Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Frederico

por Maria Alfacinha, em 13.07.15

59.0.pos.jpg

Sinto um carinho especial por bichos. Bichos, crianças e velhinhos(as), não necessariamente por esta ordem, têm um lugar especial no meu coração e na minha paciência. Não vou dizer, como se costuma ouvir, que gosto mais de bichos do que de homens, mas garanto que gosto mais de bichos do que de muitas pessoas que conheço. Tenho com os animais uma relação amigável de respeito e por vezes ternura. Tento não lhes perturbar o seu destino ou invadir o território e espero que eles não invadam o meu. Normalmente conseguimos conviver sem grande atrito. Além dos espécimens caninos, e graças ao quintal que prolonga o pequeno espaço onde vivo, podem-se encontrar, com alguma facilidade, uma ou outra lagartixa, formigas e caracóis q.b., e lesmas nos canteiros o que, dizem os entendidos, é sinal que a terra é boa. Há uns anos, até tive a honra de albergar, num cantinho do telheiro, nos ramos de um arbusto que um dia quis ser árvore, o ninho que D. Melra e seu esposo construíram para criar a sua prole, evolução que consegui guardar para a posteridade enquanto os pais se afadigavam a procurar alimento. E para finalizar não posso deixar de mencionar a família de osgas – brancas e gordalhufas, senhoras de uns deditos perfeitos – que decidiu ser o meu quintal o local ideal para se instalar.

 

Ora no último Inverno, não sei se graças à fama que os meus pacatos domínios ganharam entre os bichos, houve um pequeno ratito, daqueles que não ultrapassam o tamanho do polegar, que não tendo consultado as regras que eu escrevera, resolveu instalar-se na minha cozinha. Graças ao rasto que estes pequenos animais não conseguem evitar deixar por todo o lado, rapidamente o descobri e vai de despejar os móveis da cozinha para cima da mesa do quintal para poder mais facilmente dar com o dito intruso. Dizia-me a D. Florinda com aquele ar de sabedoria que só 76 anos de muitas dificuldades pode dar: “Isso não adianta andar atrás dele. É meter uma ratoeira, com um pedaço de pão com manteiga ou um 'cadito de chouriço e despacha-o em 3 tempos”. Eu bem que olhava para as ratoeiras mas não conseguia pegar nelas. Já só tinha imagens do pequenino em agonia, tentando libertar-se. E aquele estampido da ratoeira ao fechar causava-me arrepios. Não tenho estômago para tanto. Estudei os venenos à minha disposição por forma a encontrar um de cheiro agradável e que permitisse uma morte rápida. Enquanto o espalhava dentro dos armários vazios, pois tendo eu cães não me atrevia a colocá-lo em mais lado nenhum, ia falando em voz alta com o bichinho, na esperança que ele fugisse sem provar o petisco enganador: “Oh rapaz! Podes viver lá fora que eu não me importo. Se saires de boa vontade até sou capaz de todos os dias te levar o jantar, mas esta é a minha casa e eu estou farta de limpezas a toda a hora já para não falar que tenho que andar sempre a lavar a loiça até para beber um simples copo de água...” Nada! Foi como se estivesse a falar para... um rato.

 

