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Santa Bárbara

por Maria Alfacinha, em 15.09.15

santa bárbara

Fechei-me em casa. Fechei as portas, fechei as janelas, abri as cortinas. Apaguei as luzes, apaguei a televisão, fechei os olhos - abri os ouvidos - sustive a respiração. Esperei. Sem respirar. Tanto tempo que quase ouvi bater o meu próprio coração. Até que surgiu o que já suspeitava. Soltei o ar que guardava nos pulmões e sorri: rolavam pedras no céu, ou eram os anjos a arrastar móveis ou as nuvens em cambalhotas. Pouco importava. Abri os olhos e a sala foi invadida pela luz, branca de pálida, brilhante de rápida. Veio-me à memória uma rima antiga: “Quem esta oração rezar, três vezes com devoção, não morrerá de tempestade, nem de susto de trovão”. E lembrei-me onde a aprendi.

 

A Casa da Eira, na aldeia das férias da minha infância, tinha um palheiro em acrescento numa das paredes, como se fosse uma varanda. Quando a chuva interrompia o Verão, era ali que construíamos castelos de faz-de-conta e florestas encantadas. Tanta palha era um sonho para meninos da cidade. Até a comichão era aceitável em troca do gozo das histórias lidas em voz alta, estendida na manta áspera que tinha cheiro a guardado e dos jogos inventados com o que havia à mão. Os livros por ali não abundavam. O padre, muito novo para os crentes - não tanto para nós - tinha algumas vidas de santos, parábolas e numa caixa que guardava numa gaveta da pequena sacristia, uma colecção fantástica de santinhos com que, alheios aos símbolos sagrados, fazíamos uma espécie de jogo de cartas onde ganhava quem conseguisse os santos mais milagreiros. Os nossos companheiros de férias batiam-nos aos pontos, bem mais conhecedores daqueles segredos e com alguns trunfos que, acredito hoje, inventavam com facilidade graças à credulidade de quem não percebia nada de santos. A vingança surgia quando a Mãe Natureza nos oferecia uma trovoada. Desde pequenos tínhamos sido habituados a apreciar as tempestades e a não as recear. Já os nossos amigos tremiam a cada trovão e piscavam os olhos com os relâmpagos, disfarçando o temor com as récitas a Santa Bárbara. E, graças à inconsciência do perigo, este era talvez o único jogo em que ganhavam os meninos da cidade, porque não tinham medo da trovoada.

 

Agora já chove. Uma chuva quase miudinha que, por aqui, não provocará estragos de maior. Embalados na melodia fresca criada pelas pequenas pancadas com que as gotas de água batem no chão, os meus olhos teimam em fechar-se, mesmo que inconscientemente resistam ao sono na ânsia de aproveitar o espectáculo que o céu preparou. Um relâmpago ilumina a casa, como se um anjo tivesse passado por aqui. Prendo a respiração e recito mentalmente: “Santa Bárbara generosa, disfarça não morras triste, Deus fez o que tu pediste, lá no céu e na glória”. Faço uma pausa, um pequeno compasso de espera pelo trovão que tarda. Nada! E eu sem respirar, sinto o riso que me invade, afasto a vontade de desistir, esta patetice infantil por querer fazer como em menina e suster o ar até que o céu me responda. Não sei se é pior sentir o coração a saltar ou este riso que não me larga, e o céu que teima em me provocar, como se as nuvens se divertissem a testar-me, até que explodem num ribombar imenso que faz tremer o ar a que junto a minha voz em coro, num só fôlego esquecido da pontuação: “Quem esta oração rezar três vezes com devoção não morrerá de tempestade nem de susto de trovão”. E perdida em gargalhadas, dou graças aos deuses por ninguém ter assistido a este momento.

 

in "Histórias de menina"

publicado às 15:15


4 comentários

De Paulo Vasco Pereira a 16.09.2015 às 23:21

Delicioso, delicioso, delicioso... 1000 vezes delicioso.
Não foi exatamente assim a minha infância mas foi tão bom recordar. Senti cada palavra.
Eu, amante da chuva e do tempo mais fresco, regra geral dançava e cantava debaixo das primeiras chuvas. Ainda hoje amo aquele cheiro a terra. Só já não canto porque, com a mudança de voz, passei a desafinar de tal forma que algum relâmpago ainda cairia junto a mim.
Já estudante universitário, em Viseu assisti a uma trovoada "seca" divina. Duas vertentes, poderosa, fazia com que as paredes e o chão da casa estremecessem. A senhoria, aflita, andava entre a casa de banho e o quarto, sem saber se devia ou não rezar (era Testemunha de Jeová). Eu admirava. A eterna e admirável força da natureza.
Quem disse que somos superiores?

Daqui não posso sair sem uma vez mais expressar os meus parabéns por este magnífico texto.
Bjs

De Maria Alfacinha a 05.10.2015 às 14:26

Obrigada querido Paulo :-)

De Mãe Maria a 29.09.2015 às 12:29

lindo texto. Só me lembro em pequena do medo que tinha da trovoada. Tinha a sensação que o mundo ia desabar. Hoje, mantenho respeito por este tempo. Não o amo, não me sinto ainda afeiçoada a ele. Encolho-me dentro de mim mesma de modo a ninguém perceber, para não parecer mariquinhas pé de salsa e gozarem-me. Tento ser forte quando o meu interior se desfaz lentamente.

De Maria Alfacinha a 05.10.2015 às 14:27

:-) eu confesso que gosto de trovoadas.
Respeito-as, sim, pois já vi que estragos podem causar, mas medo nunca tive...

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