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Querido Pai

por Maria Alfacinha, em 19.03.06

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Nunca pensei voltar a escrever-te. Mas agora deu-me para isto. Escrevo cartas para toda a gente. Deve ser da idade. Sabes que já tenho 45 anos? Não achas estranho? Eu acho, tenho de estar sempre a lembrar-me disso. Gostava de saber de ti. Queria perguntar-te tanta coisa. São quase 20 anos de perguntas, consegues imaginar? Se te lembrares como eu era - como eu ainda sou - sabes que são muitas. Divertias-te com isso. Tenho tanta coisa de ti! O teu sentido de humor, o ouvido para a música... ainda hoje tento imitar o teu talento para tocar qualquer instrumento. A refilice herdei-a da Mãe, mas o orgulho foi de ti. E ensinaste-me a dançar, lembras-te? Devias ser fresco quando eras novo...

 

Não o demonstravas, mas hoje sei que te orgulhavas de mim. Contaram-me os vizinhos, as pessoas que me cumprimentaram no teu funeral. A surpresa foi tão grande, que cheguei a desconfiar que mentiam para me consolar. Foi preciso ouvi-lo muitas vezes para acreditar. Tinhas vaidade na menina que eu era. Gabavas-te da mulherzinha que eu me tinha tornado. Contrariamente ao que seria de esperar, apregoaste a quem quis ouvir que eu tinha decidido ir viver sozinha. Na época não era normal as meninas fazerem essas coisas. E quiseste ser o meu primeiro convidado para jantar. Chegaste a horas. Bisbilhotaste a casa toda e foste verificar o quadro da electricidade, os tubos do gás, as torneiras. Coisas de homem, preocupações de Pai. Depois sentaste-te à mesa e discutimos política. Eram tão divertidas as nossas discussões. Era raro estarmos de acordo e isso espicaçava-te. As nossas zangas estavam tão longe...

 

Nunca consegui aceitar a tua decisão de acabar com a vida. Durante mais de 10 anos não falei com ninguém sobre isso. Quando me perguntavam como tinhas morrido eu chegava a ser brutal: “Matou-se!” Era a melhor resposta. Já não faziam mais perguntas, não voltavam a tocar no assunto. Não queria ser consolada, não queria ouvir dizer que era normal sentir-me culpada. Porque eu assumi as culpas por te sentires tão desesperado. Devia ter errado em qualquer lado para chegares a esse ponto. Não me zanguei contigo. Discuti contigo na manhã do teu funeral, quando estávamos só os dois na casa mortuária. Nessa altura zanguei-me a sério. E zanguei-me comigo por não ter estado mais atenta. Li tudo sobre suicídio para tentar entender. Irritei-me com as explicações dos psicólogos que pareciam inventadas apenas para me confortar. Tretas! Sabes o que eu acho? Que os suicidas são egoístas, não pensam em quem os ama. Ou será que pensaste em mim nesse momento? No desgosto que me ias causar? Não sabias que eu estava ali, à distância de um telefonema? Julgavas que te íamos esquecer? Que seguiríamos a nossa vida como se tu tivesses sido mais um percalço: “Oh que chatice, mais uma contrariedade! Bom, mas a vida continua!”?

 

Já sabes como sou, querido Pai, e continuo na mesma. Não estou a ralhar contigo, é apenas a minha maneira de falar. Nunca aceitarei a tua decisão, mas respeito-a. Levei algum tempo, mas agora respeito-a. Hoje não me canso de falar de ti. Conto as tuas piadas e esqueci o que fizeste mal. Relembro a tua apetência por tudo o que era novidade: havias de ser um às dos computadores, um exímio cibernauta. Todos os anos recordo como desapareceste no 25 de Abril, deixando toda a família preocupada, porque quiseste ir para a Baixa, ver cair o regime. A Mãe quase que te bateu, lembras-te? E quando me perguntam como morreste eu hoje sorrio e respondo de mansinho: “Fartou-se de viver”. E conto mais uma história de ti.

 

Teria muito mais para te dizer mas esta carta já vai longa. Levei 20 anos para a escrever, tens sorte em eu a acabar aqui. Só queria que soubesses que podes ter conseguido livrar-te de todas as dores e problemas, mas deixaste-me um vazio imenso e uma saudade que nunca desaparecerá. A dor é cada vez mais doce. A tua memória ajuda a suavizá-la. Esta carta também. Entendo agora porque a escrevi.

 

Recebe um beijo muito grande desta filha que te amará para sempre.

 

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publicado às 13:30


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