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Acordai!

por Maria Alfacinha, em 10.02.12

grito.jpg

Tenho as mãos vazias de espaço.

As mãos, as horas, o querer.

Esgoto-me nos dias que fogem por entre as tarefas necessárias e enfadonhas, pegajosamente estéreis. Escapou-se-me o conceito de vácuo, como se a minha vida fosse uma calçada de calcário e basalto, daquelas bem alfacinhas, bem portuguesas, com ondas e caravelas e corvos, onde nada medra, não porque a sua execução tenha sido perfeita mas porque lhe despejaram por cima uma aguadilha de cimento que impede a pedra de respirar, deixando-a presa no desenho que a torna única, bela e possante, mas que lhe encarcera a imaginação. Espraio o olhar nas avenidas velhas, tentando abstrair-me das gentes que passam, que pisam a minha calçada sem nela repararem, e não consigo. Vejo-os largando sacos de compras e queixas mesmo em cima das formas das sereias que já não as enfeitiçam, que não ouvem, como se as histórias de amor e lágrimas que elas cantam, fossem palavras mudas sem melodia. Percebo assim que esta vida não é minha, não a que quis, não a que eu construi, mas apenas a vida de todos os rostos tristes que passam por mim.

 

Porque a tristeza invadiu a minha cidade, marcando–a com olheiras e rugas nos prédios abandonados, roubando a luz dos olhos de quem envelhece depressa demais, os gestos gastos na pressa do trânsito, no cumprimento dos horários, feridos pela crueldade dos acontecimentos, cravando-lhes na pele a indiferença de quem se sabe impotente e cansado demais para ter esperança. Não é melancolia, não é saudade. É um deixa-andar exausto de quem parece já não acreditar num amanhã melhor, de quem relegou os sonhos para um outro tempo, para uma outra existência, como se a luta pela felicidade não fosse legítima e justa, como se fosse um luxo que só alguns poucos privilegiados podem cuidar de alcançar. Não há sol que lhes valha, não há calor que os aconchegue. Os dias arrastam-se sem vontade, os corpos moídos e pesados, os sentidos embriagados por campeonatos de audiências, por apelos a patriotismos que os embrutecem e lhes roubam a capacidade de reflectir, destruindo as sementes da revolta, da insubmissão, da desobediência.

 

Ah, desfaçam-se os céus em tufões de raiva que varram esta pasmaceira a que chamam vida, dissolvam-se em lágrimas de nuvens, numa chuvada espessa e fresca que lave as almas consumidas por dores inúteis, despenhem-se nas ruas qual trovões indignados, em rugidos de insurreição, limpando o ar do desânimo e da inanição. Talvez a Natureza seja capaz de exorcizar este quebranto que tomou conta dos espíritos, agitando as mentes, despertando-as do torpor a que se entregaram e que se oiça novamente a voz do poeta em canção heróica:

“Acordai !

Acendei de almas e de sóis

Este mar sem cais nem luz de faróis

E acordai depois

Das lutas finais

Os nossos heróis

Que dormem nos covais

Acordai !”

publicado às 15:20


18 comentários

De poetaporkedeusker a 10.02.2012 às 16:21

Bem acordada - mas dorida... - deixo-te o maior dos meus abraços :)
O velho-estado-novo cumpriu muitíssimo bem o seu papel de estupidificador de massas... tantos, tantos dormem ainda...
Até sempre, mana Alfacinha! :)

De Maria Alfacinha a 15.02.2012 às 15:55

Cansa-me esta modorra, Poeta.
Há dias em que me deixa verdadeiramente de rastos...
Abraço daqui até à Lua :-)

De poetaporkedeusker a 15.02.2012 às 16:49

Pois em, conto-te aqui mesmo o meu estranho despertar - real - de hoje; acredita que acordei - nem te sei explicar como isto aconteceu - perto das 13h, olhei, ensonada e sem óculos, para o relógio e "vi" - juraria ter visto! - as 8 horas do costume.Até ser tarde demais para poder ir almoçar ao CP, procedi e senti como se fosse manhã... acho que aquela notícia de ontem, no centro de saúde, sobre a alteração do regime de comparticipação dos medicamentos aos doentes crónicos me deixou ainda mais alterada do que aquilo que eu senti... e não foi pouco!
Estou agora a comer o primeiro pratinho de arroz cozido com atum, no espaço de 48h... um pouco mais, até.
Se isto começa a ser norma, estou bem tramada! :) Mas eu sei que não vai voltar a acontecer, nem que eu tenha de ligar o despertador!
Abraço até ao Sol... e não me queimo! :)

De Maria Alfacinha a 16.02.2012 às 09:10

Maria João, tu toma cuidado contigo!
Olha que ninguém o faz por nós...

