Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Estranhos sorrisos

por Maria Alfacinha, em 19.03.12

 

Depois de passar meses à procura de emprego, a responder a anúncios de rajada, distribuindo currículos como se o mundo fosse acabar amanhã, a massacrar amigos e conhecidos para que se mantivessem atentos e a ocupar praticamente todas as horas do dia em verdadeiros exercícios de imaginação tentando perceber o que faz falta a quem e como poderia ser eu a fornecer esse serviço, receio estar a ultrapassar algum limite social, ético ou de simples educação quando abordo desconhecidos que tiveram o azar de se aproximar de mim. Não sofro de timidez, desde miúda que o facto de não conhecer a pessoa a quem me dirijo não me causa qualquer constrangimento mas confesso que o estômago se me aperta em nós de angústia quando tenho que admitir que estava a ouvir uma conversa privada. Não é uma questão de vergonha é o assumir a falta de respeito pelo espaço que todos temos o direito de preservar e (também) por causa disso faço-o com muito cuidado e após alguma discreta avaliação do impacto que a minha atitude possa causar. Curiosamente tem sido uma experiência não muito desagradável seja pela solidariedade que as pessoas demonstram com desconhecidos ou apenas por uma questão de boa educação o que não me impede de ter que recorrer a todas as minhas forças para não regressar a casa com a sensação que andei a vender a “Cais” numa qualquer esplanada.

 

Há dias dei por mim a pensar que a dificuldade com que lidamos com o desemprego das pessoas é directamente proporcional à afeição que sentimos por elas. Ocorre-me a comparação, grosseira talvez, com a forma como lidamos com a morte. Primeiro lamentamos, abraçamos as pessoas, prestamo-nos a aconchegar-lhes a dor. Depois demonstramos interesse, queremos saber como aconteceu, solidarizamo-nos com a injustiça, partilhamos histórias semelhantes. A seguir chegam as palavras de ânimo, a certeza que tudo se vai resolver, as frases feitas, as portas fechadas que abrem janelas, quem sabe se não foi melhor assim e por fim a exigência da promessa que se precisarem de alguma coisa vão telefonar, a demonstração da disponibilidade para tudo o que seja preciso nem que seja para desabafar. De vez em quando vamos ao seu encontro, telefonamos, interessamo-nos e reiteramos a nossa disponibilidade. Tal como quando alguém morre, o mundo não pára porque alguém ficou desempregado e a vida continua indiferente aos percalços. Dói-nos a impotência mas não podemos fazer mais nada e os contactos vão-se espaçando no tempo. E quando nos voltamos a encontrar queremos mostrar-nos animados e confiantes, quase que evitamos o tema, tratando-o como uma fase má que logo, logo vai passar, enaltecemos as qualidades, a força que sempre demonstraram, recordamos episódios passados quase tão complicados quanto este e que hoje fazem parte das histórias que nos fazem sorrir.

 

Desemprego não é um palavrão. É uma realidade que atinge cada vez mais aqueles que conhecemos e não apenas os pobres desgraçados com que nos cruzamos em alguns locais da cidade que até podemos evitar. E é uma realidade de que apenas alguns privilegiados estarão livres de viver. Desempregado não é sinónimo de coitado, não é uma palavra inventada para despertar piedade, é a palavra que designa alguém que não tem emprego e não alguém que tem uma doença contagiosa ou terminal. Evitar o tema do desemprego nas conversas não o vai fazer desaparecer. Não falar das dificuldades não vai alterar a situação. Olhem-nos nos olhos e devolvam-lhes o sorriso que tantos insistem em manter. Por vezes é a única coisa que lhes permite enfrentar um amanhã desconhecido.

publicado às 12:45


4 comentários

De aflores a 21.03.2012 às 17:13

Este é, sem dúvida alguma, o melhor post que li nestes últimos dias.
De uma forma simples, resume o que nos últimos anos da minha vida eu senti e passei.

O desemprego, a morte de familiares e amigos, um grave problema de saúde... por tudo passei, mas só pedia (na maior parte das vezes) UM SORRISO, um sinal de esperança!

Tudo de bom.

:)

De Maria Alfacinha a 21.03.2012 às 17:23

Ah amigo... é tão difícil explicar estas coisas a quem, felizmente, nunca teve que as viver!
E nem sempre sei se o consegui fazer...
Obrigada pelo sorriso!
Leva do alpendre quantos quiseres! :-)))

De Michelle MVH a 05.09.2012 às 12:06

Pois, tens razão. E a grande verdade é que a maioria das pessoas não se solidariza. Por um lado, porque como nunca lhes aconteceu, não fazem ideia do que é e, por outro, porque morrem de medo de vir a perceber o que é. E não me refiro apenas ao desemprego. À morte. refiro-me a tudo o que nos aflige na sociedade. Aprendi, com os meus erros e reconhecendo sempre que também estive desse lado, que, muitas pessoas só aprendem a compaixão quando são elas a recebê-la dos outros. Bom texto. Desculpa a amargura.

De Maria Alfacinha a 05.09.2012 às 15:47

Há coisas que é mesmo preciso passar por elas para perceber o que se sente. Sabes o que me custava mais? O não me olharem nos olhos, não chamarem os bois pelo nome, o "fugirem" de mim. No desemprego e na morte e na doença, exactamente naqueles momentos em que precisamos que nos olhem confiantes, que nos estendam a mão, não para nos dar emprego (ou comida, ou dinheiro), mas para sabermos que não estamos sós. As mesmas pessoas que nos "afogam" nos relatos das suas infelicidades...
Beijo grande e nunca peças desculpa por aquilo que sentes

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Março 2012

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031




 






O Meu Alpendre


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D