buscar o menino. Onde está a menina?" E eles ufanos não nos largavam, conheciam todos os nossos esconderijos e acabavam por nos denunciar na ânsia de proteger.

 

Um Verão, para o caso não interessa como, surgiu um burro na nossa vida. Já tinham passado pela nossa rua patos, perus e até ovelhas mas um burro era a primeira vez. E eu que me tinha apaixonado pela história da Condessa de Ségur chamei-lhe Cadichon. Meninos da cidade, ninguém sabia como tratar um burro e assim fizemos dele mais um cão. Fugíamos para os campos atrás das nossas casas e passávamos a tarde inteira esperando que pastasse. Fazíamos planos para o futuro fingindo que ele ficaria connosco para sempre e esquecendo-nos que o Outono iria voltar e a escola estaria à nossa espera. E o Verão passou quente e doce como eram os Verões da minha infância.

 

Vieram as primeiras chuvas. O tempo continuava quente e a nós pouco nos importava que chovesse. Mas dizia-nos a experiência que não devíamos desafiar a boa sorte e, antes que escurecesse por completo e se lembrassem de nós deveríamos regressar à garagem que nos servia de quarto de brincadeiras. Os cães entraram à nossa frente e um de nós foi buscar o Cadichon que não se fez rogado. Não contávamos é que, contrariamente aos nossos companheiros caninos, Cadichon se recusasse a descer as escadas para a garagem fincando as patas no chão sem mostrar qualquer vontade em sair do hall de entrada. Tentámos tudo: cenouras e maçãs, ameaças, promessas de passeios, nada o conseguiu demover. Até que, com certeza farto da nossa insistência e para nosso terror, Cadichon desatou a zurrar, a porta da sala abre-se de rompante e surge a figura imponente do dono da casa. À sua frente, completamente encharcados, quatro crianças conscientes da transgressão, um burro que parecia rir-se de todos nós e dois cães entusiasmados com tanta agitação. Escusado será dizer que, não sendo o dono da casa o meu pai, me apressei a murmurar um “Até amanhã!” e a correr para a minha própria casa onde suavizei o que se tinha passado tentando minorar o merecido castigo que não tardaria. Durante alguns dias estive proibida de brincar na rua e por pouco não conseguia despedir-me do Cadichon quando, para sossego de todos, foi enviado para a aldeia onde, segundo sei, viveu uma longa e pacífica vida. A menina que eu era abraçou o seu cão e deixou que ele lhe lambesse as lágrimas. E de vez em quando pegava nas “Memórias de um burro” e matava as saudades do seu Cadichon.


Por Maria Alfacinha | Terça-feira, 13 Dezembro , 2011, 11:02
então e o biscoito?? hum? hum?

Por Maria Alfacinha | Segunda-feira, 12 Dezembro , 2011, 16:54

De há uns meses para cá impus-me a mim mesma deixar de ler tantos jornais. Além de raramente ficar mais bem informada – razão pela qual os lia… - um dia dei por mim a soltar um palavrão enquanto, num gesto de incontida raiva, o dobrava uma e outra vez, para que coubesse na mala de onde transitaria directamente para o caixote de lixo mais próximo. Não seria muito grave se não fossem 8 da manhã e não me encontrasse encaixada entre dezenas de outros passageiros num dos comboios que me leva até ao emprego. Ah! E se, em vez de apenas o pensar, como estava convencida que o tinha feito, não o tivesse dito em voz suficientemente alta para que quase meia carruagem tivesse ouvido. Acreditem… nem mesmo os poucos sorrisos que se abriram conseguiram minimizar o mal-estar ou a vontade de me enfiar debaixo de algum dos bancos durante os 2 ou 3 minutos que faltavam para chegar ao meu destino. Escusado será dizer que nunca mais apanhei (ou apanharei!) aquele comboio. Vou dez minutos mais tarde e vou muito a tempo.