De poetaporkedeusker a 16.02.2012 às 11:40

;) Eu tento... a minha bicheza velhota ainda vai precisando de mim... está tudo a "cair aos pedaços" e a precisar de cuidados constantes... mas, ontem, ficaram todos sem comer até às tantas, coitadinhos :)
Ando mesmo muito cansada e as novidades sobre a nova legislação das comparticipações medicamentosas, deixou-me capaz de subir às paredes...
Beijinho, minha querida Alfacinha!

De Maria Alfacinha a 17.02.2012 às 17:43

Tu não me dês preocupações q eu já tenho que me cheguem, ouviste??
A ver se na próxima semana damos dois dedos de conversa...
Beijinho grande Poeta

De poetaporkedeusker a 17.02.2012 às 19:28

Não voltei a acordar fora de horas, está descansada :))
Mas continuo cansaaaaaada... olha a pieguice :))
Abraço GRANDE!

De poetaporkedeusker a 28.03.2012 às 14:49

Faço o que posso... o problema é que posso muito poucochinho :)
Bjo!

De José Solá a 10.02.2012 às 19:13

Fomos capados pela gente ruim que nos robou o direito à felicidade. Embruteceram-nos, amarfanharam-nos a alma, e a libertação não pode ser pacifica. Temos de recuperar a dignidade, e não vamos conseguir vencer sem o derrame do nosso sangue. Esta gente medonha foi longe de mais. A sua escrita dá-me a certeza de que vale a pena de tudo fazer para acordar este Povo! Obrigado!

De Maria Alfacinha a 15.02.2012 às 15:56

Muito obrigada pelas suas palavras José Solá.
Soltei apenas o mau-feitio :-)
Bem-vindo ao meu alpendre!

De Michelle MVH a 13.02.2012 às 11:26

Lindo!

De Maria Alfacinha a 15.02.2012 às 15:57

Vindo de quem vem... :-)
Bem-vinda ao meu alpendre!
(ainda não te tinha visto por aqui)

De Michelle MVH a 15.02.2012 às 20:35

Quê?! Explicar o "Vindo de quem vem" por favor. :)))

De Maria Alfacinha a 16.02.2012 às 09:09

:-)))))
(e o suspense manteve-se toda a noite...)
A Maria Alfacinha é, nem mais nem menos, a Gerenta da Fábrica de Histórias.
Conhecemo-nos de "outras guerras", né? :-)

De Michelle MVH a 16.02.2012 às 18:14

Ena! Então posso tratar-te por Maria Alfacinha? Eheheh Não me viste por estes lados porque há tempos tenho andado com bloqueios de escrita. E raramente entro nos blogs. Bjs :)

De Maria Alfacinha a 17.02.2012 às 17:39

Ehehehehe
Podes chamar-me o que quiseres :-)
Bom fim-de-semana

De aflores a 13.02.2012 às 13:05

Há muito que passo por aqui, por este alpendre, que me pede para sentar, ficar um pouco e esquecer. Esquecer tarefas, rotinas, tristeza, audiências e até uma paragem cardíaca que quase, quase, quase, me levou a "dormir" para sempre.
Felizmente ACORDEI, estou acordado, mas... luto por um dia de cada vez, sem meter nunca a cabeça na areia e não me deixar cair em tentações por outros "campeonatos".
Mantenho-me acordado mas mais virado para outro lado.

Tudo de bom.

De Maria Alfacinha a 15.02.2012 às 15:59

Meu querido amigo: se for preciso tb te grito...
Livra-te de nos pregares outro susto!
E um dia de cada vez é uma velocidade perfeita. :-)
Bj grande

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