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Os relógios da minha vida

por Maria Alfacinha, em 04.01.16

relogios

Qualquer relógio nasce convicto que pode controlar o tempo. Pobres relógios iludidos. Ao tempo não lhe interessam relógios, horários e compromissos. Pouco lhe importa se alguém o mede em horas, palmos ou litros. Passa quando tem que passar, pára quando é preciso, corre sempre que lhe apetece, para logo recuperar no instante seguinte o tempo que nunca perdeu. O tempo ri-se dos relógios e eu há muito desisti de os usar. Na verdade, se o fizesse de pouco me servia, as minhas horas nem sempre têm 60 minutos. Por vezes têm mais, muitas vezes têm menos, dias há em que simplesmente desaparecem como se nunca tivessem existido. Os relógios que conheço medem o tempo dos outros, as tarefas que me impõem, os horários que me exigem, não medem os sentires e os quereres, as mágoas e as alegrias, que constroem os meus dias. Os relógios que verdadeiramente importam são os relógios da minha vida.


Quando eu era menina havia um relógio na cozinha. Era branco e vermelho em plástico espesso com uma tampa transparente. Escondida atrás dele, pendurada num pequeno prego, estava uma chave estranha. Não me lembro de me guiar pelas horas que marcava mas fascinava-me o ritual que permitia mantê-lo a funcionar. Todos os dias à mesma hora, alguém tirava o relógio da parede, abria a tampa transparente, inseria a chave numa ranhura e rodava, rodava, rodava, até não ser possível rodar mais. Havia também o relógio que a minha mãe insistia em colocar no pulso todos os dias mesmo que nunca estivesse certo porque, dizia-o convictamente, a pulsação interferia com o mecanismo. De vez em quando dava-lhe corda. Quando se atrasava muito ou quando finalmente parava, a minha mãe puxava o botão e rodava, rodava, rodava até não ser possível rodar mais. Ninguém se podia guiar por ele, mas divertia-me a inutilidade de um relógio que não sabia dizer as horas. E havia o relógio de pulso do meu pai, antigo, grande, sólido, o único que podia ser levado a sério. Era por ele que se acertavam os horários da casa, era ele que determinava a que horas se jantava, se dormia, quanto tempo faltava para irmos para a escola. E a mim sossegava-me a importância que lhe atribuía, o cheiro da correia, o tic-tac solene, o tom amarelado do mostrador.

 

Outro relógio vivia na arrecadação desde que para aí tinha sido desterrado
à espera da necessitada reparação. Numa tarde com demasiadas horas com certeza,
resolvi iniciar o restauro aplicando-lhe várias camadas
do esmalte verde que tinha sobrado da pintura dos portões.
Não foi devidamente apreciado o meu esforço e durante muito tempo
não pude aproximar-me de qualquer lata de tinta.


Houve muitos outros relógios na minha vida. O relógio da sala de estudo que preenchia os silêncios entre o folhear dos livros, o que cantava “Ave Maria” a cada hora que passava, assombrando as noites de umas longínquas férias num Alentejo sem pressa, o da igreja que marcava as vésperas e as matinas chamando os fiéis à missa, o da fábrica que ainda hoje proclama a hora do almoço e a hora da saída. O relógio que o meu pai me ofereceu quando entrei no liceu. O relógio no meu escritório que tem o meu nome estampado, o da cozinha que só mora ali por causa da vaca que lhe serve de suporte, o que me saiu numa rifa, o relógio de pêndulo que resgatei do lixo, os relógios que me ofereceram, o que ocupa a minha mesa-de-cabeceira, o único que funciona mas não me preocupo em acertar, que em tempos acalmou as noites de um cachorrinho afastado da mãe e hoje só serve para embalar o meu sono.


Viver sem relógio? Não sei como seria.
É que os relógios da minha vida não sabem medir o meu tempo, mas todos têm histórias para contar.

publicado às 14:52



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