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Era Domingo e o sol brilhava

por Maria Alfacinha, em 20.10.15

promontorio

Procuro alma gémea, dissera-lhe ele. E ela - que nem sabia se acreditava se tal alma existia - deixou-se embalar pela voz com que ele lho dizia, baixou as muralhas da desconfiança e dispôs-se a entender aquele crer. As conversas e os sorrisos iluminaram as escassas noites que passaram a partilhar, mesmo antes de se terem olhado nos olhos e reconhecido o aroma e o calor que despontou do nada, quando perceberam – cada um por si, no espaço que já era dos dois - que não se queriam separar. Souberam, quase de imediato, que tinham aberto as portas de um mundo diferente, uma existência que apenas conheciam dos sonhos ou da imaginação de um qualquer poeta sabedor de que as almas se reconhecem mesmo antes de se tocar. E quando se afastaram – porque a vida não pára, mesmo quando um novo amor nasce - fizeram-no na certeza que nada tinha acabado, que pelo contrário tudo estava a começar, que reconheciam o amanhã que ainda não tinham vivido, mas que estava escrito nas estrelas que os tinham acompanhado desde o primeiro capítulo da história das suas vidas. Era Domingo e o sol brilhava quando se reencontraram. A caminho um do outro – confessaram-no mais tarde – planearam, sem se atreverem a dizê-lo, o momento que iria confirmar o que sentiam, ele confiante, porque sabia o que procurava, ela mais cautelosa por ainda não entender aquele crer. E quando finalmente se tocaram, foi como se se tivessem reconhecido, os lábios sorrindo beijos e as mãos enlaçando-se na doçura de um abraço perfeito. Então, ele sorrira por se saber com razão, ela sorrira por começar a entender aquele crer.

 

Quero contar-te, dissera ela. E pegando-lhe na mão, sussurrara-lhe a história do pirata que ao assaltar uma nau que regressava da Índia, se tornara amigo do nobre que se defendera com honra e valentia, e tal fora a admiração que dali nascera que, sabendo ter os dias contados por uma vida de saques e atrocidades, lhe confiara o seu bem mais precioso, uma menina nascida de um amor insano que tivera por uma crioula queimada viva, acusada de feitiçaria, mas cujo crime maior teria sido o de curar as maleitas de quem era desenganado pela ciência e pela igreja. Criada numa casa que prezava a educação como um bem maior, a menina crescera como se tivesse nascido em berço de ouro, tornando-se versada em todas as artes de uma Europa luminosa, sem nunca enjeitar a matriz de onde tinha vindo, que a ama que a acompanhara não a deixara esquecer. Rossana era devota da Senhora, mas trazia no sangue a crença na Natureza-Mãe e nas mulheres que, nascidas dela, - como se não tivessem conhecido outro ventre - tornavam os dias dos desamparados mais doces, livres da doença e da dor, da fome e da miséria, cuidando dos que as procuravam como se família fossem, e quando um dia a terra tremeu - de certa forma celebrando, também ela, os que já haviam partido - Rossana instalou-se no promontório, decidida a seguir-lhes os passos e a cumprir o destino para que a velha ama a tinha preparado.

 

Abraçara-o, baixando ainda mais o tom de voz: Mal sabia Rossana que seria um amor maior do que o mar que se estendia aos seus pés, que a iria tornar senhora daquele local sagrado, rainha entre os reis que ali ocorriam em peregrinação. E pensou: Como agora mesmo, em que um amor maior que o mar que se estende aos nossos pés, me torna crente que és quem eu sempre procurei. Interrompeu-se quando viu os olhos dele reflectindo o brilho do seu próprio olhar. Os dedos das suas mãos entrelaçaram-se, como que confirmando a certeza que falavam a mesma língua e contavam a mesma história. Sem lhe largar a mão, ele apanhou uma pedra e inscreveu os seus nomes na parede em ruínas, onde vivera Rossana.

 

Era Domingo e o sol brilhava.

Nunca mais se largaram. Dizem que são almas-gémeas.

publicado às 18:38



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