O tempo foi passando e o ritual mantinha-se. Todos os dias lá limpava eu os restos do veneno, lavava tudo muito bem e voltava a espalhar nova dose pelos armários. Confesso que no dia em que o vi parado, a pouco mais de 10 centímetros dos meus pés, coçando o focinho com as patitas antes de fugir para o quintal, o animal, pela sua audácia, ganhou a minha admiração que logo esmoreceu quando, antes que eu conseguisse fechar a porta, ele voltou a entrar. Comecei a acreditar que não ia ser fácil livrar-me de tal visita e quando me perguntavam como ia a caçada eu respondia calmamente: “ Quem? O Frederico?” e continuava sem deixar que o olhar espantado de quem me ouvia me interrompesse o disparate “Sim, o Frederico. Estamos quase decididos a adoptá-lo e se vive lá em casa é melhor dar-lhe um nome para saberem de quem estou a falar. Temos é alguma dificuldade em arranjar uma coleira, tão pequenino que ele é, e o veterinário não tem a certeza que vacinas é que um rato precisa.”  Tenho a certeza que nessa altura houve gente que pensou que eu tinha endoidado de vez. E eu, cheia de paciência, continuava a experimentar venenos para não ter que comprar uma ratoeira. Até que um dia – que a história já vai longa – cheguei a casa e encontrei o Frederico agarrado a uma caixa de fósforos de olhos fechados e quase que posso jurar, com um sorriso nos lábios. Com toda a dignidade que a morte de um rato me merecia, varri-o e à caixa de fósforos, para dentro do contentor do lixo e pude finalmente lavar, desinfectar e arrumar a cozinha que, entretanto, se tinha mudado para o quintal.

Mas ainda hoje tenho uma cesta cheia de panos da loiça para passar a ferro.
Cada vez que olho para ela lembro-me do Frederico.
Que descanse em paz.

publicado às 15:05


7 comentários

De Cris a 13.07.2015 às 18:14

Tadito do Frederico! Também tinha um quintal e apareceu-me um ratito em casa. Uma vez eu, a minha mãe e o meu pai andávamos atrás dele, mas eu tinha mais nojo dele do que vontade de o matar. Parecia um passo de dança eu atrás dele com a vassoura e ele, muito assustado, nem sabia para onde ir e quando vinha em direcção a mim, eu fugia. Só visto! ahahahah
Gostei muito do teu texto.

De Maria Alfacinha a 14.07.2015 às 09:56

Como (quase) sempre vivi em casas com quintais, estou muito habituada a estas cenas. Seria de pensar que o mesmo se passaria com toda a gente, mas não é verdade. Recordo uma cena, era eu adolescente, em que a D.Custódia (que andava a aspirar), se pôs num lado, tentando sei lá o quê, espero que fosse apenas assustar o pobre do ratinho e não metê-lo dentro do aspirador, a minha mãe no lado oposto agarrada a uma vassoura, aos gritinhos e sem se conseguir mexer e eu cheia de pena do desgraçado, mas perdida de riso a pedir-lhe, por favor, que se fosse embora. Nunca mais ninguém o viu. O pobre deve ter pensado que era melhor viver à mercê dos gatos do bairro

De Cris a 14.07.2015 às 23:28

LOL
estou mesmo a imaginar a cena!

De green.eyes a 14.07.2015 às 11:55

Eu sempre vivi em moradia com quintal ... já vivo nesta casa a 25 anos e tenho um quintal enorme, Melros, Gaios, caracóis e formigas são praga ...
Curiosamente ratos nunca apareceram ...
Mas quando vivia com os meus pais, eles também tinham um pequeno quintal, e os ratos apareciam com muita frequência em casa pois o soalho era de madeira e tinha tipo uma caixa de ar por baixo da casa ...
Eu confesso que tinha um certo nojo dos bichos ... mas a minha irmã tinha pavor, quando via um rato gritava tanto que quase deitava a casa abaixo, acho que ela era a melhor ratoeira que podia existir ...

De Maria Alfacinha a 14.07.2015 às 12:01

Sempre achei que, grande parte das vezes, morrem do coração, tal é a gritaria que provocam

De Fernando Lopes a 14.07.2015 às 11:55

A cada da minha avó tinha um enorme jardim, pelo que, de quando em vez aparecia um ratito. Houve um, particularmente atrevido, que se metia a dormir entre os jornais da minha mesinha de cabeceira. Achei-lhe tanta graça que o deixei gozar os prazeres do hotel durante uma semana inteirinha. Um dia desapareceu com um qualquer veneno ou ratoeira.

De Maria Alfacinha a 14.07.2015 às 12:04

Obrigada Fernando.
É bom saber que há mais quem lhes ache graça e não lhes rompa os tímpanos

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Julho 2015

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031




 






O Meu Alpendre


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D