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Velha, janela velha

por Maria Alfacinha, em 17.06.15

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Sempre gostara de janelas. Era qualquer coisa que lhe ficara de catraia, quando era dona da única janela da casa. Ainda pequenina, empoleirava-se no colchão de palha e espreitava os campos, chamando as galinhas que andavam soltas. Já menina, era da janela que via se o dia estava a chegar e, debruçada no parapeito, abria o livro de leitura que a professora lhe dera, para que não esquecesse o que aprendera na escola que abandonara antes de tempo. E era a janela que lhe dizia se a ceia já estava pronta quando, ao fim do dia, a mãe acendia o único candeeiro que alumiava o serão. Crescera, casara e vivera em meia dúzia casas até o trabalho do marido lhe permitir assentar. Em todas elas escolhera uma janela, onde se sentava ao fim do dia, de olhar perdido nos campos, até as estrelas a lembrarem que devia descansar.


A vida passara por ela como um suspiro, os dias enredados nas lidas da casa e do campo, nas inquietações com os filhos, nas dificuldades da doença que lhe tinha levado o marido demasiado cedo. Agora era a filha - a única que ainda não partira para o outro lado do mundo - que opinava, que se queixava da preocupação, que a queria saber acompanhada, não tinha como a receber, a mãe tem que se mudar, vai ter um quarto só para si, alguém que lhe faça a comida. Donzília não protestara quando a viera buscar para visitar o lar que tinha escolhido. Passar o dia com a filha era razão suficiente para a fazer sorrir.

 
Quando viu os quartos desculpou-se o melhor que pode: É muita despesa que vais ter, rapariga. Tu não te preocupes que eu estou bem na minha casa. Sabes que gosto do meu cantinho. Nem por descuido dissera que não gostara das janelas escuras, com vista para a parede da igreja e grades que lhe faziam lembrar o galinheiro que o seu homem, em dia de boa vontade, tinha construído no fundo do quintal. Desiludira a filha, percebera que preferia vê-la ali do que na velha casa onde crescera e, no fundo, Donzília sabia que ali teria mais conforto. A velha casa há muito que precisava de obras. Ele era os canos que rebentavam todos os Invernos, ele era o telhado que deixava passar o frio, a velha casa era como ela, sempre a precisar de mais um remendo. O dinheiro nunca abundara e enquanto o seu homem era vivo era ele que fazia as obras. Depois que morrera eram os vizinhos que, de vez em quando, reparavam o que era preciso. Mas também eles foram ficando velhos. Uns levados pela família, outros pela assistente social, outros apenas morriam, morta já a vontade de viver. Homens novos tinham abalado há muito, à procura de trabalho. Depois tinham chamado pelas mulheres e pelos filhos. Alguns já nem no Verão apareciam, e porque haviam de o fazer se já nada os prendia à terra? Não era o que se passava com a filha? A rapariga ainda vinha todos os anos, mas no dia em que morresse, Donzília tinha certeza que ela já não voltaria. Tinha a vida feita na cidade, uma casa confortável, um emprego certo e quando fazia férias preferia a praia, por causa dos miúdos dizia ela, que o médico recomendara o ar do mar e Donzília olhava para ela e pensava que bela mulher se tinha feito, saudável que nem um pêro e sem nunca ter precisado de ir à praia.
 
Acariciou-lhe o rosto onde pairava uma sombra de amuo: Não fiques assim rapariga. Não vivi sempre ali? Tenho as minhas galinhas, umas couvitas para o caldo e vou-me entretendo. A filha ainda contrariada, calava o incómodo, tentava não olhar para o relógio, não pensar que o marido esperava por ela, que estava a demorar mais do que devia: E passa ali as noites sozinha, sem alguém que lhe acuda. E se se sentir mal? Sorriu do receio: Ora rapariga, vou-me sentir mal porquê? E não estou sozinha não senhora, vou todas as tardes a casa da Ti Rosa ver a novela. Sabes lá a confusão que aquela mulher faz. Tenho que lhe explicar tudo e às vezes nem eu entendo. É um fartote de rir. Suspirava: Tenho uma vida boa, acredita. Anda lá, leva-me a casa que o teu marido deve estar à tua espera para jantar.
 
A noite caía quando Donzília chegou a casa. A sua espera o gato, o seu Menino, cumprimentou-a preguiçoso. Ela, trocou os sapatos pelos chinelos, o casaco pelo xaile, deu comida ao gato, aqueceu a sopa que deixara feita de manhã e encostou-se à mesa saboreando a memória do dia. Depois sentou-se à janela de olhar perdido nos campos até que as estrelas viessem lembrá-la que devia descansar.

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publicado às 15:36



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