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Elas merecem

por Maria Alfacinha, em 09.12.11

 

Gosto de Bolas de Berlim.
Bolas de Berlim com creme.
Bola de Berlim sem creme ou com outro recheio que não o creme de ovos, não é uma verdadeira Bola de Berlim. E Bolas de Berlim ditas light, numa mistura estranha de ingredientes desnatados, desengordurados e alegadamente saudáveis são, quanto a mim, uma aberração. Chamem-lhe o que quiserem mas não são Bolas de Berlim. Bola de Berlim que se preze tem que ter a massa fofa, a crosta bem frita, generosamente coberta de açúcar, recheada até ligeiramente menos de metade do seu tamanho e finalizada por uma magnífica coroa de creme do exacto tom de amarelo que desperta as papilas gustativas. Bola de Berlim a sério tem que ser péssima para o colesterol e suficientemente grande para que, comê-la à mão - como devem ser comidas - em público, seja apenas permitido aquelas almas corajosas que não têm medo do ridículo.

 

Em abono da verdade não como Bolas de Berlim a sério muitas vezes.
Primeiro porque quase nunca as vejo à venda, depois porque encontrar uma Bola de Berlim perfeita é como encontrar uma agulha num palheiro: quando a massa é leve o creme é aldrabado, quando o creme é bom a massa é tão densa que à terceira dentada já só apetece deixá-la para mais tarde (eufemismo para vai-para-o-lixo-daqui-a-bocado-ou-desfaço-a-em-migalhas-para-os-pardais) não sem antes a abrir ao meio, sorver o resto do creme e procurar algum consolo no açúcar que sempre fica colado aos dedos. Mesmo estando consciente desta realidade, é raro resistir a comprar uma para comer a meio da manhã quando por sorte as vejo na montra, gesto este que é quase sempre acompanhado de algum sofrimento. Passo a explicar. Hoje em dia, na maior parte dos cafés, quando pedimos para levar uma sandes ou um bolo, usam pacotes de papel, claramente mais práticos e, não tenho qualquer dúvida, mais económicos. A minha veia ambientalista poderia ter aqui uma oportunidade para defender a diminuição da pegada ecológica, mas muito francamente, neste caso, aquilo que me incomoda é o efeito que têm na minha Bola de Berlim. Não os sacos, obviamente, mas as pessoas que os manuseiam. Não é que, se eu não disser nada, colocam sempre a Bola de Berlim com o creme para baixo? Sempre! Nunca vi uma alminha hesitar sequer quando avança destemida de pinça na mão e procura o lado em que lhe vai pegar. E ainda há quem, depois de se debater com o saco para que o creme atravesse sem percalços a abertura, a deixe cair sem piedade no fundo, enquanto eu, paralisada pela incredulidade, com os olhos esbugalhados de horror, solto um gemido doloroso ou esboço um gesto inútil para travar tal acto impensado mas não menos criminoso.

 

Tornei-me, pois, mais explícita: “Uma Bola de Berlim com creme para levar, por favor” e antes que a famigerada pinça possa sequer roçar o objecto do meu desejo, continuo: “Não se importa de lhe pegar pelo outro lado? Para que o creme fique para cima?” Há quem aceda, com ou sem sorriso. Numa ocasião houve alguém que me explicou, obviamente sem pensar: “Mas assim vou sujar a pinça!” ao que eu não resisti responder com um: “Bom, mas tem que a lavar de vez em quando, não é?”, provocando os sorrisos cúmplices de quem observava a cena e o encolher de ombros da minha interlocutora. Nada que me preocupe. À conta das Bolas de Berlim ainda me torno persona non grata nos cafés que as servem. Por vezes divirto-me a imaginar os nomes que me estão a chamar mas normalmente recordo as Bolas de Berlim da praia, escondidas em estojos que homens e mulheres de pele castigada pelo sol, vestidos de branco brilhante, carregavam à cabeça durante quilómetros de areia quente apenas e só, é minha convicção, para tornar os nossos dias de férias mais saborosos e inesquecíveis. Pouco me importa se agora sou considerada esquisita, chata ou, na melhor das hipóteses excêntrica. As memórias felizes merecem. E as Bolas de Berlim também.

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publicado às 11:37


3 comentários

De saltapocinhas a 12.12.2011 às 20:00

eu também AMO bolas de berlim, mas assim, tal e qual como as descreves.
Com uma única diferença: só as como na praia, só lá me sabem bem.
posso ver uma montra de pastelaria cheia delas que nem salivo!

De Maria Alfacinha a 13.12.2011 às 12:06

Já não me lembro a última vez que vi Bolas de Berlim na praia...
Mas mesmo assim acho que continuava a salivar quando as visse nas pastelarias :-)

De Cris a 08.08.2015 às 07:54

E agora fiquei com uma vontade louca de comer uma bola de Berlim! Ai!
(também me fez lembrar os tempos da praia, quando era miúda)

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