urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendreO Meu AlpendreMaria AlfacinhaLiveJournal / SAPO BlogsMaria Alfacinha2019-12-06T18:01:28Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2276842019-02-12T14:00:00Em mim2016-02-28T22:40:27Z2019-02-12T09:27:57Z<p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="201109-1 (2).JPG" src="https://fotos.web.sapo.io/i/B1a130743/19309592_LldiK.jpeg" alt="201109-1 (2).JPG" width="500" height="284" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há em mim uma urgência em desbravar-te, uma sede de ti que não consigo saciar, um tudo querer que preferia ignorar, uma evidência desconhecida que se agiganta a cada dia. Por vezes mal entendo o que me dizes, perdida na visão das tuas palavras que ganham formas doces e me abraçam num regaço delicado, para logo se agitarem em emoções exageradas pela mágoa, forrada de lágrimas, que te despe por inteiro, revelando histórias marcadas pela vida, aqui uma ferida que não fechou, ali uma cicatriz quase esquecida, palavras de punho cerrado, armas-carinho doridas, esquivas, intensas, sentidas, tuas - <em>mas não apenas tuas</em> - palavras de uma outra língua que simplesmente se perpetua na historia de ti.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Há em mim uma urgência estranha em desbravar-te, em derrubar muralhas de receios e acreditar num mundo que apenas sonhei, que me encantou e ao mesmo tempo me intimida quando sacudiu a resignação com que vesti os dias ao aceitar que a vida não tinha mais nada para me oferecer. Mas os olhos são outros – <em>e as dores não se medem</em> – e só me resta fazer por ignorar temores e frases feitas, desmentindo normas e teorias gastas de estafadas, desfraldando a bandeira que me sustenta e teimosamente carrego comigo, apregoando que é preciso aceitar – <em>se não mesmo, entender!</em> – o que nos diz o coração.<br /><br /></p>
<p style="text-align: justify;">Aprendo-te a cada conversa, a cada gesto, a cada silêncio tranquilo que se instala em nós e deixo-me surpreender pela certeza que em ti – <em>em mim</em> – não há fronteira entre o saber e o sentir. Mas entre urgências e mundos desconhecidos, fica-me a dúvida se te apercebes da forma como me tocas, como abalas o mundo que já não é só meu, como me afastas e agarras e prendes, até nos raros momentos em que não me pegas na mão.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2365282018-10-02T18:04:00O pior cão do mundo2018-10-02T17:08:58Z2019-12-06T18:01:28Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px; width: 381px; height: 323px;" title="30516173_1651883431593139_1147433116223143936_n.jp" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5a17b867/21190007_SK85G.jpeg" alt="30516173_1651883431593139_1147433116223143936_n.jp" width="500" height="421" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não me chegam os dedos das mãos (e dos pés) para contar quantos cães já enriqueceram a minha vida. Todos diferentes e todos iguais no amor incondicional que me ofereceram. Cada um com o seu feitio, em pouco tempo acabavam por se adoptar uns aos outros e aprender rotinas e regras sem grande dificuldade. Todos menos um: Dom Simão.</p>
<p style="text-align: justify;">Dom Simão era o cão mais asneirento que possam imaginar. Roubava comida, vasculhava o lixo, destruía almofadas e mantas, fuçava-me a mala até descobrir o pacote de açúcar que ali estava esquecido e engolia-o com papel e tudo. Quantas e quantas vezes lhe tirei as coisas mais incríveis da boca, e nem sei como é que nunca se feriu com os disparates que fazia. Dom Simão só se portava bem quando dormia e felizmente dormia muito.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabeçudo como mais nenhum que alguma vez tenha conhecido, quando Dom Simão metia alguma coisa na cabeça não havia nada a fazer. Teimoso que nem uma mula, mesmo quando não conseguia exactamente o que queria, acabava por vencer toda a gente pelo cansaço. Nem um santo aguentava horas de olhares e gemidos dilacerantes para ganhar uma casquinha de maçã…</p>
<p style="text-align: justify;">Desajeitado até a andar, parecia ter pernas a mais e não saber o que lhes fazer. Quando se dignava a sair da cama, trotava quintal acima, quintal abaixo, nunca em linha recta, de cauda bem levantada e a abanar ao ritmo dos passos. Se por acaso encontrasse qualquer obstáculo no caminho ou se desviava – <em>se fosse a tempo</em> – ou simplesmente passava por cima. Fosse qual fosse a opção escolhida, nem sempre acabava bem, principalmente quando o obstáculo era… o Sô Pepo.</p>
