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Lisboa, o Fado e o Tejo

por Maria Alfacinha, em 11.08.15

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São dois, os meus sítios preferidos para namorar Lisboa: do alto da ponte - e Ponte sobre o Tejo há só uma, a outra é a Vasco da Gama - e o Cais do Ginjal. Também as horas a que eu gosto de a namorar são diferentes. Da ponte gosto de ver a cidade pela manhã, muito cedo, ainda mal ela acordou, espreguiçando-se nesta luz branca que só Lisboa tem e que, quando se reflecte nos rosas e amarelos das fachadas dos prédios, ou no branco nacarado das igrejas, e se mistura com o azul brilhante do Tejo, transforma a paisagem num enorme azulejo de outros tempos. Ao Cais do Ginjal gosto de chegar ao fim da tarde, pouco antes de o sol se deitar, e ficar a ver a cidade a iluminar-se para a noite, descobrir cada um dos monumentos, que parecem crescer na importância do seu papel enquanto vigilantes das colinas, deixar-me embalar pelo deslizar dos cacilheiros, que se transformam em castiçais de muitas e pequenas velas, e imaginar os passos das vidas que se recolhem ao sossego do lar, ao som compassado da ondulação do rio. Sou uma romântica incurável, eu sei...

 

Tempos houve em que gostei de Fado. Foi já adulta que lhe ganhei alguma malquerença, pelo uso abusivo da sua carga dramática, como desculpa para a inacção a que os Portugueses se entregam. O Fado que aconchegou os meus sonhos de quase mulher, que fez bater com mais força o meu coração e enrolou o meu estômago na ansiedade e exagero dos sentidos, esse Fado eu amo. O Fado que o meu Pai transformou em canção de embalar, tornando-o meu, só meu, como se tivesse sido escrito para mim, esse Fado que eu choro quando o canto, os olhos fechados na emoção do sentimento, a voz embargada pelas saudades do que nunca vivi - a Rua do Capelão que poucos conhecem - esse é o Fado da minha vida. O Fado enquanto hino de amores não correspondidos, e odes a dores inevitáveis, que justificam a indiferença e o conformismo de gentes que já foram donas do Mundo, é algo que tenho muita dificuldade em compreender.

Talvez tenha sido por tudo isto - e tanto mais - que numa dessas tardes, no Cais do Ginjal, com o Tejo cheio, quase a bater-me nos pés, envolta na doce temperatura de um fim de dia de Verão e iluminada apenas pela visão da Lisboa com que eu gosto de sonhar, quase sem me aperceber, ergui a voz e ofereci aos céus a estrofe que, sempre soube, sei-o desde menina, poderia desenhar o meu sentir:
“Oh meu cigano adorado, viver abraçada ao Fado, morrer abraçada a ti”

Nem todo o Fado é bonito, MJ... mas alguns são lindos de morrer
(em jeito de agradecimento pelo... "testamento")

publicado às 15:14


8 comentários

De green.eyes a 11.08.2015 às 15:29

Onde fica o Cais do Ginjal ??

De Maria Alfacinha a 11.08.2015 às 15:34

Em Cacilhas, do outro lado do rio.
Está a cair aos bocados, um dia destes desaparece...

De Magda L Pais a 11.08.2015 às 16:07

A rua do capelão é dos fados mais bonitos que já ouvi!

De Maria Alfacinha a 12.08.2015 às 13:10

Sou suspeita, mas não podia estar mais de acordo contigo

De Cris a 11.08.2015 às 19:12

Percebo o que queres dizer. Comigo, foi diferente, eu não gostava de fado, mas como gosto muito de música, acabei por me render ao mesmo, porque, de facto, há fados muito bonitos!

De Maria Alfacinha a 12.08.2015 às 13:17

Quando eu era muito miúda - no século passado - o Fado era uma canção "normal" fazia parte do dia-a-dia. Depois, já menos miúda mas ainda no século passado :P, passou a ser a música dos conservadores, dos Velhos do Restelo. Só mais tarde - mas ainda no século passado ahahahahha - é que fiz a ligação entre o Fado e o Fado enquanto Sina. Essa é que estragou tudo...
Mas há Fados e Fados, claro :-)

De Cris a 12.08.2015 às 19:23

É só para informar que também passei muito tempo no século passado... Aliás, eu até digo que nasci no século errado

De Maria Alfacinha a 13.08.2015 às 22:22

Eu também mas, com certeza, por outras razões :-)

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