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Ainda bem que hoje está a chover

por Maria Alfacinha, em 16.10.12


“Eras muito cachorrinho quando apareceste aqui na rua, cheirando todos os portões, sacudindo o corpo a todas as pessoas que passavam a correr. Cachorrito simpático e esperto! Assim que me viste sorrir correste para mim como se já me conhecesses. Seguiste-me até ao carro, radiante com as festas e a atenção que eu te dava. Disse-te: “Vai-te embora, vai! que eu tenho que ir trabalhar!” E tu sentaste-te no passeio fingindo que obedecias. Nessa noite, quando cheguei, estavas à porta de minha casa, deitado no tapete. Digo sempre que não te adoptei, foste tu que me adoptaste a mim.

 

És o cão mais doce que alguma vez conheci, sabes? Um cachorrinho safado. Davas umas voltinhas pelo bairro e trazias de tudo para casa. Lixo, a maior parte das vezes, mas de quando em quando esmeravas-te. Uma vez foi um saco com bifes, outra vez um pacote de fiambre, um dia até trouxeste um carapau que alguma vizinha mais confiante tinha deixado a salgar. Quando eu te via ao fundo da rua, muito direitinho, de focinhito levantado carregando qualquer coisa na boca, já sabia que tínhamos asneira. Lembras-te do dia em que me vieram dizer que tinhas roubado os chinelos da vizinha da frente, aquela carrancuda com a vida a quem as crianças chamavam bruxa? Tive que atravessar a rua de cócoras para os devolver sem que ela me visse. E tu, de orelhas arrebitadas, como se não percebesses porque é que eu ralhava, achando, com certeza, que não dava valor às prendas que me trazias. Depois cresceste e passaste a trazer os amigos que encontravas na rua. Comiam, bebiam e seguiam o seu caminho. Foi assim que adoptámos o Gaspar, lembras-te? Foi o único que deixaste entrar no quintal, como se soubesses que ele não tinha para onde ir. E lembras-te como lhe sentiste a falta quando ele partiu? Diziam-me os vizinhos que uivavas o tempo todo enquanto eu não chegava. Ou então sabias que o Pepo precisava de uma família e foi a tua forma de mo dizeres. Quando o trouxe para casa assumiste o papel de mano velho e deixaste as traquinices para ele fazer. Só continuo a pedir-te desculpa por ter trazido a Lolita, o nosso furacão com patas. A paciência já não abunda, não é? Mas eu sei que gostas quando ela se enrosca em ti para dormir ou quando te lambuza o focinho num ataque de mimos.

 

Passaram quase 13 anos desde que me escolheste. Sei que estás doente e tu também o sabes. Por isso te deixei há dois dias dar mais uma voltinha pelo bairro que tu tão bem conheces. Voltaste cansado mas satisfeito. Lambeste-me as mãos e enroscaste-te ao meu lado. Hoje quando cheguei não me vieste receber como de costume. Estavas deitado e assim ficaste, sem forças para me seguir. Tive que te pegar como se fosses cachorrinho outra vez e acabaste por adormecer ao meu colo enquanto falava contigo. Dorme bem meu Dusty, já podes descansar. Estou aqui, estarei sempre aqui.”

 

---

 

Esta manhã o Dusty esperou que eu acordasse para me pedir comida e festas. Quando saí para trabalhar deitou-se ao pé da casota e chamou-me com o olhar. Acariciei-lhe a cabeça, pedi-lhe que esperasse por mim como todos os dias lhe pedia e ele ficou a olhar enquanto me afastava. Depois, posso apenas imaginar, deitou-se no seu cantinho preferido, e adormeceu para sempre.

 

“Sabes, Dusty? Ainda bem que hoje está a chover.
Não era justo que o sol brilhasse num dia assim”

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publicado às 14:23


23 comentários

De Margarida a 18.10.2012 às 14:49

:-(

De raio-de-luar a 18.10.2012 às 22:50

Deixo um bjinho.
Só quem ama o seu animal como seu semelhante entende quem sofre assim. E fico deveras comovida e triste pela saudade que ele deixa.