<p style="text-align: justify;">Dom Simão sempre foi muito gabado… nas fotografias. Ao vivo não tinha muita piada, se é que tinha alguma. Ignorava toda a gente e quase todos os outros patudos. Só duas coisas lhe prendiam a atenção: comida e lixo. Ah e caixas, ou sofás, ou almofadas, ou camas ou qualquer canto fofo onde se pudesse aconchegar. Dom Simão não brincava, não fazia gracinhas, não respondia quando o chamavam, aproximava-se de quem lhe queria fazer festas apenas o tempo suficiente para lhes cheirar as mãos e verificar se tinham alguma coisa que se comesse.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez por isso o tenham abandonado por duas vezes. Ou talvez fosse pela saúde que nunca teve. Dom Simão nunca se queixava. Suportava o mal-estar e as dores sem um gemido. Enroscava-se na cama e esperava que passasse. Frágil como um passarinho, não têm conta as vezes que pensámos que não ia sobreviver e ele surpreendia-nos sempre. Em horas mais difíceis pedia-lhe que nos desse um sinal, ou que se deixasse ir mas Dom Simão, o cabeçudo, recusava-se a desistir e a nós restava-nos apenas fazer tudo o que pudéssemos para honrar tal força de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Teimoso, badalhoco, desobediente, fedorento, asneirento, desajeitado, Dom Simão era o cão mais manso que alguma vez conheci, que sorria quando lhe aconchegávamos a manta ou que acordava sobressaltado só para ver onde estávamos e que fazia os maiores disparates com o ar mais inocente sem mostrar qualquer arrependimento, obrigando-nos (quase) sempre a sorrir. Dom Simão, o doce, ao lado de quem me sentei toda a tarde, que ouviu tudo o que lhe disse, que carreguei ao colo e que deixei partir nos meus braços, ficando em mim um vazio imenso difícil de explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, era apenas um cão. <br />Dom Simão Patareco, o pior cão do mundo.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px; width: 326px; height: 481px;" title="30714058_1659590334155782_4765235785068707840_n.jp" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfc17e7a5/21190013_SZvTl.jpeg" alt="30714058_1659590334155782_4765235785068707840_n.jp" width="332" height="500" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2361912018-08-10T15:10:00Verão Inominável2018-08-10T13:48:14Z2018-08-10T13:55:26Z<p class="sapomedia images"><a href="http://joom.ag/4jOY" target="_blank" rel="noopener"><img style="padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="#15 capa.png" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7e13decf/21127488_gLoTm.png" alt="#15 capa.png" width="353" height="500" /></a></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">Inominável, claro! <img style="vertical-align: middle;" src="https://blogs.sapo.pt/tinymce4/plugins/sapoemoticons/img/EMOTICON_BLINK.png" alt="" width="24" height="24" /></p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2359962018-06-01T14:45:00E porque é Dia da Criança2018-06-01T13:11:32Z2018-06-01T13:22:42Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">"...acreditem sem desconfiança, riam e chorem sem pudor e amem apenas porque sim."<br />Ah, e espreitem a Inominável... se tiverem tempo :-)</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://joom.ag/W9TY" target="_blank" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px;" title="#14 capa.png" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B441210a9/21045895_fVJbT.png" alt="#14 capa.png" width="354" height="500" /></a></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2356302018-04-06T15:25:00132018-04-19T10:12:50Z2018-04-19T10:12:50Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://view.joomag.com/mag/0694250001520266832" target="_blank" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px;" title="#13.png" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bae13a66a/20982558_jhLhB.png" alt="#13.png" width="352" height="500" /></a></p>
<p style="text-align: center;">E eis a 13º edição da Inominável<br /><span style="font-size: 10pt;">- que por acaso até é a 14º, mas isso agora não interessa nada -</span> <br />carregadinha de boa sorte, como não podia deixar de ser.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2352882018-02-09T14:11:00Falemos do tempo...2018-02-09T14:16:16Z2018-02-09T14:16:16Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="capa.png" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6712ff99/20875465_zVnrk.png" alt="capa.png" width="354" height="500" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">(ou não o percam e vão espreitar a Inominável #12)</p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2352262017-12-20T15:51:0020 de Dezembro2017-12-20T15:58:25Z2017-12-20T15:58:25Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="037CE.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B2f05bc9c/20797997_M47EE.jpeg" alt="037CE.jpg" width="500" height="373" /></p>
