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Nenhuma boa acção fica impune

por Maria Alfacinha, em 23.02.16

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O elevador parou com um solavanco e Cristina, empurrando a porta exterior, saiu para o patamar iluminado. Estes prédios antigos tinham qualquer coisa que a arrepiava sempre. Sem dúvida que os elevadores contribuíam para essa sensação, o ruído com que se arrastavam, os espelhos manchados, os botões teimosos e principalmente a luz, mortiça e claramente insuficiente, criavam um cenário estranho e pouco convidativo que lhe transportava a mente para as histórias de suspense que devorara na adolescência. O patamar, pelo contrário, era cuidado e brilhante e o desconforto que sentira desapareceu rapidamente. Parou por momentos em frente à porta que pretendia e, inconscientemente, passou uma mão pelo cabelo antes de premir a campainha que soou discreta em consonância com a placa de latão polido que confirmava ser ali a empresa que procurava. O trinco automático soou e Cristina empurrou a porta que se entreabrira. À sua frente, por trás de uma secretária requintada, um sorriso estudado mas simpático, desejou-lhe, sem qualquer palavra, as boas vindas. Cristina sorriu e aproximou-se da secretária:

 

— Boa tarde! Tenho uma reunião marcada com o senhor Castro e Silva

 

A recepcionista consultou a agenda aberta à sua frente e levantou os olhos com mais um sorriso.

 

— D. Cristina Moreira? O Sr. Castro e Silva está à sua espera.

 

Levantou-se ajeitando a saia justa e, dando a volta à secretária, dirigiu-se ao corredor, fazendo-lhe um gesto para a acompanhar:

 

— Por aqui, por favor – e, rápida mas elegantemente, liderou o caminho até uma porta que abriu sem qualquer ruído.

 

— Esteja à vontade, por favor, – pediu a eficiente recepcionista. Vou avisar o Sr. Castro e Silva que chegou.

 

Cristina pousou a mala em cima da ampla mesa de reuniões e despiu o pesado casaco de Inverno.

 

— Posso oferecer-lhe alguma coisa? Uma água, um café? – perguntou a recepcionista.

 

Cristina sorriu:

 

— Talvez uma água, obrigada.

 

A jovem retribuiu o sorriso em assentimento e saiu, fechando a porta atrás de si. 

 

Cristina passeou o olhar pela sala onde se encontrava. As paredes forradas a painéis de madeira exibiam gravuras de exemplar bom gosto e eventual valor a condizer. As largas janelas deixavam antever a cidade por entre as copas das enormes árvores que enfeitavam a larga avenida. Puxando uma cadeira, instalou-se confortavelmente, gozando o conforto do ambiente que a rodeava. Passaram breves momentos até a porta se abrir para deixar passar o Sr. Castro e Silva, que a brindou com um sorriso afável:

 

— D. Cristina. Como está? – perguntou, apertando-lhe a mão com uma imperceptível vénia.

 

— Bem, muito obrigada, – respondeu Cristina, acrescentando – a sua mensagem pareceu-me urgente. Passa-se alguma coisa?

 

O homem abriu ainda mais o sorriso, enquanto se sentava.

 

— De todo! Mas surgiu uma oportunidade interessante e quisemos informá-la sem mais demora.

 

Afastou o olhar para a porta que se abrira novamente, deixando entrar a recepcionista trazendo uma pequena bandeja.

 

— Obrigado, Marta – agradeceu em tom de despedida.

 

Assim que a porta se fechou voltou-se novamente para Cristina:

 

— Vamos então ao que a trouxe aqui. Como lhe disse surgiu uma oportunidade que consideramos muito interessante. Analisámos cuidadosamente as peças que nos trouxe e, de acordo com o que tínhamos combinado, entrámos em contacto com alguns possíveis interessados na sua aquisição. Não foi preciso procurar muito. Um dos nossos clientes habituais, e um dos melhores devo acrescentar, mostrou-se imediatamente disponível para apresentar uma proposta de aquisição de todo o lote.

 

Cristina sorriu:

 

— Tão depressa? Pensei que fosse mais complicado.

