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Estrela do Mar

por Maria Alfacinha, em 14.07.15

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Já te disse como as tuas palavras entraram de sopetão na minha caixa de correio. Li-as 2 ou 3 vezes para assimilar o que me contavas, sabendo – mesmo antes de saber – que a novidade que trazias, para mim já não o era, já te adivinhara, sem ninguém me ter dito – escuta bem! – sem ninguém me ter dito, que assim seria. Na altura pensara que, aquela história que ouvira, podia ser a tua. Não, deixa-me dizê-lo de outra forma: aquela história era a tua, porque a senti assim. Por pouco, muito pouco, não te falei nisso. Apaguei a sensação, o mais rapidamente que pude, e esqueci tudo. Até que mo confirmaste. Nem queria acreditar (nem tu querias acreditar). Sorrimos juntas e eu ri-me do palavrão que soltaste. Sabes que nada do que vem de ti me pode chocar. Como poderia? Logo eu, que te conheço tão bem, que te (re)conheci mesmo antes de te conhecer.

 

Não te digo que recebi um murro no estômago. Foi mais um abanão, um enrolar das entranhas, em tonturas de culpa. A culpa, sempre a culpa. Raio de gente que vive suportando o peso do mundo. Mas não penses que me apiedei de ti. Não. Foi carinho o que senti. Nem tu o sabes, mas és uma fortaleza, um verdadeiro pilar de força e energia. Não me acreditas, escusas de repetir. Já te estou a ouvir a contradizer-me, a justificares-me, a confundires o que te digo com palavras de alento. Não vês o que eu vejo, porque tu não vês, apenas sentes. Tu não ouves, apenas sentes. Tudo na tua vida, na vida dos que te rodeiam, tudo passa pelo que sentes. E é esse sentir tanto, tão mais que todos nós, que te arrasa. Mas é esse mesmo sentir, esse coração imenso que não te cabe no peito, que te permite sobreviver, esqueceres a tua fragilidade, as tuas dores, as tuas angústias e medos e não te conformares, embora por vezes pareça, com o que o destino te reservou. Para além de ti - que a ti nunca poderei odiar -  odiei tudo o resto: quem te desprezou, te maltratou, te esqueceu, te ignorou, quem te expôs. Sim, desculpa. Odiei. Revoltei-me. Chorei em soluços de raiva. Fiz como tu fazes e gritei em silêncio. Depois passou-me. Entendi, ou convenci-me disso, e até perdoei – quem sou eu para perdoar, seja o que for? – a humanização da besta. Todos nós preferimos descrer da maldade e da iniquidade…

 

Agora deixa que te conte. A minha mãe sorria sempre que me via. Mesmo não sabendo quem eu era, mesmo tendo esquecido há muito o meu nome, já sem saber falar, sorria sempre. E ouvia-me horas a fio, enquanto eu contava histórias antigas ou canções de outros tempos que não o meu. Pegava-lhe na mão e punha-a em cima da minha e ela olhava-me, sorridente, e acariciava-me a mão com o polegar como fazia quando era pequenina. Entendes, amiga, minha irmã d’alma, como me chamas, minha estrela do mar, como eu te vejo? Entendes, quando te digo que nem tudo se perde, que aquilo que tu tens de melhor, de maior, que faz de ti quem és, ficará para sempre? Que esse sorriso lindo com que recebes quem amas – porque amas, amas tudo e todos, porque só sabes ser assim – esse sorriso que és tu, nunca desaparecerá? Que nós que te amamos - porque há quem te ame, mesmo sabendo que nunca conseguirá amar tanto como tu - vamos alimentar esse sorriso, sentados ao teu lado a contar-te histórias antigas ao som da música que mais gostas? Acreditas em mim? Então acredita também que nunca vou permitir que te cortem o cabelo. Palavra de mim.

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publicado às 20:53


7 comentários

De Marta A. a 15.07.2015 às 15:28

Cada vez vou gostando mais de me sentar neste alpendre e de "ouvir" as suas palavras (sim, sinto que as oiço quando passo os olhos pelo texto). Chego, abanco-me, vou cuscando as plantas nos vasos e tentando adivinhar o que são e ao que cheiram, beberico um chá qualquer que de certeza há sempre pronto, por aí, e vou escutando estas palavras que me chegam ao coração com uma facilidade tremenda! :)

De Maria Alfacinha a 16.07.2015 às 15:11

Que bom saber-te a entrar e instalares-te assim. Foi para isso que aqui pus as plantas e escolhi as almofadas mais confortáveis: para que quem me visita se sinta em casa :-)

E sim, tenho sempre chá pronto, à distância de um preparar do tabuleiro.
Gosto tanto que o tenhas percebido :-)
Obrigada

De Cris a 15.07.2015 às 18:26

Descobrir este canto (embora tenhas sido tu que me bateste à porta e eu vim ver quem eras), foi das melhores coisas que me aconteceram nos últimos tempos. A sensibilidade das tuas palavras e, acredito, dos teus sentimentos, são momentos que me dão paz, são energias boas, e despertam sorrisos e uma ou outra lágrima, neste alpendre, verdadeiro ou idealizado, olhando o horizonte.

