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Cabelos brancos

por Maria Alfacinha, em 09.06.15

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O movimento da porta fez-te virar a cabeça instintivamente para ver quem entrava. O teu olhar iluminou-se, com aquele brilho que surge em ti quando me vês chegar. Uma senhora de idade auxiliada por outra um pouco mais nova passaram por nós abrandando perto da mesa para te cumprimentar. Sorrisos. É uma constante à tua volta. Sei que é assim, mas surpreendo-me sempre. Segui-as com o olhar, até te ouvir: “Ficaste com um arzito meio tonto!” e riste-te. “Foi do sorriso que as tuas amigas me ofereceram” respondi, em tom de brincadeira. Olhaste para a mesa onde se tinham sentado: “A D. Mimi e a Luísa. Todos os dias, mais ou menos a esta hora, vêm lanchar, tomar o seu chazinho. É a avó preferida aqui do bairro. Não há quem não a conheça. E ela conhece toda a gente. De vez em quando conta-nos histórias de quando o Sr. António, o dono da loja ali de baixo, era miúdo e roubava rebuçados aqui na leitaria” Riste-te com gosto: “Ele é que não acha muita piada mas consegue disfarçar” Fixaste-me quase bruscamente e disparaste: “Tens medo de envelhecer?” Sobressaltei-me com a pergunta e balbuciei: “Um pouco... acho que sim!” e deixei-me cair na cadeira.


“Envelhecemos todos os dias. Cada minuto que passa é mais um minuto que juntamos à nossa vida. Quando é que realmente ficamos velhos?”
O teu olhar perde-se, outro daqueles teus gestos que conheço tão bem e não me atrevo a interromper. “Aos 15 anos achava que uma das minhas vizinhas, que tinha 28, já era demasiado adulta. A minha mãe, com quase 50, estava a entrar na 3ª idade e a minha avó – que morreu nesse ano – era um caso perdido: com 76 anos já não se esperava grande coisa... Mas aos 15 anos o que é que nós sabemos, além de acharmos que ninguém nos pode ensinar nada? E ainda por cima enchem-nos a cabeça com a ideia que temos a vida à nossa frente, como se fôssemos os eleitos, criando-nos a ilusão que podemos fazer tudo o que quisermos. Esquecem-se de nos dizer que um dia, se tudo correr bem, também vamos ter 28, 50 e 76 anos. Ou 85 como a D. Mimi!” Riste-te: “É uma contradição não é? Enaltece-se a juventude mas se envelhecermos é porque tudo correu bem...”


Receio que te percas no raciocínio e provoco-te: “E tu? Tens medo de envelhecer?” Soltas uma gargalhada: “Quando? Agora? Já envelheci desde que me sentei aqui!” O meu sorriso demonstra que ainda espero uma resposta e pensas um pouco antes de continuar: “Francamente, não sei. Não tenho medo de ficar velhinha. Quem sabe não me transformo numa mulher bonita como a D. Mimi?” e esboças um sorriso travesso para logo continuar com ar sério: “Não me assustam as rugas ou os cabelos brancos, isso não. Talvez por ser um processo relativamente lento, quase suave. A frescura dos 20 anos não desaparece de um dia para o outro. São precisos 60 anos para chegarmos aos 80. Não... isso não me assusta.” Mais uma pausa em que quase oiço o teu pensamento a arrumar-se, procurando as palavras seguintes. Finalmente, suspiras: “Mas sabes o que me assusta? Perder as vontades. A vontade de acordar, de conversar, de apreciar o dia, a mudança das estações, de fazer coisas, de ver gente. E assusta-me ter medo de ficar sozinha. Não é o ficar sozinha. É não gostar de estar comigo mesma... Acho que aí é que ficamos velhos."


Esticas a mão por cima da mesa e apertas a minha: “Pedimos um chá?” e vejo em ti a menina que um dia conheci quando, piscando o olho, segredas:

“Fingimos que temos cabelos brancos e brincamos às D. Mimis...”

 

in "Leitaria do Bairro"

publicado às 12:22



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