<p style="text-align: center;">Foi o mais bonito que encontrei, Pai <img style="vertical-align: middle;" src="https://blogs.sapo.pt/tinymce4/plugins/sapoemoticons/img/EMOTICON_HEART.png" alt="" width="24" height="24" /></p>
<p> </p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2349032017-10-06T16:08:00Dois anos inomináveis!2017-10-06T15:06:06Z2017-10-06T15:14:46Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="http://revistainominavel.blogs.sapo.pt/inominavel-no-10-94049" rel="noopener"><img class="" style="padding: 10px 10px;" title="Inominavel #10.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3607bff9/20674459_p9sde.png" alt="Inominavel #10.png" width="354" height="500" /></a></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">e trazemos prendas... :-)</p>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2346712017-08-04T13:50:00Querido mês de Agosto (*)2017-08-04T12:19:38Z2017-08-04T12:19:38Z<p style="text-align: center;">Ah, pensavam que, por ser Agosto, estávamos todos de papo para o ar?<br />Pois enganaram-se!</p>
<p style="text-align: center;">Aqui está a Inominável #9</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="Inominável #9.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6f0261cf/20573485_faif7.png" alt="Inominável #9.png" width="355" height="500" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: right;"><span style="font-size: 10pt;">(*) e ainda vou ter de pagar direitos de autor...</span></p>
<p><a href="https://joom.ag/mOFW" target="_blank" rel="noopener"> </a></p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2344012017-06-10T07:32:00Madonnina2017-06-10T06:32:26Z2017-06-27T10:19:58Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="tumblr_nt2vdoA1eg1s8wl38o1_500.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B190272a1/20477251_Kl34N.jpeg" alt="tumblr_nt2vdoA1eg1s8wl38o1_500.jpg" width="500" height="500" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Hoje lembrei-me de ti assim que acordei.<br />Não por ser o dia do teu aniversário - <em>claro que foi por causa disso...</em> - mas porque tentei imaginar a tua vida, aquela que não conheço, a que não confessaste a ninguém, a que escondeste dentro de ti por mágoa ou vergonha, a que guardaste em segredo porque talvez achasses que era só tua, talvez porque tentaste fazer tudo correctamente e percebeste que a vida não é perfeita, talvez por não quereres admitir que erraste, ou quem sabe para te castigares por isso. Se calhar para guardares um resto de fantasia, longe da monotonia dos gestos sempre iguais, das tarefas a cumprir, dos papeis que tiveste de desempenhar. Um local secreto onde guardaste os teus sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Sonhos, sim, sonhos! Sei que sonhaste um dia - <em>não sei quando, mais um daqueles assuntos de que nunca falámos</em> - mas tenho a certeza que sonhaste. Com uma vida risonha, um amor perfeito, filhos lindos como mais nenhuns, uma carreira... Ponho as mãos no lume e não me queimo quando digo que sonhaste. Vejo nos teus olhos quando encontro fotos em que estás a sorrir. As mais recentes, que foi preciso chegares à Idade Maior para te deixares fotografar. Não... também sorris nas poucas fotos da tua adolescência. E na do dia do teu casamento. Sim, deve ter sido um dia muito feliz para ti. Ou naquela outra dos teus primeiros anos de casada, já mãe, a acampar, elegante como uma estrela de cinema, de camisa e calção branco, a posar junto da tenda. Sorrias e suspeito que nos lábios corava um pouco de baton. Sonhaste, sim. Claro que sonhaste.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Foi por isso que me lembrei de ti assim que acordei. Como é que sobreviveste aos sonhos que não cumpriste? Como é que conseguiste suportar a desilusão? Como é que apagaste as dores que te amachucaram a alma, que te roubavam o sorriso, tornando-o por vezes ainda maior? Como é que se passam anos e anos e anos de gestos sempre iguais e tarefas a cumprir e papéis a desempenhar e se tem vontade de viver? Onde guardaste os planos que fizeste, os objectivos que não alcançaste, os enganos, as mentiras, a confiança que já não sentias? Porque é que ficaste? A que é que te agarraste para não desistir?