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Em promessas de sol

por Maria Alfacinha, em 02.08.15

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Quando abri os olhos, esta manhã, o céu estava tão cinzento que cheguei a pensar que o Pompeu se tinha enganado na hora a que costuma acordar-me, sentando-se na beira da cama e olhando para mim fixamente enquanto, com a pequena pata, me dá pancadinhas nos braços ou puxa os lençois só descansando quando lhe dou os bons dias e saio da cama.  Mas não, o Pompeu nunca se engana nas horas. O sol é que por vezes acorda tímido ou preguiçoso, sei lá, ou se calhar tem frio e tapa-se com as nuvens – onde andariam elas ontem à noite, quando a lua brilhava mais que as luzes da cidade? – e dei por mim quase divertida, por estar a inventar razões para atrasar o acordar até que, depois de mais uma patada, acabei por me levantar, estranhando o meu sorrir matinal. Ou talvez não seja estranho, este meu acordar diferente…

 

Ontem, quando cheguei ao pé dele, ia tão lançada para falar de algo mais que janelas, e a fobia das pessoas em mantê-las fechadas, que acho que o assustei. Devia ter dito bom dia primeiro. Estava tão distraído, tão concentrado no que fazia que, em resposta à minha oferta de ajuda, balbuciou uma série de quase-frases num tom de voz tão baixo e tão em catadupa que tive que pedir que repetisse porque não tinha percebido nada. Acho que me agradeceu com o olhar, ou se calhar foi impressão minha, ou talvez tenha sido por lhe ter tocado no braço quando lhe pedi desculpa. Foi instintivo, não pensei, fi-lo como faria para sossegar alguém, um gesto apenas – sou eu, não se assuste, foi sem querer – um toque tão breve que talvez nem tenha dado por isso. Mas fiquei surpreendida quando, depois de repetir em voz alta, o que tinha murmurado antes, me convidou para tomar café. Felizmente, recompus-me, entre um respirar fundo e um breve momento, e a minha voz – Sim, claro! Amanhã? – soou casual e firme, como se recebesse convites a toda a hora. Ele sorriu, dobrou o jornal, e durante o resto da viagem falámos de banalidades que já não me pareceram tão banais.

 

Há pouco, sentada à janela onde costumamos tomar as nossas refeições - eu e o Pompeu - organizei mentalmente a minha manhã, encaixando as tarefas que costumo distribuir por todo o fim-de-semana, tentando ocupar um tempo que agora é só meu – meu e do Pompeu – um tempo de calmaria a que ainda não me habituei, que tenho que me repetir constantemente que tenho direito, que mereço, que a vida não é só trabalhar e dormir – e limpar, e arrumar, e lavar, e pensar o que fazer para o jantar e voltar a limpar – um tempo de silêncio, sem gritos nem ameaças, um silêncio abençoado que não me atrevo a quebrar, que me permite ir habituando à ideia - aos poucos, devagar, muito devagarinho – que sou gente, que tenho valor, que mereço – e repito-me vezes sem conta e continuarei a repetir-me até me convencer – que mereço a vida que está para além destas nuvens que escondem o azul do céu e que impedem que o sol brilhe em todo o seu esplendor.

 

Ainda é cedo, não há pressa - a pressa deveria ser banida em dias de descanso - mas, antes de mais, vou escolher o que vestir mais logo, depois de almoço, quando for ter com ele, lá abaixo, aquela esplanada simpática de que eu gosto tanto. Se calhar até ponho os brincos que eram da minha mãe e que usava às escondidas porque… não, não vou pensar nisso agora, não quero pensar nisso outra vez. Hoje o dia é meu e vou gastá-lo como bem entender. Em promessas de sol.

in (...)
o outro lado

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publicado às 09:55


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