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Horizontal, 3 - 4 letras

por Maria Alfacinha, em 22.07.15

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Hoje levantei-me mais cedo do que é habitual. Queria fazer a barba devagar e escolher a roupa com mais cuidado. Decidi, esta manhã, ainda antes de acordar, que está na hora de sair desta vidinha casa-trabalho-casa, e vou começar já. Não é que não me tenha andado a esforçar por isso. Quando me mudei para a casa onde estou agora, passei a frequentar o café ao fundo da minha rua. Eu que nem sou grande apreciador de café, habituei-me a sair todas as noites, depois do jantar comido à pressa no balcão da cozinha, para ir tomar a bica. De início encostava-me ao balcão - por vezes tenho a sensação que passo a vida encostado ao balcão – murmurava um boa-noite e um-café-e-um-copo-de-água, que bebia sem pressa, espreitando disfarçadamente as pessoas que me rodeavam. Ao fim de uns dias, já era o patrão que me cumprimentava primeiro e passámos a trocar impressões sobre o tempo até me despedir com um até amanhã. Não levou muito tempo até conhecer a maior parte dos clientes, homens de meia-idade como eu, normalmente sozinhos, ou casais de idades várias, vizinhos de muitos anos, com certeza, pela breve cavaqueira que mantinham. Passei a tomar o café sentado, demorando-me mais um pouco graças aos meus companheiros de mesa que pediam para se sentar, incluindo-me nas conversas. Descobri ali momentos agradáveis, embora percebesse que não eram mais do que disfarces para a solidão que sentia em casa.

 

Uma manhã de Domingo quando, sentado na pequena esplanada, tentava ler o jornal, dei por mim a invejar as famílias que passavam fosse para a praia ou para os almoços que organizavam. Sei do que falo, era o que fazia antes de a minha mulher me dizer que não aguentava mais a vida que tinha. Não lhe levei a mal, embora só nessa altura tivesse percebido que os gestos quase automáticos que mantínhamos há anos, eram mais do que um acostumar dos dias, um destino que nenhum de nós escolhera conscientemente e, no entanto, acabáramos por criar, enredados nas preocupações das despesas, dos filhos, dos imprevistos que sempre surgiam, por muito que os tentássemos evitar. Sem darmos por isso - ou sem eu dar por isso, que as mulheres parecem ter um outro sentir que abrange tudo o que as rodeia, mesmo que não lhes diga directamente respeito - tínhamo-nos esquecido de nós. No dia em que ela me disse que era o fim, recordei o início, o sorriso com que sempre me esperava, os planos que fizéramos, que acabáramos por transformar em sonhos que nos davam ânimo nos momentos mais difíceis mesmo sabendo - embora nunca o admitindo - que não os iríamos cumprir. Não lhe disse nada, não quis que aquele momento ensombrasse as boas recordações que ainda tínhamos. Poucos dias depois, e enquanto fechava a porta atrás de mim, apercebi-me que ela caíra num choro que eu já não podia consolar.

 

Por isso, hoje, um ano e três dias desde que saí de casa, cansado de esperar que o destino me encontre, decidi ir à procura dele. Há umas semanas que tenho tido uma nova companhia, na viagem que faço a caminho do emprego. Já a tinha visto - afinal basta estar atento para conhecer as caras de quem vemos todos os dias à mesma hora – mas nunca nos tínhamos sequer cumprimentado. Uma manhã ela chegou e rapidamente percorreu com o olhar os poucos lugares sentados que restavam. Decidida, pedindo licença à esquerda e à direita, avançou para o lugar à minha frente, obrigando toda a gente a desviar-se. Vendo que eu me sentara mais direito para lhe dar espaço sorriu-me e justificou-se: “É a única janela aberta…” e eu, sem pensar “É verdade. Não se percebe porque é que as pessoas fecham sempre as janelas”. Sorrimos e voltei para as palavras cruzadas que me entretêm quando não tenho com quem falar. No dia seguinte quando a vi entrar, reparei que já não se demorou a procurar outros lugares. Quando me viu – gosto de pensar que foi a mim que me procurou e não ao lugar que estava vazio – acelerou o passo, sentou-se e apontando com o olhar a janela aberta, sorriu um bom-dia. O bom trabalho e o até amanhã, passou a entrar na nossa conversa sobre janelas. E todos os dias tem sido assim.

 

Agora, aqui estou no meu lugar costumeiro, tentando, discretamente, manter vago o assento que lhe pertence. Abro o jornal e, de caneta em punho, procuro a página onde estava: horizontal, 3 – infusão de grãos torrados e moídos - 4 letras. Penso que deve ser um sinal. Nem que fosse só por isso, enquanto preencho a grelha resolvo que é hoje que a vou convidar para um café.

in (...)
o outro lado

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publicado às 11:45


9 comentários

De green.eyes a 22.07.2015 às 11:54

A rotina é sem duvida a razão de muita separação ...
Parabéns pelo texto ... gosto da tua maneira de escrever ...

De Maria Alfacinha a 22.07.2015 às 12:26

Há tanta coisa na vida a que, por vezes (nem sempre, é claro) , bastava um pouco mais de atenção para que não tivesse maus resultados, não é?
E obrigada pelas palavras que aqui vais deixando

De (des)Esperança a 22.07.2015 às 11:59

e depois??? no dia seguinte??? conta,conta!!!

De Maria Alfacinha a 22.07.2015 às 12:29

Ahahahahaha não pensei numa continuação.
Mas olha que dou comigo a imaginar o pobre homem a descobrir que lhe uma vida, sabes? Como seria a reacção?

De Maria Alfacinha a 22.07.2015 às 12:56

Vou repetir que comi ali uma coisita:
Mas olha que dou comigo a imaginar o pobre homem a descobrir que lhe inventei uma vida
Agora está bem :-)

De Paulo Vasco Pereira a 22.07.2015 às 18:25

Os dias e a história de tanta gente.
Sim, acredito que há homens assim e é bom dar a conhecer uma perspetiva diferente destes.

De Maria Alfacinha a 24.07.2015 às 00:21

Claro que há :-)
E por vezes, para os "descobrir", só temos que "espreitar por outro lado"...

De Cris a 29.07.2015 às 00:01

Então, este é o início! Espero que tenha continuação com um final feliz (sou uma romântica).

De Maria Alfacinha a 29.07.2015 às 14:20

Junta-te ao clube (das românticas incorrigíveis)! :-)
Foi aqui que começou, mas já nem sei se será o início.
Certo, certo é que a história (parece que) não acabou

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