Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Talvez

por Maria Alfacinha, em 16.05.12

talvez

Quando se trata de pensar na vida não sou mulher de olhar para trás, aquele recordar de saudade que soa a no meu tempo como se o tempo já não me pertencesse, ou já não houvesse lugar para mim. Gosto de olhar para trás e relembrar o que fiz, onde andei, o quanto me diverti e até o quanto chorei.

A distância temporal suaviza as dores e parece trazer consigo uma paleta de cores suaves com que a lembrança pincela delicadamente cada memória, criando por vezes enormes telas de inimaginável beleza, fruto da fantasia do momento vivido ou simplesmente empolado pela saudade, ou minúsculos e singelos quadros repletos de pormenores minuciosos, de aroma doce e sabor reconfortante, tão minúsculos que quando os olho já não sei se são reais ou sonhos que um dia sonhei.

Não costumo, não porque me forço mas porque não sou assim, repisar mágoas antigas, velhas de mortas. É de feitio, não tenho paciência para gastar energia em sentimentos negativos e dolorosos que nos envenenam a alma e a existência. Prefiro arrumá-los num canto até ter readquirido a capacidade de os olhar de frente e de os vencer pela determinação e força que tenho em mim - sei que a tenho, nem sempre a encontro, mas anda por aqui - algures entre o meu estômago que se revolta nas injustiças e a cabeça que sabe há muito que tem que ser parceira do coração.

O tempo sempre me foi precioso, não suporto o desperdício. Aliás, abomino o desperdício de tudo. Não só o desperdício de tempo mas o de sentimentos, de comida e de esforço. Dói-me o desperdício de pessoas, de vidas e de lágrimas. Aborrecem-me de morte as queixas constantes, a ladainha das dificuldades, o choradinho do coitado. O Fado da Desgraçadinha, com música de masoquista e letra do “Não venhas tarde”.

Pela inversa, lamento quem não chora, quem não sabe purgar a dor,
quem não consegue ser frágil e carente,
quem acha que já não tem idade para pedir colo e mimo.

 


Quando se trata de pensar na vida não sou mulher de olhar para trás e enumerar os arrependimentos. Nem penso nisso, excepto quando me questionam. Há coisas que teria feito de outra forma? Sem dúvida! Mas hoje sei que o que fiz, quando o fiz, tinha razão de ser ou não sabia fazer melhor, ainda não tinha aprendido, ou talvez nunca venha a aprender. Não sei. Hoje sou diferente do que era há 5, 10, 20 anos. Não no essencial, mas no pormenor. E dou comigo a sorrir da mulher que era, a rapariga que fui. Não com mágoa ou saudade apenas a sorrir porque era ingénua, inconsciente e se hoje nada sei na altura ainda sabia menos.

Talvez - e nem disso tenho quaisquer certezas - talvez me arrependa de ter confiado tantas vezes. Talvez. Talvez se não tivesse confiado tanto, a minha vida tivesse sido diferente. Talvez. Talvez tivesse sido melhor. Talvez. Mas teria sido eu? Se me tivesse recusado a fazer do Acreditar um lema, da Entrega um modo de vida, do Amor uma bandeira?

Talvez. Ou talvez não.

publicado às 17:30

Pág. 5/5



Mais sobre mim

foto do autor


calendário

Maio 2012

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D