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O Departamento

por Maria Alfacinha, em 18.07.12

 


De vez em quando dou por mim a pensar que anda por aí alguém muito ocupado a escrever a história da minha vida.
Há dias em que acordo com aquela sensação estranha que o meu querer não me pertence e que os meus gestos foram há muito definidos por alguém que não eu como se, algures, não sei se no Céu ou na Terra, houvesse um Departamento que não faz mais nada senão analisar o que faço, o que me acontece e que, por artes e manhas me leva a agir de uma determinada forma. Não falo de destinos ou fados, mas de uma espécie de guião rudimentar e  - Oh, meus deuses! - sempre tão complexo, que define cada uma das minhas acções, reacções ou pura e simples indiferença.
Estranhamente agrada-me esta teoria, logo eu que apregoo aos quatro ventos que só faço o que quero, quando quero e como quero. E agrada-me não porque o reconhecimento de que algo estava previamente escrito me desculpabilize ou sirva de explicação para atitudes menos felizes - quando tudo corre mal sou a primeira a assumir a responsabilidade - mas porque ridiculariza a soberba com que, de quando em vez, defendo quem sou.

 

Imagino-me, assim, no alto da minha (enorme!) autoconfiança a definir timings, a planear minuciosas estratégias e a tomar decisões mais ou menos importantes. Sinto-me bem, segura, convicta, agigantada pela temeridade das atitudes ou pela sagacidade do raciocínio. Enquanto isso, um obscuro funcionário do dito Departamento, prepara mais um relatório sobre mim, apresenta-o ao Superior hierárquico e espera impaciente os comentários:
“Hum... ela decidiu assim? Há quanto tempo é que a temos deixado tomar conta da situação?”  O sombrio Subalterno, tenta sorrir mas a perversidade é tal que o rosto contorce-se num esgar esverdeado: “Há uma eternidade!” assegura “Há pelo menos uma semana, chefe!” emenda logo de seguida reparando no olhar sério do Superior, que habituado aos exageros do Subalterno, o fita por cima dos óculos que vivem na ponta do seu nariz.
“Uma semana? Hummm...” O Superior é pródigo em “hummmms”, som que o Subalterno detesta por nunca conseguir adivinhar o que querem dizer. Se fosse um “pois...”  ou um “ora bem” aí não haveria qualquer dúvida, que a experiência de tantos anos de serviço no Departamento permite-lhe antecipar as instruções que vai receber. Mas o “hummm”... 
A grave e possante voz do Superior interrompe-lhe tanta cogitação, sobressaltando-o: “Toma!”  diz ele, devolvendo-lhe o relatório “Altera-lhe os planos! Vamos ver como é que ela se safa!”.  E o esgar esverdeado do Subalterno transforma-se numa carantonha assustadora, sinal inequívoco que gostou da decisão.

 

"Et voilá!"
Cumprindo o guião que o Superior decidiu e o Subalterno escreveu, as minhas estratégias revelam-se inúteis, os timings completamente impossíveis de cumprir, as decisões caem por terra e os resultados fogem com a primeira atitude atrevida que lhes pisca o olho. No meu cantinho, assisto ao desmoronar dos planos consciente da minha impotência, espero pela acalmia dos acontecimentos e reduzo-me à minha insignificância:
“É bem-feito, para não te armares em esperta!”
Suspiro, sorrio, arregaço as mangas e recomeço tudo de novo.
É que ainda ninguém escreveu o guião que me há-de derrubar.

publicado às 14:06


4 comentários

De Michelle MVH a 18.07.2012 às 14:43

1984. Bjs

De Maria Alfacinha a 18.07.2012 às 14:52

Ehehehehe
É mais ou menos isso, é! :-)))
Bjs

De Fernando Lopes a 14.08.2012 às 22:08

Esse é o espírito. Arregaçar as mangas e recomeçar com energia redobrada. Às vezes, quando se perde, não se perde o melhor, perde-se o pior. :)

De Maria Alfacinha a 27.08.2012 às 13:39

Ora, nem mais!
Já adoptei como hino o "Pick Yourself Up" :-)))(http://www.youtube.com/watch?v=AGUsRGuZb6k)

Mas chiça... o Departamento bem podia fechar de vez em quando para férias, balanço ou limpezas, por exemplo. Uma cidadã precisa de respirar de vez em quando, não? :-)

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