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Há 13 anos

por Maria Alfacinha, em 04.08.15

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Foi num Sábado de Agosto.
Caía uma chuva grossa e constante que limpava o ar quente de Verão e, quando abri a porta de casa, lá estava ele encolhido na floreira. Não era a primeira vez que entrava no quintal, perseguindo o Dusty que ainda passeava livremente pelo bairro. Nos últimos dias tinha-o encontrado sempre ali quando chegava ao fim do dia. Eu ralhava com ele e ele fugia, esgueirando-se por baixo do portão. Assim que voltava costas ele voltava a entrar e eu fingia que não reparava. Nessa manhã olhei para ele e desisti. Fui buscar uma manta e uma tigela de ração. Quando me aproximei ele afastou-se, cautelosamente, pronto a fugir ao mínimo gesto. Coloquei a manta na floreira, a tigela ao pé e afastei-me. Sempre a olhar-me, desconfiado, aproximou-se da comida e devorou-a. Durante cerca de 1 mês o ritual cumpriu-se: eu colocava a tigela no chão e ele esperava que me afastasse para se aproximar. Aos poucos foi ganhando confiança. Um dia entrou dentro de casa e, ainda desconfiado, deixou que eu lhe tocasse.
Não fui eu que o recolhi, foi ele que me adoptou. Chamei-lhe Gaspar.

 

Era um cão decidido, muito senhor de si mesmo.
Impossível não sorrir quando o via a descer a rua todo emproado, com as suas patitas baixas e roliças, o ar esperto acentuado pela orelha quebrada, que baixava apenas quando se encolhia de mimo. Descobri um dia que adorava tapar-se. Descobri-o da pior forma: levantava qualquer peça de tecido e enrolava-se debaixo delas e isso incluía os tapetes, as cobertas dos sofás e... a minha cama. Acabei por lhe entregar umas mantas, que ele reconhecia como sendo dele abanando satisfeito o pequeno corpo cada vez que as via. Esperava que eu as estendesse, deitava-se em cima delas e rosnava baixinho enquanto o enrolava nelas e o esfregava, deixando-o deliciado com a brincadeira.

 

O Gaspar achava-se um valentão.
Não suportava a ideia de que um cão maior que ele – e eram todos maiores que ele! - passasse na rua e quanto maior fosse o intruso, maior era a rapidez com que o perseguia. Por vezes a aventura não acabava bem. Ainda hoje, enquanto lhe fazia festas, senti dentro de uma das orelhas o agrafo que o veterinário nunca conseguiu tirar e que ficou como recordação de um desses encontros complicados. Mas não aprendia a lição: assim que passava o período de convalescença, era vê-lo a passear pelo bairro ou perseguindo a gata da casa em frente.

 

O Gaspar gostava de me ouvir cantar, ou pelo menos é o que eu prefiro acreditar. Punha as patitas gordas em cima da minha perna, esticava-se todo e uivava com convicção. Estivesse onde estivesse, assim que ouvia a minha voz, lá vinha ele naquela corrida desajeitada, passando por cima de qualquer obstáculo, abanando a cauda, feliz por fazer coro comigo. Depois, como eu não resistia ao riso, sentava-se a olhar para mim, de orelhas espertas e espetadas na expectativa da continuação ou, quem sabe, na esperança que eu não repetisse. Tanta coisa que podia contar do Gaspar.... mas talvez hoje não seja o melhor dia para o fazer. O seu coraçãozito não aguentou mais e acabou por parar esta manhã. E o meu dia ficou mais triste.

 

Há quem diga que não quer animais porque dói perdê-los.
Mas nestes momentos também percebemos que a vida não vale a pena ser vivida sem amor, mesmo que seja por um cão. Sei que esta noite, quando chegar a casa, não vou ver o Gaspar, mas ele vai lá estar: a correr para o carro satisfeito, a anunciar aos vizinhos que cheguei, a enrolar-se na manta enquanto vejo as notícias.
Não sei para onde vão aqueles que amamos quando morrem.
Mas sei que vivem para sempre no nosso coração....

(2002)

 

publicado às 14:45



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