Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

São cinco as canetas que alinhei cuidadosamente, em cima da mesa de café, deliciando-me com o contraste das cores brilhantes na madeira escura. Descobri-as no fundo da gaveta quando procurava outra coisa qualquer. Cinco canetas. Uma de cada cor. Como se o tivesse feito de propósito, como se, ao romper a embalagem em que tinham chegado ali, as tivesse escolhido sortidas, uma de cada cor. Mas não. Lembro-me que não foi isso que aconteceu. Tinha escolhido uma ao acaso, na urgência de qualquer nota com pressa, um número de telefone, uma palavra, uma ideia. Depois empurrara as restantes para dentro da gaveta onde ficariam esquecidas até às arrumações periódicas a que os remorsos da minha amada indisciplina me obrigam. Sei que as arrumei num outro local. Por isso estranhei quando encontrei estas cinco, uma de cada cor como se as tivesse escolhido assim, no fundo da gaveta onde não as arrumara. E também por isso as trouxe agora e as alinhei cuidadosamente em cima da mesa de café, deliciando-me com o brilho que cada uma das cores deixa na madeira escura.
Recosto-me no sofá em silêncio, sem conseguir desviar olhar daquele quase arco-íris que desenhei. Percebo que estou fascinada e isso confunde-me. São apenas canetas, cinco, uma de cada cor - azul, verde, roxo, laranja e amarelo – e escrevem todas a preto. Preto sólido e convicto. Preto no branco-papel como eu me vejo nas palavras, nos gestos, nos quereres. Pergunto-me que sabor teriam as palavras se as canetas falassem noutra cor. Amargas se escolhesse o laranja. Nunca gostei do laranja, é mania, eu bem sei. E o verde tem que ser alface, logo as palavras estalariam frescas e atrevidas. Contrariando o gosto que se diz bom, sempre gostei do amarelo, quente e brilhante como o Sol. Assim, desmaiado e quase invisível no papel, sabe a segredos escaldantes sussurrados ao pôr-do-sol. Já o azul pode ter todos os nomes, pode ser céu, água ou noite. Escritas a azul, as palavras são imensas, não têm fim, perdem-se de vista no horizonte, sabem a viagens impossíveis. E o roxo é a cor das palavras sentidas, das que apenas o coração conhece, das histórias de Amor, dos contos de encantar, preferida pelas fadas e pelos amantes, sabe a ambrósia e mel.
Abro o caderno em cima dos joelhos e uma a uma, experimento cada uma das canetas. São cinco, cada uma de sua cor, cuidadosamente alinhadas na mesa de café. As palavras brotam delas, firmes, cheias e seguras como o preto que vai enchendo a folha, cobrindo o branco estéril e impoluto, com letras desenhadas em ternos redondos e afoitos floreados que se revelam doces como beijos deslizando suaves e cheirosos na pele de um bebé.
Afinal pouco importa a cor de que se vestem as canetas que encontrei no fundo da gaveta. Têm a medida certa, enamoraram-se dos meus dedos e conhecem, como ninguém, os segredos do meu coração.
Importam apenas as palavras.
Têm vida, alma e calor.
Cheiram a flores e sabem à cor que lhes quiserem dar.