 

A segunda razão, embora na realidade seja a primeira, pois foi a que despoletou a cena no comboio, (e não liguem que isto já sou eu a divagar) foi o facto de estar farta, fartinha, e fartíssima de parangonas sensacionalistas, notícias repetidamente deprimentes e colunas de opinião escritas pelos 325.482 especialistas portugueses que já sabiam que íamos chegar a este ponto desde que eram pequeninos, que apontam variados e comprovadíssimos caminhos para conseguir dar a volta à crise, mil e uma maneiras para poupar água e outros bens essenciais e ainda nos informam quais as melhores aplicações financeiras onde colocar aqueles imensos euros com que vamos chegar ao fim do mês. Se acrescentarmos a tudo isto as verdadeiras injecções de dados tipo antes-e-agora que, na minha modesta opinião, só servem para nos deixar mais desalentados e os artigos sobre as vantagens da crise, desde a consciencialização da população (nem à marretada vai, mas enfim!), ao mercado de trabalho barato (são raros os profissionais que se podem dar ao luxo de pedir salários decentes, quanto mais grandes salários), às oportunidades de negócio (a proliferação de lojas que compram ouro tem mantido viva a minha esperança num futuro melhor), passando por aquilo que chamam de estímulo para mudar de vida (e o melhor é mesmo emigrar para longe da Europa ou dos Estados Unidos) e incentivo à criatividade (poderia explicar o que fazer com ela mas não me vou pronunciar), ler jornais hoje em dia é apenas aconselhável a masoquistas, profetas da desgraça, treinadores de bancada e, é claro, fanáticos de futebol ou de reality shows já que a esses, parece-me, tudo o resto lhes passa ao lado.

 

Claro que quero manter-me informada. Notícias online, um ou outro programa de televisão, a opinião de dois ou três comentadores que me parecem competentes e principalmente sensatos, são informação mais que suficiente. Jornal no Alpendre só a Dica que aparece todas as semanas na caixa de correio e que, depois de uma breve passagem de olhos pelos “bonecos”, serve para impor respeito à Lolita. Ou isso, ou para forrar o caixote de lixo.
Ora… e não é que era isso mesmo que as nossas mães já faziam?
Essas sim, verdadeiras especialistas (também) em Economia.

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Por Maria Alfacinha | Sexta-feira, 09 Dezembro , 2011, 11:37

Gosto de Bolas de Berlim.
Bolas de Berlim com creme.
Bola de Berlim sem creme ou com outro recheio que não o creme de ovos, não é uma verdadeira Bola de Berlim.
E Bolas de Berlim ditas light, numa mistura estranha de ingredientes desnatados, desengordurados e alegadamente saudáveis são, quanto a mim, uma aberração. Chamem-lhe o que quiserem mas não são Bolas de Berlim. Bola de Berlim que se preze tem que ter a massa fofa, a crosta bem frita, generosamente coberta de açúcar, recheada até ligeiramente menos de metade do seu tamanho e finalizada por uma magnífica coroa de creme do exacto tom de amarelo que desperta as papilas gustativas. Bola de Berlim a sério tem que ser péssima para o colesterol e suficientemente grande para que comê-la à mão - como devem ser comidas - em público seja apenas permitido aquelas almas corajosas que não têm medo do ridículo.

 

Em abono da verdade não como Bolas de Berlim a sério muitas vezes.
Primeiro porque quase nunca as vejo à venda, depois porque encontrar uma Bola de Berlim perfeita é como encontrar uma agulha num palheiro: quando a massa é leve o creme é aldrabado, quando o creme é bom a massa é tão densa que à terceira dentada já só apetece deixá-la para mais tarde (eufemismo para vai-para-o-lixo-daqui-a-bocado-ou-desfaço-a-em-migalhas-para-os-pardais) não sem antes a abrir ao meio, sorver o resto do creme e procurar algum consolo no açúcar que sempre fica colado aos dedos. Mesmo estando consciente desta realidade, é raro resistir a comprar uma para comer a meio da manhã quando por sorte as vejo na montra gesto este que é quase sempre acompanhado de algum sofrimento. Passo a explicar. Hoje em dia, na maior parte dos cafés, quando pedimos para levar uma sandes ou um bolo, usam pacotes de papel, claramente mais práticos e, não tenho qualquer dúvida, mais económicos. A minha veia ambientalista poderia ter aqui uma oportunidade para defender a diminuição da pegada ecológica, mas muito francamente, neste caso, aquilo que me incomoda é o efeito que têm na minha Bola de Berlim. Não os sacos, obviamente, mas as pessoas que os manuseiam. Não é que, se eu não disser nada, colocam sempre a Bola de Berlim com o creme para baixo? Sempre! Nunca vi uma alminha hesitar sequer quando avança destemida de pinça na mão e procura o lado em que lhe vai pegar. E ainda há quem, depois de se debater com o saco para que o creme atravesse sem percalços a abertura, a deixe cair sem piedade no fundo, enquanto eu, paralisada pela incredulidade, com os olhos esbugalhados de horror, solto um gemido doloroso ou esboço um gesto inútil para travar tal acto impensado mas não menos criminoso.