</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Já sei, continuo difícil. Há coisas que não mudam nem com a idade.E também sei que as mães não têm todas as respostas - <em>não precisas repetir</em> - e que a vida não traz um manual de instruções e outras pérolas que recitavas na tentativa de me calar. Perdi a conta às vezes que te ouvi lamentar que ser mãe não é fácil, mas também não consigo contabilizar todas as vezes em que te fiz rir. E conta por conta não sei se alguma de nós ficou a perder, porém a Matemática também nunca foi o meu forte...</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que hoje farias 91 anos.<br />Para mim fazes hoje 91 anos, que enquanto eu for viva vais sempre cumprir mais um ano.<br />Feliz aniversário, mãe. <br />Já te disse que me lembrei de ti assim que acordei?<br />Pois lembrei... </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2338662017-06-02T12:00:00Strangely enough, it all turns out well...2017-06-02T08:30:04Z2017-06-02T11:08:16Z<p style="text-align: justify;">Há dias em que pensamos que não vai ser possível, outros em que nos mantemos confiantes, dias em que desesperamos e outros em que nem nos preocupamos. Mas há uma frase - <em>descubram lá onde é que a aprendi</em> - que se aplica a quase tudo na minha vida:</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><em>"Strangely enough, it all turns out well. How? I don't know. It's a mystery."</em></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;">Vá... vão lá espreitar a Inominável de Junho :-)</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://joom.ag/Vg2W" target="_blank" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px;" title="capa.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfe02e5b2/20463799_FpBuv.png" alt="capa.png" width="354" height="500" /></a></p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2335102017-05-13T21:02:00#salvadorable2017-05-13T21:24:10Z2017-05-15T19:39:58Z<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.rtp.pt/noticias/share/iframe/video/1001509#shareembed" width="770" height="510" frameborder="0" style="padding: 10px; width: 578px; height: 382px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;">Não consigo evitar. É instintivo, uma daquelas coisas que todos nós fazemos sem nos apercebermos, como quando algo nos traz memórias boas e nos transporta para onde podemos apenas ser felizes, alheios ao que nos magoa, e onde voltamos a acreditar. Aos primeiros acordes mergulho num outro mundo e deixo-me abraçar pela melodia que me aconchega, enquanto as palavras me acariciam o sentir. E sorrio. Sorrio muito.</p>
<p style="text-align: justify;"><br />É doce como o algodão da minha infância, simples como os sonhos de quem ama, capaz de derreter os corações mais descrentes, a banda sonora de um tempo que não tem tempo, mas o que eu gosto mesmo - <em>assim um gostar que me faz esquecer de respirar</em> – é aquele silêncio a que se recolhe quem se permite senti-la, o olhar brilhante, comovido e o sorriso que perdura mesmo quando a canção acabou.</p>
<p style="text-align: justify;"><br />Pouco me importa a <a href="http://omeualpendre.blogs.sapo.pt/amar-pelos-dois-231582" target="_blank" rel="noopener">Eurovisão</a> dos brilhos e efeitos especiais, das passadeiras vermelhas que prometem glória e fama qual fogos fatuos pretensiosos. A Eurovisão que tem fama de ser palco de compadrios e alianças políticas, a mesma Eurovisão que se incomodou com o alerta para a situação dos refugiados que o Salvador teve a coragem de (literalmente) vestir.</p>
<p style="text-align: justify;"><br />Venham de lá os críticos que arrasaram a interpretação, a escolha da roupa e o penteado, os especialistas no evento que criticaram a pobreza da melodia, a lamechice, a ausência de coros, coreografias e espectacularidade. Venham de lá e expliquem as muitas versões que se vão multiplicando pelo mundo fora ou o olhar emocionado de quem não se cansa de a trautear. Venham de lá e tentem ouvir com o coração o que os vossos ouvidos não vos conseguiram mostrar. Cuidado, porém: é justo que vos avise que podem ficar viciados...</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2334492017-05-01T09:48:00Maio, 12017-05-01T08:56:36Z2017-05-01T08:56:36Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="maio.JPG" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd8056f7d/20401154_fZ8hF.jpeg" alt="maio.JPG" width="500" height="234" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">Dia do trabalhador? Mas não são todos os dias, dias do trabalhador? Então os outros dias são de quem não trabalha? Para que é que é preciso um dia do trabalhador? Não têm já leis que os protegem? Não é o que diz a Constituição? Eu acho que é uma forma de discriminação...