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Sem memória uma pessoa deixa de o ser

por Maria Alfacinha, em 21.09.12

 

 

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Começa serenamente, sem ruído ou sobressaltos. Esquecem as chaves da casa ou os óculos. Perdem o tino onde ficou a carteira. Não pensam nisso. Acreditam que é normal, a idade começa a pregar-lhes partidas. Organizam estratagemas para evitar dissabores. Repetem os mesmos gestos e estabelecem uma rotina que os tranquiliza. Percebem que estão a perder faculdades, pela primeira vez acreditam que estão a envelhecer. Conscientes da mudança surgem os momentos que se crêem ser os mais difíceis: entender que falham, notar que os outros se entreolham, que lhes sorriem mais do que é habitual, atitude condescendente e perfeitamente desculpável mas que os revolta ou os empurra para cada vez mais largos períodos de depressão. Lenta, mas com uma velocidade estonteante para quem assiste, os sintomas acumulam-se, as reacções são imprevisíveis, diferentes de um dia para o outro. Até que isso já não os preocupa. E é nesse momento que, quem os rodeia, quem os ama, aprende dolorosamente que esta é uma estrada com apenas um sentido.

Então lemos tudo o que nos possa explicar ou ensinar. Procuramos médicos, associações, gente que sabe do que falamos. Descobrimos que não há uma receita, cada caso é diferente e que só podemos viver um dia de cada vez, tentando e principalmente tendo esperança que seja tão bom como o anterior. Porque não há cura, não há melhoras. Amanhã a doença estará mais forte, terá progredido um pouco mais. Depois de amanhã mais ainda. É uma doença estranha. Não causa dor ou lágrimas a quem a tem. Rouba o Ser, não a Vida. Mas é extremamente difícil de aceitar e lidar para quem assiste. Passamos a encarar as dificuldades de outra forma. Aprendemos que o corre-corre que a vida moderna nos impõe não faz qualquer sentido, não nos serve de nada. Tudo perde importância, porque tudo é inútil. A única coisa que podemos fazer é tentar que mantenham a sua dignidade enquanto pessoas e acima de tudo amá-los e fazê-los sentir esse Amor. Porque eles vão esquecer tudo mas o Amor será a última coisa a desaparecer.

Hoje assinala-se o Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer.
Para que ninguém se esqueça que a doença existe.
Ou simplesmente para que ninguém esqueça.
Porque sem memória uma pessoa deixa de o ser.

 

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inspirado numa crónica de Maria Filomena Mónica (2006)

publicado às 10:58


4 comentários

De alzheimerdepapie a 21.09.2012 às 16:44

Este texto está tão lindo, tão real, e ao mesmo tempo trsite...emocionou-me muito.
Cumprimentos

De Maria Alfacinha a 25.09.2012 às 09:43

O que é que eu posso dizer?
Fui ver o teu blog e acabei por reviver tudo o que passei com a minha mãe: o desespero, as dúvidas, a dor... Não há uma receita, só o dia-a-dia é que nos vai mostrando como lidar com a doença e infelizmente quem passa pelo mesmo pode ser o nosso único apoio. Vou tentar passar pelo teu blog amiúde, sim?
Um abraço de coragem

De PIJose a 07.08.2013 às 16:13

Descobrimos que o meu rico paizinho, que só tem 62 anos, que andava tão "cansado" mais ou menos á 3anos, tem Alzheimer, li este texto, não teria encontrado melhores palavras para descrever o que sinto, estamos em pânico!A vida dos meus pais estruturada á muitos anos num negócio familiar, onde se trabalha com a "prata da casa", encontra-se a minha mãe sobrecarregada, cada vez mais magra e a ficar desesperada.Tenho agora um filho de quase um ano, parte-me o coração, saber que ele não vai "conhecer" o avô!Neste momento, acho que o neto é a unica coisa que lhes dá alento.Que revolta, que impotência...Vejo o meu paizinho, a caminhar sozinho em direção a um sitio escuro...

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