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Historia com final feliz

por Maria Alfacinha, em 07.12.15

historia com final feliz

Verificara o relógio pela segunda vez. Ainda tinha tempo para passar pelo Centro Comercial. A época natalícia tinha esta vantagem: as lojas, os supermercados, todos alargavam os horários esperando compensar a permanente crise económica. Ligou o rádio e a música invadiu-lhe o ar que respirava: Chestnuts roasting on an open fire... Estremeceu. Já não se lembrava que tinha deixado o CD no carro, gesto premeditado há uns dias, porque o espírito tardava, o seu famoso espírito de Natal que a tornava alvo de brincadeiras inocentes e gestos indulgentes por parte de quem a conhecia. E nesse ano não houvera ninguém que não utilizasse o famoso “Natal é quando um Homem quiser” em resposta à sua declaração solene que, por razões misteriosas, os festejos tinham sido adiados e o Natal só se celebrava em Fevereiro. Felizmente não a tinham levado a sério, o que lhe poupara muitas explicações.

 

Percorrera os largos corredores do Centro Comercial, olhando as montras sem as ver. Era tarde, queria despachar-se, recolher-se ao calor da casa, o único sítio onde, nos últimos tempos, se sentia verdadeiramente bem. Queria ver-se longe de toda esta azáfama que a nauseava, como se emanasse um aroma a comida requentada misturada com perfume barato. Era isso. Era esse o cheiro que impregnava as luzes brilhantes, as cores festivas, as palavras de quem se cruzava com ela sem a ver no corre-corre da última noite antes da Véspera de Natal. Apressara o passo, ansiosa por se afastar, cumprir o que tinha vindo fazer e sair, sair dali, esquecer a data, esquecer o barulho, esquecer o cheiro, aquele cheiro insuportável que parecia colar-se à pele, à roupa, como se fosse o orvalho de uma manhã fria em que não se quer sair da cama. Entrou na loja mais próxima, enumerou mentalmente o que devia levar, e quando se encostou à caixa, de carteira em punho, abençoou a mente que se organizara sem a consultar, pagou e saiu sem olhar para trás.

 

Descera ao estacionamento sem pensar e dera por si perdida no meio de centenas de carros desconhecidos, como se tivesse acabado de acordar. Sacudiu a cabeça: que parvoíce, isto nunca lhe acontecia, tinha aprendido a utilizar sempre a mesma entrada – seria saída? o que é que isso interessava? – e a memorizar apenas em que direcção tinha deixado o carro. Olhou em volta tentando reconhecer o lugar, como se fosse possível encontrar algo distinto nos grandes estacionamentos, todos iguais, todos divididos pelas mesmas cores. Pelo menos sabia que estava no andar correcto. Em dias de grande movimento escolhia quase instintivamente o –2, aquele a que os utentes do Centro Comercial só recorriam quando não encontravam lugar no –1. E sabia que tinha utilizado a escada correcta. Em que cor é que tinha estacionado? Azul? Sim, era azul. Tinha quase a certeza que era azul. Mas o azul estava tão longe... Respirando fundo, fizera-se ao caminho. Dentro em pouco avistaria o carro. Tinha que estar ali, naquela curva. Lembrava-se que o tinha deixado encostado a uma parede e só podia ser aquela. Tinha que ser aquela, repetiu para si, sem desviar o olhar, estava muito longe mas tinha que ser aquela... não era. Olhou à sua volta. Estava sozinha, rodeada de carros vazios, inertes, num parque de cimento sem fim, sem qualquer som, apenas o bater forte do seu coração que ecoava na acústica estranha das divisões subterrâneas. E de olhos fixos no azul da parede, segurando firmemente os sacos que trazia consigo, deixara-se cair no passeio e soltara a angústia dos últimos meses num choro convulsivo e reparador.

 

Tinha sido assim que, uma eternidade depois, um segurança do parque a encontrara. O olhar daquele estranho, oscilando entre o curioso e o preocupado, forçara-a a tentar esconder as lágrimas por trás de um sorriso sem vontade – não sei onde pus o carro, acha isto normal? – serenando com a voz calma do homem - acontece todos os dias, não se preocupe – e prestara-se a segui-lo reconstituindo o caminho que tinha feito à chegada. Encontrado finalmente o carro, sorriu outra vez para o segurança, que a observara o caminho todo e lhe perguntava se ela se sentia melhor. Agradecera-lhe novamente e desejando-lhe Boas Festas, arrancara. No caminho para casa, abrira as janelas para o frio da noite, respirara até ao fundo do peito, limpara o resto do desespero e olhando o céu escuro rasgado pelas luzes das ruas em festa, decidira que nunca mais, mas nunca mais mesmo, deixaria que lhe roubassem o Natal.

E assim foi.

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publicado às 13:23


1 comentário

De Entre Voos a 07.12.2015 às 19:44

Por vezes é nos sítios mais familiares que damos por nós perdidos... :)

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