 

Tornei-me, pois, mais explícita: “Uma Bola de Berlim com creme para levar, por favor” e antes que a famigerada pinça possa sequer roçar o objecto do meu desejo, continuo: “Não se importa de lhe pegar pelo outro lado? Para que o creme fique para cima?” Há quem aceda, com ou sem sorriso. Numa ocasião houve alguém que me explicou, obviamente sem pensar: “Mas assim vou sujar a pinça!” ao que eu não resisti responder com um: “Bom, mas tem que a lavar de vez em quando, não é?”, provocando os sorrisos cúmplices de quem observava a cena e o encolher de ombros da minha interlocutora. Nada que me preocupe. À conta das Bolas de Berlim ainda me torno persona non grata nos cafés que as servem. Por vezes divirto-me a imaginar os nomes que me estão a chamar mas normalmente recordo as Bolas de Berlim da praia, escondidas em estojos que homens e mulheres de pele castigada pelo sol, vestidos de branco brilhante, carregavam à cabeça durante quilómetros de areia quente apenas e só, é minha convicção, para tornar os nossos dias de férias mais saborosos e inesquecíveis. Pouco me importa se agora sou considerada esquisita, chata ou, na melhor das hipóteses excêntrica. As memórias felizes merecem. E as Bolas de Berlim também.

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Por Maria Alfacinha | Quarta-feira, 07 Dezembro , 2011, 17:16
o sabor é o mesmo mas são bem mais pequenas...

 


Por Maria Alfacinha | Terça-feira, 06 Dezembro , 2011, 12:39

(...)

 

O dia amanheceu cinzento. Sara saltou da cama com entusiasmo e afastou as cortinas do quarto por sobre um longo manto verde e húmido. Vestiu o roupão sem pressa e sorriu para a paisagem. Depois de passar pela casa de banho onde lavou rapidamente a cara e os dentes saiu do quarto e desceu as escadas. O relógio marcava 6 da manhã. Com um pouco de sorte tinha ainda algumas horas de sossego antes que o telefone começasse a tocar ou alguém lhe batesse à porta.

Entrou na cozinha e dirigiu-se rapidamente para a máquina de café. Enquanto esta aquecia abriu a porta do frigorífico de onde tirou a manteiga, a compota e o leite. Colocou duas fatias de pão na torradeira escolheu algumas laranjas grandes e espremeu-as no espremedor enchendo dois copos de sumo doce. O pão torrado saltou, barrou-o com manteiga, voltou a encher a torradeira e colocou tudo na grande mesa da cozinha. Depois acendeu a televisão e sentou-se virada para a grande janela que dava para o pátio. Viu ao longe André que regressava da sua volta matinal com os cães. Pouco depois entravam todos pela cozinha.

“Já estás acordada?” perguntou André

“Está um dia maravilhoso, não reparaste?” respondeu ela enquanto preparava mais torradas

André sorriu: “Sim, já sei que adoras este tempo. Mas eu venho cheio de frio.”, respondeu enquanto enchia as tigelas dos cães com ração.

“Café?” perguntou Sara fazendo menção de se levantar

“Não.”, respondeu André pousando a mão no braço dela. “Deixa-me primeiro beber um sumo e comer as torradas. Já faço o café.”

Sentou-se ao lado dela e olhou para a televisão: “Disseram alguma coisa sobre a aldeia?”

“Não.”, respondeu Sara, “Ainda não. Mas não deve demorar. A jornalista disse que seria nas notícias da manha.”

“Ainda é cedo.”, disse André, “Se calhar não falam disso antes das 8.”

“Veremos.”, respondeu Sara, “quer se queira quer não sempre é um acontecimento.”

“Um triste acontecimento”, respondeu André, “não precisávamos de notícias destas.”

