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A menina de alguém

por Maria Alfacinha, em 28.12.11

 

 

Sou dada a reflexões.
Por vezes basta um gesto, uma palavra, uma vaga sensação e dou por mim a reflectir nos porquês, nos ondes, nos comos… Mesmo quando o assunto é sério, no sentido de grave, esta mania (deve ser mania…) não é preocupante já que a maior parte das vezes o meu botão ON/OFF, aquele que há uns anos atrás pensava servir apenas para adormecer e acordar, funciona às mil maravilhas e permite-me desligar a reflexão antes que a mesma se torne deprimente. A regra número Um de todas as reflexões é não lhes dar o controlo da nossa disposição e a regra número Dois é, exactamente, não nos darmos a reflexões quando já estamos, ou estamos prestes a entrar, em depressão. É certo que todos nós temos uma mais ou menos diligente veia masoquista que nos impele a, de quando em vez, mesmo tendo perfeita consciência que mais valia estarmos quietos, matutarmos no que dissemos ou devíamos ter dito, no que fizemos ou devíamos ter feito, no que decidimos ou devíamos ter decidido, enfim… qualquer desculpa é boa para nos sentirmos o ser mais infeliz, incompreendido e digno de compaixão que alguma vez surgiu na longa história da Humanidade. Se há alguém que nunca o fez, por favor diga qualquer coisa pois acho que nunca tive oportunidade de conhecer um tal prodígio da Natureza. Regra número Três das reflexões é que embora possam servir, também, para reconhecer mágoas e dores não podem, não devem, conseguir transformar-nos em Calimeros. Adiante!

Voltemos às reflexões. Uma das coisas que nos vão acontecendo ao longo da vida e para as quais não estamos realmente preparados é a questão da idade. O dia em que descobrimos que afinal não temos a vida toda à nossa frente, por exemplo. O quê?? Então já não vou ter tempo para ser astronauta? Ou bombeiro, ou neurocirurgião, ou pirata que para o caso pouco interessa? Outro: o dia em que, ainda mal refeita da pancada anterior, abro o jornal e encontro o emprego que é a minha cara, um anúncio que parece ter sido escrito depois de alguém ter lido o meu currículo. É verdade que procuram candidatos entre os 18 e os 35 anos, mas é com certeza um pró-forma, uma outra maneira de dizer que o lugar requer disponibilidade, energia e uma formação actualizada, por outras palavras, euzinha! Algum tempo depois a resposta: “blablabla… não se enquadra na faixa etária pretendida.”  Volto a ler a carta que enviei para tentar perceber onde falhei - não devo ter deixado claro o meu interesse e mais-valias - hesito entre telefonar e exigir uma entrevista pessoal ou enviar um curto email (“Your loss!”) que me tornará persona non grata junto da empresa ou do recrutador, mas que me devolverá imediatamente a auto-estima.  Mais um exemplo? Há uns meses tive gripe. Quando a febre passou, fui ao médico de família para rectificar ou não a medicação que me tinha aconselhado. Depois de passar as receitas, começou a preencher credenciais. O diálogo que se seguiu parecia retirado dum episódio da Twilight Zone: “Vai fazer também estes exames.”, “Porque…?” “Porque está na idade de os fazer.”, “Mas tenho que os fazer já?” “Quanto mais depressa melhor.” “Mas desconfia de alguma coisa?” “Não, mas é melhor prevenir.” “Mas acha que as dores de cabeça é algo mais que um sintoma da gripe?” “Não deve ser, mas vamos verificar.” Já no corredor parei a olhar para os papéis que trazia na mão e a recordar o sorriso condescendente com que tinha sido dispensada. Mas o que é que se passou aqui? Preciso de um anti-histamínico e mandam-me fazer uma colonoscopia? O que é que tem uma coisa a ver com a outra? Pobres médicos... eu sei que não sou uma doente fácil. A primeira razão é exactamente essa: não me sinto doente. Não me doem as costas, os ossos, o coração - de vez em quando dói-me a alma mas à alma os médicos não ligam nenhuma e alguns até são capazes de pensar que temos algum problema na cabeça - não tenho insónias, não sofro de palpitações, o meu colesterol está óptimo, a tensão arterial é invejável. A única coisa que nos últimos anos perdi, além da paciência para algumas (muitas) coisas, foi a visão próxima e passei a ter que utilizar óculos para ler. Quando o optometrista me disse que talvez fosse melhor passar a usar óculos o tempo todo mandei-o dar uma curva. Obviamente. No dia em que não conseguir ver para onde é que vai o autocarro, ou não conseguir reconhecer alguém que passa no outro lado da rua, volto lá e tratamos do assunto. Hoje ainda não é o dia. E enquanto não me declararem incompetente vou continuar a ter a última palavra sobre o que é que preciso e não preciso. Ah! Exames extra serão feitos na Primavera, incluídos no check-up anual. Estamos conversados.

Na realidade o que se passa é que raramente nos sentimos tão velhos como os outros nos vêem - ou talvez deva dizer "como os outros nos medem" porque o que lhes importa realmente é o ano do nascimento - e como convivemos diariamente connosco cumprir mais um aniversário não nos coloca automaticamente numa “outra” idade. É apenas mais um dia que ontem. E percebemos que há coisas que já aprendemos, preocupações que já não o são e angústias que já não temos que ultrapassar. Há quem não acredite, mas a idade tem coisas boas. Difícil é descobrir que não voltaremos a ser crianças. E isso acontece quando perdemos a geração anterior à nossa. Quando os nossos velhotes partem levam com elas as nossas histórias mais ternurentas, as nossas primeiras palavras, as nossas birras. Quem é que nos irá repreender por não nos agasalharmos como deve ser, quem é que vai achar que estamos magros ou cansados, que trabalhamos demais? Quem irá exagerar os nossos feitos, espalhar aos quatro ventos as nossas capacidades, ouvir atentamente os pequenos passos do nosso dia-a-dia, bebendo cada pormenor, repetindo-os depois com os olhos brilhantes de um orgulho como mais ninguém é capaz de sentir por nós? Mais ninguém ficará tão feliz por nos ver ou apenas ouvir a nossa voz. Mais ninguém.

Envelhecer é algo que, se tudo correr bem, nos vai acontecer a todos. Só por si já é uma coisa boa, não é? Com mais ou menos dificuldade, mais ou menos ânimo, saúde e uma generosa dose de bom humor podemos fazer de qualquer idade uma idade boa. Difícil, difícil - e se calhar é egoísmo (ou talvez sejam apenas saudades...)  - difícil mesmo é perceber que já não somos a menina de alguém.

publicado às 16:28

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