 

Castro e Silva recostou-se na cadeira:

 

— Não quis adiantar nada quando nos visitou na semana passada. Embora, à primeira vista, todo o lote me tivesse agradado, não me atreveria a criar qualquer expectativa antes de uma completa avaliação das peças. No entanto, assim que as vi, contactei este nosso cliente que, tinha a certeza absoluta, seria um eventual comprador. E assim foi.

 

Cristina bebeu um pouco de água antes de comentar:

 

— Realmente não percebo nada disto, – e acrescentou – uma das razões que me levou a contactá-los foi pensar que as peças que a minha vizinha me deixou só teriam interesse para um coleccionador, mas convenci-me que levaria mais tempo encontrá-lo.

 

Castro e Silva sorriu-lhe:

 

— A senhora não faz a mínima ideia do que nos trouxe, pois não?

 

O olhar de Cristina passou de curioso a intrigado. Sem consegui ocultar a satisfação que sentia, o homem continuou:

 

— Como lhe disse, as peças que nos entregou foram cuidadosamente avaliadas pelos nossos especialistas e – abrindo a pasta à sua frente, tirou uma pequena folha que dobrou cuidadosamente antes de a entregar a Cristina – este foi o valor que apurámos.

 

Controlando a ansiedade Cristina aceitou a folha e desdobrou-a devagar. O seu olhar, agora, demonstrava espanto e não conseguiu evitar um estremecimento. Por breves momentos o silêncio invadiu a sala de reuniões e Cristina teve a sensação que Castro e Silva conseguia ouvir o bater descompassado do seu coração. Sem pousar a folha, levou novamente o copo de água aos lábios. Depois, ainda surpresa, fixou o olhar no homem à sua frente:

 

— Sr. Castro e Silva, tem a certeza deste valor? Não estou, de forma alguma, a duvidar da vossa competência, – apressou-se a acrescentar – mas parece-me um pouco exagerado para algumas jóias antiquadas.

 

Castro e Silva mostrava-se agora confiante e satisfeito pelo impacto que causara:

 

— Minha senhora, não tenha qualquer dúvida acerca do valor que lhe apresento. Contrariamente ao que pensa, as jóias que nos trouxe têm realmente um valor elevado, considerando o mercado dos coleccionadores. Eventualmente, não seriam peças de grande valor no mercado tradicional pois, conforme disse, o seu design antiquado não despertaria muita atenção. Mas o facto de ser um conjunto tão completo, torna-o apetecível para os coleccionadores da especialidade. Caso cheguemos a acordo, a esse valor bastará subtrair a nossa habitual comissão e daremos andamento a todos os pormenores da venda.

 

Aparentando uma calma que não sentia, Cristina pousou a folha de papel em cima da mesa:

 

— Claro que sim, penso que sim! – riu-se nervosamente. – Peço desculpa. Ainda não estou em mim. Suspirou: Pobre D Hermínia, será que ela sabia o que tinha em casa?

 

Castro e Silva encolheu os ombros:

 

— Talvez sim ou talvez não. Muitas vezes as pessoas herdam ou adquirem peças sem se aperceber do seu real valor. Neste género de lotes encontramos muitas vezes peças de joalharia invulgar misturadas com bijuteria barata. E é muito frequente o seu proprietário atribuir-lhes igual valor, pois o importante, para quem as possui, são as histórias que os acompanham.

 

Cristina pareceu despertar:

 

— Sim, entendo. Será que podia possível ver novamente as jóias? Gostaria de escolher uma para guardar como recordação.

 

Castro e Silva pegou no telefone:

 

— Claro que sim! – marcou um número – Marta, peça por favor à Eduarda que traga o lote 5312 à sala de reuniões – e levantando-se, acrescentou: Dá-me licença por uns minutos? Volto já.

 

E saiu da sala fechando a porta atrás de si. Cristina levantou-se e dirigiu-se à janela, tentando readquirir a habitual serenidade. Sabia que as jóias tinham algum valor, mas nem nos seus sonhos mais audaciosos pensara que fosse tanto. Observou o rio à distância e recordou como tudo tinha começado.

(continua)

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publicado às 11:25



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