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Conto de Natal

por Maria Alfacinha, em 22.12.15

conto de natal

Há muito, muito tempo, havia uma menina chamada Maria, que vivia numa cidade chamada Lisboa. Tinha 7 anos, acabadinhos de estrear. No último mês, a sua vida tinha sido virada de pernas para o ar, como acontece nos livros de histórias e não é suposto acontecer na vida real. O Natal estava a chegar e uns amigos dos pais, convidaram-nos para celebrar com eles a época, numa aldeia pequenina chamada Fiais da Beira, onde tinham uma casa muito antiga de que a Maria tinha uma vaga memória de ter ouvido falar. Aceite o convite, lá se preparou toda a família para a (na altura) longa viagem até tão remoto destino. Da jornada a Maria nem se lembra, mas da chegada... ah, que memória deliciosa. A noite caíra, e não havia candeeiros na rua como na cidade onde vivia. Os donos da casa tinham vindo recebê-los ao portão de lanternas em punho. E o frio, o frio era tanto, que o pequeno nariz da Maria parecia querer estalar de tão gelado. A Tia Zézinha – era assim que todos a chamavam – de riso franco e colo enorme, tinha-a ajudado a subir as íngremes escadas e abrira-lhe a porta para uma cozinha que Maria pensava só existir nos contos de fadas: uma divisão enorme e quente, iluminada apenas pelo lume que cantava na maior lareira que ela alguma vez tinha visto. E enquanto comia a malga de sopas de pão que lhe colocaram à frente, Maria pensava que ali, de certeza absoluta, o Pai Natal se sentia em casa.

 

Foram dias mágicos esses. Para uma menina da cidade, qualquer insecto ou cogumelo selvagem era motivo de alegria. A Tia Zézinha era uma verdadeira Tia Natal, passando o dia a inventar novas decorações, ensinando-a a apanhar musgo para o presépio e a cortar a massa das bolachas - que tendia em cima da mesa comprida forrada a plástico - em forma de estrelas e luas e corações. As refeições eram muito animadas, porque havia sempre gente a chegar, primos distantes que estavam de passagem, vizinhos que vinham do campo ou de tratar dos animais e para quem havia sempre uma bucha, uma mão cheia de nozes - ou algumas das muitas bolachas que Maria cortara - e uma malga de café quente e com muito açúcar amarelo, servido de uma grande e velha cafeteira que estava sempre ao lume e parecia nunca se esgotar. E à noite, já em pijama, era a hora de uma história de tempos antigos contada em frente à lareira, em voz doce e com final feliz.

 

Chegara assim a Noite de Natal. Obrigatória seria a Missa do Galo se Maria tivesse idade para se deitar tão tarde. Em Lisboa, o Pai Natal chegava de madrugada e por isso os meninos tinham que se deitar cedo. Mas ali, numa aldeia tão longe de tudo, ele passava logo a seguir ao jantar - ou não teria tempo para fazer tudo numa só noite - e para o deixar à vontade, fecharam-se as portas da cozinha e sentou-se toda a família na sala de dentro, cantando bem alto para que o Pai Natal soubesse onde estavam todos os meninos da casa. Até que alguém disse que ele já tinha saído e abriram-se as portas da cozinha. Bem ao lado da lareira, estava uma boneca enorme de laço na cabeça, mas Maria nem hesitou e correu para a porta da rua de olhos postos no céu escuro. E foi com o coração a bater que ela viu, subindo em direcção à lua, num trenó brilhante, conduzido por renas, um velhinho barbudo que lhe acenou dizendo - ainda hoje Maria recorda a sua voz:

“Feliz Natal, Maria! Feliz Natal!“

 

in "Histórias de menina"

publicado às 13:03


4 comentários

De green.eyes a 22.12.2015 às 15:40

Lindo ... lindo ... lindo ... adorei.
O mais curioso é que tu cias estas histórias, mas eu fico com a sensação de que são verdadeiras ... ou seja ... isto aconteceu...

Ou és tu que na escrita as fazes parecer reais ... ou sou eu quando as leio que me sinto envolver nas tuas palavras...

Boas festas

De Maria Alfacinha a 13.01.2016 às 15:09

:-)
Esta é verdadeira, por muito que me tentem convencer que foi fruto da imaginação de uma criança.
Esta - palavra de Alfacinha - aconteceu mesmo :-)
Beijinho

De Mãe Maria a 28.12.2015 às 12:42

Bonito conto, um verdadeiro conto de natal.

De Maria Alfacinha a 13.01.2016 às 15:10

E não é apenas por causa do Pai Natal, pois não?

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