De Maria Alfacinha a 01.11.2012 às 11:13

Mas os animais não são nossos semelhantes?
O amor é o mesmo e as saudades são iguais.
Sei que entendes.
Beijinho grande

De ds2013 a 19.10.2012 às 22:09

cruzes nem t leio a imagem num segundo lixou me. se o final for feliz diz me

De Michelle MVH a 20.10.2012 às 16:57

Lamento muito! Mais uma estrelinha patuda no céu... Um grande beijinho.
Michelle

De Maria Alfacinha a 01.11.2012 às 20:44

Consola-me pensar que tivémos tempo para nos despedirmos e que ele partiu antes de começar a sofrer. E sei que vai espreitar-me todos os dias :-)
Xi- apertadinho

De poetaporkedeusker a 20.10.2012 às 17:43

Ai.................. e pronto................é que não tenho mesmo palavra nenhuma que jeito tenha.......

nem força. Vou ter de desligar um bocadinho. Deixo-te um abraço sem tamanho.

De Maria Alfacinha a 01.11.2012 às 11:15

Obrigada minha querida.
Tenho-te negligenciado mas vou tratar disso, prometo.
Bj muito, muito grande

De poetaporkedeusker a 01.11.2012 às 12:16

Ah... que delícia! O teu blog ronrona!!!

Beijo muito GRANDE!

De poetaporkedeusker a 01.11.2012 às 23:55

Tu não me digas que é da febre...??? Agora não oiço nada... mas, há bocado, ou o teu blog, ou o meu computador... um deles ronronava! E ronronava alto e bom som!


Outro beijo... caramba! O teu blog ronronou mesmo!

De Maria Alfacinha a 02.11.2012 às 10:56

Meus deuses, nem vou comentar ou corro o risco de concluir que uma de nós endoidou de vez.
Se ronronana era porque estava satisfeito, ok?

De poetaporkedeusker a 02.11.2012 às 12:12

Claro! Foi exactamente isso que senti... ronronou durante todo o tempo em que mantive a caixinha de comments aberta... nem consegui escrever mais nada senão descrever a surpresa e o contentamento! Até me apeteceu ronronar também... mas olha que eu nunca tive alucinações... deixa-me ver se arranjo explicação... bem, eu tinha o Linhas e Letras aberto em simultâneo. A Idalina tem, por lá, um gatinho que ronrona quando lhe fazem festinhas com o cursor... não é lá muito provável, mas ... deve ter sido isso! O gatinho virtual da Idalina pôs-se a ronronar e eu não me lembrei de que não tinha fechado a página dela...
Para todos os efeitos, a alegria foi mútua! Tanto eu quanto o teu Alpendre ficámos derretidíssimos... e poucos bloggers terão tido o privilégio de ser recebidos com uma chuva de ronrons...

Beijinho GRANDE que, daqui, desde este lado ecrã, não corro o risco de te contagiar com a minha gripalhada monumental!

De aflores a 26.10.2012 às 12:38

O Dusty e o meu Leão devem estar juntos a brincar e a recordar os bons momentos que passaram connosco.

Confesso que me foi difícil comentar este post, mas os nossos animais merecem este carinho.

Tudo de bom.

De Maria Alfacinha a 01.11.2012 às 11:24

É-me sempre difícil comentar estes posts, compreendo-te bem. E eles merecem sempre tudo.
Beijinho grande

De Fernando Lopes a 30.10.2012 às 19:38

Há um céu dos cães. Se fechar os olhos e olhar para lá das estrelas, o Dusty está neste momento a correr como um louco, língua de fora, atrás do meu amigo Fred.

De Maria Alfacinha a 01.11.2012 às 11:30

(e as lágrimas saltaram-me quando li este comentário)
Faço muitas vezes isso, olhar para lá das estrelas e ver os que já partiram. E acredito que sim que o Dusty já fez amizade com o Fred e matou as saudades que tinha do Gaspar. Ah e os meus velhotes já estão a estragá-los com mimos.
(obrigada)

De saltapocinhas a 04.11.2012 às 15:59

Comoveste-me, sabes?
Acho que nunca li uma despedida mais linda.
De certeza que ele a (te) mereceu.

De Maria Alfacinha a 16.01.2013 às 16:55

Lembro-me tão bem quando o teu patudo partiu :-(
Eu ainda oiço o Dusty durante a noite, sabias?
Beijo grande Saltapocinhas

De anacb a 16.10.2014 às 22:14

:-( custa tanto...

De Maria Alfacinha a 16.10.2014 às 22:25

È um bocadinho de nós que parte.
Mas a nossa vida é mais rica porque os conhecemos
Obrigada pelo comentário

De poetaporkedeusker a 17.10.2015 às 11:19

Hoje chove também e eu nem sei como te dizer quanto te entendo...

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