<br />=======<br />Substituam TRABALHADOR por MULHER.<br />É só o que eu tenho a dizer.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2331692017-04-25T18:22:00Somos todos capitães2017-04-25T18:14:53Z2017-04-25T18:17:16Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="maia1.JPG" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3e054277/20390732_EaQL3.jpeg" alt="maia1.JPG" width="500" height="412" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://www.wook.pt/ebook/otelo-o-revolucionario-paulo-moura/13172759" target="_blank" rel="noopener"><img class="" style="padding: 10px; border: 2px solid #000000; width: 542px; height: 112px;" title="livro.bmp" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G1c12a940/20390722_gmcuP.jpeg" alt="livro.bmp" width="570" height="101" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><span style="color: #008080;"> <em><strong><span style="font-size: 8pt;">excerto de "<a href="https://www.wook.pt/ebook/otelo-o-revolucionario-paulo-moura/13172759" target="_blank" rel="noopener">Otelo O Revolucionário</a>" de Paulo Moura</span></strong></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><br />Como os homens que há 43 anos derrubaram a ditadura, aqui mandamos todos, ao exercermos a cidadania que nos ofereceram, num Abril banhado de sol com cheiro a cravos vermelhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, somos todos capitães.<br />Provemos que o merecemos ser.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2328462017-04-25T09:50:00Defeitos, paciência incluida2017-04-25T08:58:52Z2017-04-30T18:40:25Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="Ampulheta-por-do-sol.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7005331d/20389763_aPySy.jpeg" alt="Ampulheta-por-do-sol.jpg" width="500" height="333" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sofro de paciência. Dizem. Não há dia em que, a propósito disto ou aquilo, alguém não me diga: <em>"não sei como tens paciência"</em> ou <em>"responde tu que tens mais paciência"</em> ou qualquer outra frase no género. Paciência é uma palavra (conceito?) constante no meu dia-a-dia. Estranhamente não me considero tão paciente assim. Há dias em que até comigo me impaciento. Ouvi dizer que a paciência é santa e eu de santa só tenho o nome.</p>
<p style="text-align: justify;"><br />Sou, isso sim, capaz de respirar fundo - <em>nem sempre no momento</em> - e fazer um esforço por entender. E enquanto os pulmões não recuperam a capacidade de funcionar sem que a isso os obrigue, mordo a língua e suporto a dor até que a serenidade que me imponho para viver em paz, consiga cumprir o seu papel. Não sou, com certeza, tão paciente como me julgam, mas posso mostrar-vos as cicatrizes que guardo na língua.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Não sou perfeita - <em>longe disso!</em> - e nem sei se a perfeição existe. Tento apenas ser um ser humano decente, defendendo valores antigos de lealdade e respeito para quem me rodeia. Aos estranhos lamento-os e relevo. Os outros já me merecem - <em>porque quem mora no meu coração é merecedor -</em> outro cuidado e procuro sempre encontrar a razão por não agirem da mesma forma comigo. Não por ser paciente, mas porque erro todos os dias.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Consigo até - <em>com muita dificuldade, é certo, e nem sempre totalmente</em> - abstrair-me da dor e justificar as palavras ou os gestos que julguei impossíveis. Resisto a usar as mesmas armas, a descer ao mesmo nível, a devolver a dor. Resisto o melhor que posso. Pelos outros, mas acima de tudo por mim. Porque sou a pessoa com quem viverei até ao meu ultimo suspiro. Não é paciência, é egoísmo.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Tenho algures - <em>não sei se no coração, de pesado que às vezes o sinto</em> - um lugar onde guardo as mágoas e as dores. Não as esqueço. Nem quero esquecer que fazem parte da minha história. Em dias de masoquismo solto-as todas e é vê-las a lutarem entre si pela responsabilidade na morte dos meus sonhos. E eu deixo-as gritarem até se cansarem. Até me cansar. Até deixar de as ouvir, de as sentir, de sentir seja o que for. Enrolo-me em mim mesma até me perdoar. As vezes bastam uns minutos, outras vezes são precisos anos. Nem sempre consigo. Então invento sorrisos. Rima com paciência: resiliência.