Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Sem estrelas nem luar

por Maria Alfacinha, em 13.05.15

janelas-noturnas.jpg

A rua, aconchegada pela noite, parece ter parado no tempo. 

Aqui e ali uma brisa fresca agita os ramos das arvores e muito ao longe, como se fosse num outro mundo, consigo ouvir o ruído abafado dos carros, pontuado por um ou outro latido, o restolhar dos arbustos, um jornal velho que se arrasta pelo passeio. O calor abafa os sentidos e o cheiro do contentor do lixo, que alguém deixou aberto, esconde qualquer outro aroma que me esforce por distinguir.

Espreito pela única janela que ainda tem a luz acesa e é então que a vejo, sentada num sofá, debruçada sobre uma tigela, levando a colher à boca, sem pressas, como se o adiantado da hora não a incomodasse, mastigando devagar, ritmadamente, respirando fundo antes da colherada seguinte, sem pausas desnecessárias. Não fossem as mãos e o movimento seria apenas mecânico, mergulha na tigela, eleva-a à boca, mastiga, engole, respira fundo, mergulha novamente, eleva-a mais uma vez, mastiga, engole, respira fundo, mergulha, eleva, mastiga, engole, respira, um, dois, três, quatro, cinco, mergulha, mastiga, engole, respira. Mas as mãos desfazem-me a ilusão. Não há máquina que lhes consiga reproduzir a perfeição, todos os pequenos movimentos dos dedos, como se fossem pequenas bailarinas unidas pela palma da mão.

São essas mesmas mãos que, acabada a refeição, pousam a tigela na mesa, puxam para si uma caixa de costura e escolhem uma agulha, debatem-se com uma linha comprida, enfeitam-se com um dedal. Lentamente debruçam-se para o chão, regressam com um sapato e nos minutos seguintes desenrola-se perante os meus olhos um gracioso ballet interpretado pelos mesmos dedos, remendando o desgaste de algo claramente muito usado. Quando terminam, cortada a linha que resta, a dona das mãos observa o resultado, testa a resistência do trabalho e parece satisfeita. Pousa o sapato no chão e quando se volta a erguer, suspira longamente com o olhar parado num horizonte que só ela vê.

Afasto-me rapidamente levando comigo aquele suspiro que guarda em si os cansaços, as dores, os sonhos e quem sabe alguma esperança. E enquanto desço a rua não consigo deixar de pensar no contraste entre um suspiro que encerra tudo e o vazio daquele olhar.

publicado às 15:27


5 comentários

De poetaporkedeusker a 13.05.2015 às 20:00



Este é um daqueles textos que me deixam sem palavras... a mim, que vinha eivada da genuína e louvável intenção de comentar...
Comento, no entanto! Devagarinho, palavra a palavra, porque nos confunde e retarda, esta coisa de ficar com as confissões presas entre a garganta e a ponta dos dedos...

Caramba! Não é que conseguiste que eu me identificasse, aqui e ali, com a tua protagonista de "olhar vazio"?

Bem... eu, esteja como estiver o meu olhar, ainda tenho algumas coisas "só minhas" para contar... sinto, por vezes, a necessidade de falar do meu Sigmund que, muito embora comendo, está reduzido a pele e osso numa antecipação visível e sensível da morte que, bem o sei, não mo deixará por cá mais do que uns meses... largos, penso. Ou quero pensar. Coisas minhas. Minhas e dele, claro, porque será ele quem vai partir primeiro e eu não sei como me haverei de equilibrar no convés da barca quando deixar de o ter junto de mim...

Humana. Sou apenas humana. Assim, por vezes..."sem estrelas nem luar!"...

De Maria Alfacinha a 19.05.2015 às 12:27

Deixar-te sem palavras é o melhor elogio que me podes fazer, já sabes :-)
Quando ao resto, fica um beijo, com estrelas e muito luar

De golimix a 14.05.2015 às 07:26

Belo texto!
Gostei mesmo Maria!

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Maio 2015

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31




 






O Meu Alpendre


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D