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Conta-me uma história

por Maria Alfacinha, em 05.08.15

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“Conta-me uma história...” pedia eu quando era menina e precisava espantar a suspeita, que a vida não era o mundo encantado das canções de embalar. E o meu pai, sentava-se na cadeira perto da minha cama, puxava os cobertores cobrindo-me os ombros, que eu insistia em destapar, e em voz dormente, relatava-me as desventuras de um tal príncipe Edmundo, que no dia do aniversário se tinha visto transformado em veado, pela Bruxa Má do Bosque do Reino, furiosa por não ter sido convidada para os festejos. Era uma história tão longa, tão cheia de pormenores desnecessários, que a minha vontade quebrava e o sono vencia a curiosidade do final.


Nas tardes de Inverno, quando o céu rugia e o meu mundo ficava fechado entre as paredes da casa, cansada de jogos e lápis de cor, na ânsia de razões para novas viagens,  procurava a minha mãe e pedia-lhe baixinho: “Conta-me uma história...”. E ela, dobrando a roupa ou fazendo o jantar, repetia-me as aventuras do Lobão e do Lobinho, da Mãe Pata e do Patinho, da Avó Gata ou do Tio Leão, todos personagens que viviam na Cidade dos Animais, histórias tão parecidas com as que preenchiam os meus dias, que me faziam quase acreditar que era eu que as estava a contar.

De quando em vez ainda peço: “Conta-me uma história...”  Tantos anos depois, ainda o peço, nas noites doridas de mágoas e cansaço, quando não me apetece ser crescida, quando não quero antecipar o dia que, inevitavelmente, irá chegar. Não importa o enredo, muito menos o final, que eu só quero adormecer antes dela acabar. Só me interessa a voz, a cadência, o embalo. E por isso repito, uma e outra vez, como quando criança não desisto, evito explicações e peço baixinho: “Conta-me uma história...”  E fechando os olhos - para ouvir melhor - começo: “Era uma vez...”
Sei que, assim, os meus sonhos serão felizes.
É que nos meus sonhos, em mim, fervilham milhentas histórias por contar...

 

in "Histórias de menina"

 

publicado às 22:40


13 comentários

De Cris a 06.08.2015 às 09:33

Não me lembro se alguma vez os meus pais me contaram uma história...
Por isso, estou a pedir-te a ti: conta-me uma história! Sim, dessas que fervilham em ti! Vá lá!

De Maria Alfacinha a 07.08.2015 às 00:23

Conto sim... vou contando :-)
Entretanto, para ti e para a green eyes (no comentário abaixo), aqui vai
https://soundcloud.com/maria-alfacinha/conta-me-uma-historia

De Cris a 07.08.2015 às 05:29

Ai que máximo! Muito gosto em ouvir a tua voz!

De Maria Alfacinha a 07.08.2015 às 13:24

Pois é... :-)
Agora sabes como soo enquanto escrevo

De green.eyes a 06.08.2015 às 10:25

Infelizmente eu ... nunca tive uns pais que me contassem historias
Talvez por essa falta, por essa ausência de histórias, na minha infância eu contasse sempre muitas ao meu filho durante a sua infância. Acho que foi uma forma de me compensar a mim mesma.

E talvez por isso, eu gosto tanto de ler as tuas e outras histórias ...

De Maria Alfacinha a 07.08.2015 às 00:29

Em abono da verdade, invento muito das minhas histórias de menina, mas estas historias de que falo eram mesmo contadas por eles :-)
E para ti e para a Cris, fiz este ficheiro, que vou acrescentar ao post

De green.eyes a 07.08.2015 às 09:20

OBRIGADO Alfacinha ...
Foi tão bom ... sabes que ler uma história e ouvir uma historia não é bem a mesma coisa ...
E saber que está alguém a contar uma historia para nós é delicioso

Bom fim de semana

De Maria Alfacinha a 07.08.2015 às 10:31

Ninguém devia passar pela vida sem que alguém lhes lesse/contasse uma história :-)
Fico feliz que tenhas gostado, a sério :-)
Bom fim-de-semana

De Marta A. a 07.08.2015 às 00:24

É tão bom termos milhentas histórias a fervilhar dentro de nós e termos a quem as contar. Os meus pais também me contavam muitas histórias, e recordo algumas com uma exatidão impressionante, como se ouvisse a entoação da minha mãe e as diferentes vozes que o meu pai fazia. Hoje, oiço-os a contarem-nas aos netos, mas na minha memória soam de forma muito diferente - como um retalho imutável e sagrado da infância.

De Maria Alfacinha a 07.08.2015 às 00:47

Ah, o poder das histórias contadas :-)
Leva-nos para tanto lado, traz-nos tantas memórias...
E não há contador de histórias, se não houver quem as oiça

De Caravaggio a 08.08.2015 às 18:44

Obrigado pela visita de ontem.

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