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Todos os dias são Dia da Mulher

por Maria Alfacinha, em 08.03.15

violencia_mulher.jpg

Este ano junto-me ao coro daqueles que não vêem qualquer razão para assinalar o Dia da Mulher porque, e é este o argumento mais utilizado, não passa de uma manobra para nos obrigar a consumir mais. Confesso que nunca entendi muito bem este argumento, já que cabe a cada um de nós consumir ou não – e com isso alimentar o tal do consumismo – mas, pelos vistos, é difícil resistir a montras festivas e publicidade mais ou menos enganadora ou ainda, ao movimento maria-vai-com-as-outras em que só se faz, seja o que for, porque os outros também fazem. Durante todo o ano – e todos os anos! – repetem o mesmo refrão seja qual for a efeméride. Há anos que os oiço, primeiro com espanto, depois com alguma condescendência e, por fim, com indiferença. Hoje – é domingo, não tenho horários a cumprir, nem tarefas inadiáveis… - dispus-me a apreciar os argumentos que apresentam e, tenho que lhes dar razão. Em pleno seculo XXI celebrar ou simplesmente assinalar o Dia da Mulher já não se justifica.


Convenhamos, se a ideia por detrás deste dia é chamar a atenção para a desigualdade, a discriminação ou a violência sobre as mulheres, já não há qualquer razão para o fazer. As mulheres têm exactamente os mesmos direitos e deveres que os homens, não podendo ser discriminadas no acesso à educação, saúde ou emprego e a violência, chamada de doméstica, é um crime público. Por lei, já podem fazer tudo o que lhes der na real gana, sem precisarem de pedir autorização ao homem da família, seja ele pai, marido ou até irmão. Para quê um dia inteiro a falar em coisas do passado? Não é bem assim? Pois, parece que há meninas que são raptadas por terem cometido o crime de frequentarem uma escola quando o destino delas é procriarem e cumprir as tarefas domésticas. E também há aquelas que são mutiladas, casadas antes da puberdade que têm que viver  sob as ordens de alguém mais forte, seja marido, religião ou conselho de anciãos sendo selvaticamente julgadas, torturadas e assassinadas pelas razões mais absurdas. Mas isso é naqueles países distantes onde a civilização ainda não chegou, nem nunca chegará. Uma outra realidade, que não tem nada a ver connosco. Bom… há uns meses soubemos daquela mulher que não podia sair à rua sem autorização do marido. Onde é que foi? O caso foi denunciado mas as autoridades não puderam fazer nada porque era uma questão religiosa. Acho que acabou por morrer… Foi em França? Já não me lembro. Coisas de fanáticos, um caso raro numa sociedade como a nossa. Também é verdade que, não há muito tempo, soubemos de meninas que eram sujeitas a mutilação genital, numa comunidade emigrante em Portugal. Sim, viviam aqui perto de nós mas, mais uma vez, não têm nada a ver connosco. Aliás, o que é que podíamos fazer? Não devemos respeitar as tradições de um povo, os valores familiares, tribais, a sua identidade cultural? Fanáticos e selvagens,  é verdade, mas como somos civilizados só temos que respeitar.


Toda a gente sabe que, entre nós, no mundo civilizado, nada disso acontece. As mulheres até são a maioria no que diz respeito à população universitária e estão em todo o lado concorrendo em pé de igualdade com os homens. Os salários são mais baixos e são as primeiras a ser despedidas? Ora… ganhamos todos tão mal! E as grandes empresas, já se sabe, é assim que poupam. Como é que podiam suportar salários iguais para empregados que podem estar sempre a faltar para ter filhos e coisas assim? Há mulheres que apanham dos maridos? Podem sempre apresentar queixa ou fugir. Se as autoridades não têm competência para evitar novas agressões ou a morte, o problema não é meu. Quantas vezes não são elas que escolhem a “boca do lobo”? Aconteceu com uma vizinha minha. Dois dias depois de voltar para casa, morreu. Aqui bem pertinho de mim… Uma mulher que toda a vida tratou da família, sempre sorridente, mesmo quando não conseguia esconder as nódoas negras. Até virávamos a cara quando ela passava para não termos que comentar. Teve azar, coitada, teve azar.


Mas enfim… sou contra as comemorações do Dia da Mulher, porque todos os dias são dias da mulher e aqui em casa as mulheres não são discriminadas. O que acontece ali na rua, ou no outro lado do mundo, já não é nada comigo.
Não gosto de me meter na vida dos outros.

publicado às 11:54


3 comentários

De aflores a 09.03.2015 às 17:57

Eu não sou contra as comemorações, mas sim a tudo continuar na mesma.
Mas enfim, como diz o velho ditado: «pimenta no rabo dos outros, no nosso é refresco»

Tudo de bom.

De Maria Alfacinha a 10.03.2015 às 07:17

Estou a ironizar, obviamente. Não consigo entender como ha quem diga que não se justifica a data, quando ainda se discrimina e maltrata mulheres apenas por serem... mulheres :-(

De Ana Cristina a 02.10.2015 às 16:44

Não comemoro o Dia da Mulher, nem qualquer outro Dia, por saber que se trata apenas de "atirar areia para os olhos do cidadão" .
A existência de um Dia da Mulher ou da Criança significa que ainda é preciso fazer muito para que eles se sintam seguros e respeitados. No dia em que o forem estes dias passarão a ser de verdade.
É precisamente por ser data hipócrita que não comemoro mas entendo e concordo com o que diz. E, bem sei, ser preciso lutar muito mais por esses direitos que só existem no papel, mesmo em "países civilizados".

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