“Antes falada que esquecida.”, murmurou Sara

“Quê?”, perguntou André engolindo o sumo

“Nada… porque é que as loiras não se importam com as anedotas acerca delas?”

“São como os alentejanos… são elas que as inventam.” riu-se André. “Não sei. Porque é que as loiras não se importam com as anedotas acerca delas?”

“Antes faladas que esquecidas.” respondeu Sara triunfante.

“Queres dizer que a nossa aldeia é uma loira?”

“Quero dizer que não passa despercebida. Dava jeito mais turistas por aqui.”

“Sim, claro. Já estou a ver os cartazes. Venha visitar Casal da Cerca, onde o crime torna tudo mais interessante.”

“Parvo!”, riu-se Sara a contragosto

“Podíamos até convencer o Ferreira a fazer menus especiais: pequeno-almoço à Estripador, almoço à Serial-Killer e…”

“Chiuuu…” interrompeu Sara levantando o som da televisão. “Estão a falar do Casal.”

 

(...)

 

in "Estranha Terra"


Por Maria Alfacinha | Sexta-feira, 02 Dezembro , 2011, 17:13

Tenho um ouvido apurado. Saio - como em muitas outras coisas - ao meu pai embora nem lhe chegue aos calcanhares na capacidade que tinha em fazer musica fosse com o que fosse. A ele bastava-lhe ouvir uma vez uma melodia, ou experimentar um qualquer instrumento musical, para logo de seguida arrancar acordes quase perfeitos e poucos minutos de ensaio eram suficientes para interpretar a peça completa. Eu sou teimosa, é o meu grande talento. Tanto hei-de procurar, tanto hei-de experimentar que acabarei por a conseguir tocar. Claro que tal talento pode levar à loucura quem me rodeia…  

O piano foi sempre o meu instrumento de eleição. Em casa dos meus tios havia um. Tinha sido nele que as crianças da casa tinham praticado (e praticado e praticado) depois das aulas de música a sério, as que eu nunca tive, que em tempos lamentei não ter e que hoje duvido tivesse paciência para suportar. Mas aquele piano fazia as minhas delícias de menina. Ainda pequenina, abria a porta do escritório, levantava com dificuldade a tampa e pondo-me em bicos dos pés trepava para o banco tentando perceber até onde os meus braços poderiam chegar. Depois, com um único dedo experimentava as escalas, decorando a ordem, descobrindo uma ou outra combinação, tentando que a tecla tocasse a mesma nota que a minha voz, até perceber que o piano tinha uma voz própria, que não a podia comandar, que seria eu que teria que o acompanhar. Era tão silenciosa aquela sala… Era impossível não encher o ar de música: “Quand trois poules vont aux champs” e o dedito hesitante “do-do-la”, não… “do-do-sol”, sim… parece ser isto “do-do-la”… ai  “sol”, outra vez “do-do-sol-sol” e agora? “do-do-sol-sol-… la-la… sol”, sim, sim, do principio “do-do-sol-sol-la-la-sol” agora ao mesmo tempo “Quand trois (do-do)poules (sol-sol)vont aux(la-la)champs(sol)”
Ah, que felicidade! O meu dedo sabia uma canção, reconhecia as notas, decorava o caminho saltitando de tecla em tecla… “Quand trois poules vont aux champs, la première marche devant…” e o dedito corria as teclas “do-do-sol-sol-la-la-sol, fa-fa-mi-mi-re-re-do” e eu ria feliz, batia palmas chamava pelos meus tios, queria que eles vissem e se espantassem e aplaudissem o meu feito. E eles vieram, espantaram-se e aplaudiram como sempre fizeram comigo até ao fim das suas vidas.

Ao longo dos anos fui aprendendo outras melodias. Com muita prática e ainda mais teimosia, passei a utilizar primeiro 5 dedos de uma mão e depois as 2 mãos. Nunca achei necessário aprender a usar os pedais, mas deve ter a ver com o meu carácter prático: para quê complicar?
Não, não toco piano, nem de perto nem de longe.
Brinco com as teclas e divirto-me com isso.
Se há melodias perfeitas?
Sim, conheço algumas… De momento só me lembro desta:
“Quand trois poules vont aux champs…"

 


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