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A (des)propósito

por Maria Alfacinha, em 06.03.16

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Não sou preconceituosa. Não em termos de cor de pele, ou sexo ou credo. Ninguém é mau carácter apenas por que é branco, ou preto, ou amarelo, assim como ninguém é boa pessoa apenas porque é católico, ou muçulmano ou budista. O meio, a raça, a educação influencia - sem dúvida alguma! - aquilo em que nos tornamos, mas o facto de fazermos parte de um grupo onde nascemos não nos torna, automaticamente, clones dos nossos companheiros. Além de que nunca pertencemos a um único grupo. Nasci branca, em Lisboa, capital de Portugal - um país da Europa - e sou do sexo feminino. No momento em que cheguei ao mundo tornei-me membro, por direito, de vários grupos: o dos brancos, o dos lisboetas, o dos portugueses, o dos europeus e o das mulheres. Só porque nasci. Sem ninguém me ter perguntado o que eu queria, sem ter qualquer voto na matéria. Na mesma altura, porque há coisas que os pais decidem por nós até aprendermos a fazê-lo, entrei para o grupo dos descrentes: não fui baptizada, não me deram um Deus para acreditar. Assim que respirei pela primeira vez, tornei-me parte de algo. Sem apelo, nem agravo. Com todas as vantagens e desvantagens. E durante os anos que se seguiram, sem qualquer hipótese de mudar.


Com o passar do tempo, a educação que recebi e a minha própria capacidade para pensar, graças aos genes que me foram oferecidos e à experiência que adquiri, passei a integrar outros grupos e a fazer parte deles independentemente da cor da pele, ou etnia, ou sexo, ou credo. A outros foi-me vedada a entrada exactamente pelas mesmas razões. A mais gritante, porque nasci branca num continente onde é vulgar ser branco, e porque a religião não tem no meio onde me movimento, o peso que tem noutras culturas, foi por ser mulher. Como se fosse um defeito, uma incapacidade, uma deficiência física. E estranhamente, não o ouvi apenas da boca de homens. Ouvi-o muitas e muitas vezes de mulheres que até estranhavam o meu questionar da legitimidade e justiça dos papéis que nos eram impostos só porque tínhamos nascido com o sexo “errado”. Não passei pela fase em que queria ser homem, como muitas mulheres que conheço passaram. Mas isso é algo que também tenho a agradecer à educação que recebi. Lá em casa não havia distinções sexuais nos direitos e deveres. Meninos e meninas foram educados da mesma maneira, tinham que ser bons alunos, tinham que arrumar o quarto e brincavam igualmente fosse com bolas ou com bonecas. As escolas que frequentámos eram mistas, mesmo que, na altura, as turmas fossem diferenciadas conforme o sexo. Só tomei consciência do que era ser menina-mulher quando ao entrar no ensino secundário, tive que ingressar num liceu feminino porque, na zona onde morava, não havia liceus mistos. E o ano em que o frequentei foi o único ano da minha vida em que fui infeliz por ser mulher.

Não me acusem de ser preconceituosa.
Por tudo o que relatei, tenho obrigação de não o ser.
Mas não me digam que tenho que calar o que penso apenas porque há gente que não pensa como eu. Não me obriguem a ter de explicar que, quando generalizo o comportamento de alguém como pertencendo a uma determinado grupo, seja raça, sexo ou credo, não estou, obviamente a falar de todos os membros desse grupo. Todas as generalizações são injustas, todas as regras têm excepção.

Não me façam esmiuçar todas as pequeninas nuances, puxar dos galões do bom senso e ter que reafirmar constantemente que apenas falo do que conheço, do que investiguei, do que aprendi. Contradigam-me, contestem a minha opinião, apresentem argumentos, pintem a manta, organizem uma manifestação, revoltem-se se acharem que as minhas palavras são injustas. Mas não esperem o meu silêncio. Entre outras coisas, sou branca, mulher e não me deram um Deus para acreditar. Acima de tudo sou gente. Alguém que se esforça por respeitar a diferença, com maior ou menor jeito, mas com esforço.
E não peço desculpa por ter nascido assim.

publicado às 14:18


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