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Frederico

por Maria Alfacinha, em 13.07.15

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Sinto um carinho especial por bichos. Bichos, crianças e velhinhos(as), não necessariamente por esta ordem, têm um lugar especial no meu coração e na minha paciência. Não vou dizer, como se costuma ouvir, que gosto mais de bichos do que de homens, mas garanto que gosto mais de bichos do que de muitas pessoas que conheço. Tenho com os animais uma relação amigável de respeito e por vezes ternura. Tento não lhes perturbar o seu destino ou invadir o território e espero que eles não invadam o meu. Normalmente conseguimos conviver sem grande atrito. Além dos espécimens caninos, e graças ao quintal que prolonga o pequeno espaço onde vivo, podem-se encontrar, com alguma facilidade, uma ou outra lagartixa, formigas e caracóis q.b., e lesmas nos canteiros o que, dizem os entendidos, é sinal que a terra é boa. Há uns anos, até tive a honra de albergar, num cantinho do telheiro, nos ramos de um arbusto que um dia quis ser árvore, o ninho que D. Melra e seu esposo construíram para criar a sua prole, evolução que consegui guardar para a posteridade enquanto os pais se afadigavam a procurar alimento. E para finalizar não posso deixar de mencionar a família de osgas – brancas e gordalhufas, senhoras de uns deditos perfeitos – que decidiu ser o meu quintal o local ideal para se instalar.

 

Ora no último Inverno, não sei se graças à fama que os meus pacatos domínios ganharam entre os bichos, houve um pequeno ratito, daqueles que não ultrapassam o tamanho do polegar, que não tendo consultado as regras que eu escrevera, resolveu instalar-se na minha cozinha. Graças ao rasto que estes pequenos animais não conseguem evitar deixar por todo o lado, rapidamente o descobri e vai de despejar os móveis da cozinha para cima da mesa do quintal para poder mais facilmente dar com o dito intruso. Dizia-me a D. Florinda com aquele ar de sabedoria que só 76 anos de muitas dificuldades pode dar: “Isso não adianta andar atrás dele. É meter uma ratoeira, com um pedaço de pão com manteiga ou um 'cadito de chouriço e despacha-o em 3 tempos”. Eu bem que olhava para as ratoeiras mas não conseguia pegar nelas. Já só tinha imagens do pequenino em agonia, tentando libertar-se. E aquele estampido da ratoeira ao fechar causava-me arrepios. Não tenho estômago para tanto. Estudei os venenos à minha disposição por forma a encontrar um de cheiro agradável e que permitisse uma morte rápida. Enquanto o espalhava dentro dos armários vazios, pois tendo eu cães não me atrevia a colocá-lo em mais lado nenhum, ia falando em voz alta com o bichinho, na esperança que ele fugisse sem provar o petisco enganador: “Oh rapaz! Podes viver lá fora que eu não me importo. Se saires de boa vontade até sou capaz de todos os dias te levar o jantar, mas esta é a minha casa e eu estou farta de limpezas a toda a hora já para não falar que tenho que andar sempre a lavar a loiça até para beber um simples copo de água...” Nada! Foi como se estivesse a falar para... um rato.

 

O tempo foi passando e o ritual mantinha-se. Todos os dias lá limpava eu os restos do veneno, lavava tudo muito bem e voltava a espalhar nova dose pelos armários. Confesso que no dia em que o vi parado, a pouco mais de 10 centímetros dos meus pés, coçando o focinho com as patitas antes de fugir para o quintal, o animal, pela sua audácia, ganhou a minha admiração que logo esmoreceu quando, antes que eu conseguisse fechar a porta, ele voltou a entrar. Comecei a acreditar que não ia ser fácil livrar-me de tal visita e quando me perguntavam como ia a caçada eu respondia calmamente: “ Quem? O Frederico?” e continuava sem deixar que o olhar espantado de quem me ouvia me interrompesse o disparate “Sim, o Frederico. Estamos quase decididos a adoptá-lo e se vive lá em casa é melhor dar-lhe um nome para saberem de quem estou a falar. Temos é alguma dificuldade em arranjar uma coleira, tão pequenino que ele é, e o veterinário não tem a certeza que vacinas é que um rato precisa.”  Tenho a certeza que nessa altura houve gente que pensou que eu tinha endoidado de vez. E eu, cheia de paciência, continuava a experimentar venenos para não ter que comprar uma ratoeira. Até que um dia – que a história já vai longa – cheguei a casa e encontrei o Frederico agarrado a uma caixa de fósforos de olhos fechados e quase que posso jurar, com um sorriso nos lábios. Com toda a dignidade que a morte de um rato me merecia, varri-o e à caixa de fósforos, para dentro do contentor do lixo e pude finalmente lavar, desinfectar e arrumar a cozinha que, entretanto, se tinha mudado para o quintal.

Mas ainda hoje tenho uma cesta cheia de panos da loiça para passar a ferro.
Cada vez que olho para ela lembro-me do Frederico.
Que descanse em paz.

publicado às 15:05


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