De Maria Alfacinha a 16.07.2015 às 15:23

Foi a Magda que te apresentou. Foi ela, foi ela! :-)
E desde então tens-me deixado sem saber o que responder às tuas palavras. Não é fácil, já te disse.
Mas posso dizer-te isto: se te sentes em paz, se aqui consegues descansar, deixas-me feliz. A sério. Palavra de mim.

De Cris a 16.07.2015 às 15:31


De Anónimo a 16.07.2015 às 12:40

Há pessoas assim.
Poucas, mas há. Espalhadas por aí.
Deste tipo de pessoas, só conheço uma.
Tu.
Assim, tão completa, só tu.
O pacote inteiro.
Nada falta e nada está a mais.

Trazem no coração uma (in)genuidade chilreante
Que a vida não amassa.
Uma inocência de sentidos que só as crianças têm.
Acreditam no Bem aconteça o que acontecer.
Veem sempre o melhor das coisas. Dos outros.
Tornam os outros melhores com um só olhar.
Puxam o Bem que está dentro deles.

E quando são chicoteados pela dor e pelo sofrimento
Seus e dos outros
(porque a vida nunca é fácil para estas pessoas)
Choram lágrimas de sangue, mas batem o pé.
Não, não pode ser assim!
Tem de haver uma solução, mesmo para aquilo que esmaga o lado humano na verdadeira acepção da palavra.
E ao lado de uma prece para aquilo que se agiganta ao nível universal e os ultrapassa, juntam forças para fazer a sua parte.

Vão buscar forças não sei aonde.
E dedicam-se. Trabalham até à exaustão. Sacrificam-se. Respeitam. Acarinham. Lutam. Dão.
Com a doçura de quem se entrega sem pedir nada em troca, só porque sim, porque devia ser assim em todo o lado.
Fazem mesmo o Bem sem olhar a quem.

Ao cair de todas as tardes, acreditam em contos de fadas.
Se não os veêm, escrevem-nos.
Mesmo que as fadas se tenham esquecido de aparecer, tudo fica belo pela sua escrita, pelo coração que se põe na ponta dos dedos, pela alma que dita as palavras que se reviram no vento, sim, mas têm a força de lei.

Porque estas pessoas não mentem. Não manipulam. Não disfarçam.
O que elas dizem, e escrevem, é o que é.
E o que fazem, ali, na vida de todos os dias, é o complemento da sua visão de todas as Coisas.
Não adianta querer incutir-lhes a sabedoria falsa da intriga, da sedução falsa do imediato, do torcer o que se sente e pensa para se safar melhor que os outros. Para atropelar os outros.
Mesmo que os outros sejam os simples seres que se arrastam aos nossos pés.

A sua capacidade de confortar e dar bálsamo a feridas abertas, estejam elas onde estiverem, é inacreditável.
Mesmo à custa das suas.
Porque as suas estão sempre abertas.
Basta-lhes olhar à volta e ver o Mundo no seu pior.
Basta-lhes saber que algures, há sempre algo ou alguém a sofrer.
Basta isso para que lhe doa cada batida no peito, cada inspiração de ar, cada limpar de lágrimas.

Mas esta sensibilidade extrema que lhes revolve o Ser, dá-lhes força.
Aquela força que não se conforma nem se acomoda, porque mesmo o pouco, pode ser feito!
E é feito.
Espontâneo ou pensado, sempre sentido, torna-se Tudo.

Não são pessoas perfeitas, porque isso não existe, e porque não o querem ser.
Podiam sê-lo se quisessem.
Mas não querem.
Porque abraçam a imperfeição humana da mesma forma que abraçam tudo o resto.
Usam-na para desenvolver Caminho.
Para fortalecer a Essência do que é vivo, do que pulsa, respira e muda constantemente.

E tu és assim.
Rara. Genuína.

Tens o toque mágico do conforto, da beleza e da dedicação.
A sagacidade da observação extrema, da sensibilidade apurada, a incapacidade genética de fazer mal, de magoar, de ficar indiferente.

Quando cai uma folha em desamores de outono, tu estás lá.
Para apreciar a beleza que sempre vês.
Olhas um mendigo na rua, e depois do impacto da dôr, vês-lhe toda uma vida.
Entras num autocarro e mesmo em pé e aos solavancos, fazes o filme da paisagem que adivinhas com todas as cores.

E pegas em gente quebrada e queres à força aninhar os bocados em pedaços leves de algodão.
Teimosa, mesmo não existindo cola possível, tudo sentes e fazes para que as arestas se suavizem e não doa tanto.

E consegues!
Consegues. Acredita.

Porque Tudo fica mais bonito quando é visto através dos teus olhos.

Até uma estrela do mar perdida e confusa, que se mantém a bater de roldão contra as rochas, em vez de se deixar ir nas marés, até à quietude da beira mar…

E que te está grata até ao final dos Dias, e te encontrará em todas as Existências.
Palavra de mim.

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