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Sentada no chão, encostada à cama, só dei pelo escurecer do céu quando, sem aviso prévio, comecei a ter dificuldade em ler o livro pousado nas minhas pernas. Procurei com os olhos o relógio na mesa de cabeceira, do outro lado do quarto, e sorri sozinha ao perceber que não tinha dado pelo passar das horas. Mais uma vez, a limpeza das estantes teria que ficar para outro dia, sabe-se lá quando acabarei a tarefa se cada vez que a inicio encontro um livro que me traz saudades - ou que não reconheço - ou que tem algures uma personagem, uma cena, uma simples frase de que não me esqueci - ou de que já não me lembro - que quero reler, corrigir, confirmar, e tenho que parar tudo o que faço naquele momento e procurar a recordação - ou a deslembrança - folha a folha, linha a linha, acabando por ignorar o que me levou ali. Quando as cortinas, que toda a tarde tinham dançado ao ritmo de uma brisa pouco mais que suave, se levantaram de rompante e fugiram pela janela, enrodilhando-se no limoeiro que vive mesmo em frente, acabei por me levantar deixando no chão o livro que me roubara tantas horas, preocupada que o vento, que se levantava violento, rasgasse o fino tecido.
O céu, carregado de cinzento, tapado por nuvens espessas que escondiam a luz - quedas apesar do vento que fazia rodopiar as folhas das arvores que se soltavam à sua passagem - contrastava com o colorido dos sacos e chapéus de sol das gentes fugidas da praia e que enchiam a rua, chamando os mais pequenos, enrolados nas toalhas que ainda há pouco demarcavam o seu espaço no areal, uns rindo da figura que faziam, outros reclamando a sua pouca sorte, parecendo fazer coro com as gaivotas que, excitadas com a mudança do tempo, voavam em círculos enchendo o ar com o seu grasnar. Se a praia carregada de gente não me atrai, já o areal vazio sob a ameaça de uma tempestade é um destino de sonho que raramente consigo evitar. Recolhidas as cortinas e fechada a janela, esquecidos os livros e os louváveis propósitos de limpeza – que, em abono da verdade, tenho grande dificuldade em cumprir – procurei no fundo do bengaleiro o velho corta-vento que me costuma acompanhar sempre que a Mãe Natureza se parece zangar com a Humanidade e saí para a rua, enfrentando, em passo rápido e decidido, o vento que soprava na mesma direcção dos banhistas, como se os empurrasse para um porto seguro.
Detive-me no alto do paredão que anuncia o espaço onde reinam os deuses da ordem e do caos para, com um sorriso maior que o medo, me deixar encantar – como se não vivesse já em estado de graça só por os meus dias serem estrofes da canção do mar – pela paisagem fantástica que se revelava no horizonte, uma sinfonia de cinzentos que acompanhava a dança das ondas que se desfaziam em brancos, como se pequenas e alvas nuvens tivessem mergulhado no mar e, rindo como crianças, deslizassem sobre a agua, em brincadeiras de corridas até à areia onde se espraiavam, sem fôlego, a descansar. Ao longe, indiferentes aos jogos das nuvens que se mascaravam de espuma, mar e céu defendiam as suas crenças, agitando as águas em argumentos de revolta e declamando ideais no ribombar dos trovões. De quando em vez, um relâmpago iluminava os céus, tocando o mar, como se apertassem as mãos, ou fizessem um brinde, selando uma amizade que vem do fundo dos tempos para logo depois recomeçarem a conversa, uma história contada a dois, um erguendo vagas de agua e sal, o outro gritando razões e verdades que só ele conhecia, um espectáculo de som e luz e cheiro a conchas e maresia, encenado só para mim, assim queria acreditar.
Fascinada com tudo isto, não dei pela tua chegada.
Abraçaste-me: Sabia que estarias aqui.
Encaixei-me nos teus braços: Sabes sempre onde me encontrar.
E ficámos em silêncio, abraçados, à espera que o sol viesse resolver a contenda e que as nuvens deixassem o mar em paz.