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Desesperança

por Maria Alfacinha, em 10.03.15

solitude.jpg

Aproximei-me da mesa e debrucei-me para te beijar: “Desculpa o atraso”. Sorriste-me enquanto pedias os cafés: “Não te preocupes, sabes que aqui nunca estou só."

Juntaste em pilha os papéis que tinhas espalhados pela mesa, e arrumaste tudo na mala, libertando a superfície para as chávenas a fumegar: "Até deu jeito, o teu atraso. Esteve aqui uma amiga que já não via há muito tempo e se não estivéssemos sós talvez ela não me tivesse contado nada.”  Despi o casaco e sentei-me à tua frente: “Tu e as tuas amigas... Estiveram a pôr a escrita em dia? O que eu fui perder…” Estranhamente não respondeste à provocação parecendo concentrada na colher com que mexias o café. Levaste a chávena aos lábios antes de mergulhar os teus olhos nos meus: “Deixou-me o coração partido.”

Contaste-me então que a tinhas visto na rua e tinhas corrido ao seu encontro. Como se tinham abraçado indiferentes a quem passava e como a tinhas arrastado para aqui, como tinham trocado risos e saudades, atropelando a conversa com memórias antigas. Tinham trabalhado juntas - esclareceste - mas tinham perdido o contacto quando ela partiu para outro país atrás de uma carreira profissional. Voltara há uns anos e tentara contactar-te sem sucesso. Depois...

---

"Depois tudo mudou..." resumiu ela em voz sumida.
Ensaiei um sorriso mas não consegui. Um peso estranho instalou-se no meu peito e estremeci, como se a temperatura tivesse baixado repentinamente. Quis falar e não encontrei palavras. Toquei-lhe no braço e aguardei que me contasse fosse o que fosse que lhe roubara a vida do olhar. Por várias vezes durante a narrativa tive vontade de a interromper para a abraçar, mostrar-lhe o quanto a admirava, dizer-lhe que entendia o porquê das suas escolhas, mas fui impedida por um fenómeno estranho: enquanto falava, a minha amiga ia envelhecendo. Quando consegui reagir peguei-lhe nas mãos e disse-lhe que não sabia com que palavras a confortar.
Ela encolheu os ombros suavemente: "Não importa. Já não espero nada da vida." Tentei contrariá-la. Insistiu: “Não, já espero nada.”Um triste mas doce sorriso iluminou-lhe a face e eu mexi-me na cadeira sentindo-me desconfortável. “Não, não o digas!” interrompeu-me ela mesmo antes de os meus lábios se moverem.“Não me digas que tudo se resolve, não me digas que melhores dias virão, não me digas que há sempre esperança!” Sorriu novamente: “Não para mim...”
Lá fora o céu escureceu anunciando a chuva que teima em brindar estes dias de Outono e ela fixou o olhar no dia cinzento que parecia nos aconchegar: “Os dias passam e eu não consigo agarrar a vida. Pelo contrário, vejo-a pavonear-se vaidosa na minha frente, ignorando-me como se eu me tivesse tornado invisível e o seu sorriso fosse desperdiçado em mim. Como se eu já não existisse…” Voltou o olhar bruscamente para mim: “Ah! Não me chames derrotista! Sabes que não o sou!” Suportei-lhe o olhar sem me atrever a demonstrar qualquer emoção, aguardando que voltasse a concentrar a atenção na chuva que entretanto começara a cair.
“Todos os dias acordo com um único propósito: enfrentar a adversidade e alterar este caminho onde me encontro. Todos os dias salto da cama disposta a lutar e todas as noites me deito sem ter conseguido alterar seja o que for. Ainda hoje o faço. A diferença é que quando ainda esperava, ou devo dizer, quando ainda acreditava, os dias eram-me pesados e as noites insuportáveis. Cada porta fechada, cada resposta negativa roubava-me o ar e quebrava-me a vontade. As lágrimas eram uma companhia fiel nas longas noites de insónia. A manhã encontrava-me derrotada e sem forças mas eu não desistia, voltava à luta, pés bem fincados no chão para que não me derrubassem. E tudo se repetia, como se cada dia não fosse mais do que a cópia do dia anterior, e cada noite a assombração de um filme que eu já sabia de cor.”
Calou-se e senti que a minha própria respiração tinha abrandado tentando não perturbar aquele silêncio que parecia ser-lhe tão doloroso. Sacudi mentalmente a sensação que tomara conta de mim de que tinha partido, que já não estava ali, que à minha frente não tinha mais que matéria, simples matéria desprovida de alma. Um relâmpago iluminou a janela, sobressaltando-nos. Parecendo indiferente ao forte trovão que se seguiu, olhou-me com o olhar mais triste que alguma vez vi em alguém: “Uma noite não consegui chorar e percebi que já não tinha mais lágrimas. Procurei no peito alguma saudade que ainda me restasse e não a encontrei. Abri as mãos e deixei partir a esperança. Com ela foram também todas as dores e pela primeira vez em muito tempo dormi a noite toda. Nunca mais sonhei. Deixei de sentir. Mas nunca mais desesperei.”

---

Não me tinha atrevido a interromper-te.
Olhaste para mim com aquele sorriso gaiato que, acredito, nunca te abandonará, e repetiste o suspiro: “Deixou-me o coração partido.” 

Procuraste nos bolsos umas moedas para pagar os cafés e levantámo-nos. “Achas que ela irá... fazer algum disparate?” perguntei enquanto vestíamos os casacos. Olhaste para mim: “Matar-se?” 

(normalmente hesitamos em usar algumas palavras mas tu não)

A tua voz tremeu: “Como é que se mata alguém que já morreu?”.
E saímos para a rua em silêncio.

in "Leitaria do Bairro"

publicado às 11:41



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