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Acredito que a paciência deve ser usada sensatamente. Deve servir um propósito: encontrar o que de melhor a vida, os outros e nós mesmos, temos para dar. Permite-nos não nos precipitarmos nos juízos que fazemos, nas decisões que tomamos. Dá-nos a oportunidade da redenção, da correcção dos erros, da reconstrução dos sonhos. Traz-nos a serenidade de acreditar que estamos a ser justos que, aconteça o que acontecer, fizemos o nosso melhor. A paciência é filha da esperança... digo eu, que sem esperança não tenho paciência para nada.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que sofro de paciência. Não acho. Acho que sou paciente quanto baste. Como qualquer pessoa dita normal. Mas se o diagnóstico estiver correcto, e esta minha paciência for mesmo uma doença, fiquem a saber que não é crónica. Tem cura. No dia do <em>basta</em>, do <em>já chega</em>, do <em>não vale a pena</em>. E se servir para acalmar os corações de quem me gaba a paciência - <em>e possivelmente surpreender quem abusa dela</em> - quando se esgota, não há nada a fazer. Porque a paciência tem sempre limites. Mesmo quando parece que não...</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2326572017-04-07T11:23:00Não podia falhar...2017-04-07T09:25:34Z2017-04-07T09:25:34Z<p style="text-align: center;"> </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="Inominável7.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1802e9c8/20356051_EfgLI.png" alt="Inominável7.png" width="354" height="500" /></p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2322032017-03-09T12:11:00Convite2017-03-09T12:13:01Z2017-03-09T12:13:01Z<p style="text-align: center;">Queres ser <strong>INOMINÁVEL</strong>?</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="001.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd7020e96/20303811_NERFF.jpeg" alt="001.jpg" width="170" height="170" /></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;">A Revista Inominável está a crescer e procura colaboradores</p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;">A Inominável é um projecto consistente e com perspectivas de futuro. Temos um ano e meio de existência e queremos continuar a desenvolver a nossa revista em todas as vertentes, tendo sempre em mente que esta é uma revista em formato digital e gratuita.</p>
<p style="text-align: center;">Queremos crescer, sim, mas com qualidade, e por essa razão lançamos agora um convite à colaboração de quem estiver interessado neste projecto.</p>
<p style="text-align: center;">Precisamos sobretudo de colaborações na área do design gráfico, ilustração, web design, marketing digital e SEO, relações públicas, e de uma maneira geral de quem goste de escrever (o tema não é o mais importante) e queira publicar o que escreve – obviamente (com muita pena nossa…) a título gratuito.</p>
<p style="text-align: center;">Contacta-nos através do nosso email: <a href="mailto:inominavel.geral@gmail.com" rel="noopener">inominavel.geral@gmail.com</a>.</p>
<p style="text-align: center;">Estamos à tua espera!</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2315822017-03-06T11:04:00Amar pelos dois2017-03-06T11:07:28Z2017-05-14T09:41:18Z<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="//cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fembed%2FdlqdpYDDGFA%3Ffeature%3Doembed&url=http%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DdlqdpYDDGFA&image=https%3A%2F%2Fi.ytimg.com%2Fvi%2FdlqdpYDDGFA%2Fhqdefault.jpg&key=4eb58034def64e7d9fd85869210c7d0d&type=text%2Fhtml&schema=youtube" width="480" height="270" scrolling="no" frameborder="0" style="padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">Tempos houve em que a caixinha mágica era uma raridade. E caixinha é uma força de expressão porque os aparelhos eram enormes, pesados e tinham de ser ligados quase meia hora antes do início da emissão pois precisavam de aquecer. O caixote que um dia - <em>não me perguntem quando</em> - apareceu na minha casa de menina era assim, e assim se manteve até muitos e muitos anos depois, ser substituída pela primeira televisão a cores. Tempos houve em que a televisão era desculpa para reuniões de amigos e o Festival da Canção – talvez a par do Natal dos Hospitais - era o grande acontecimento do ano em termos de espectáculo musical. Na noite marcada lá estávamos em frente à tal caixinha, horas a fio para ouvir as canções, rirmo-nos com as votações, torcermos pelas preferidas e, se tudo corresse bem, acabar o serão a trautear a grande vencedora. Há muito que perdi o rasto a tal acontecimento televisivo. Teria de fazer um grande esforço mental para - <em>sem ajuda do Google</em> – recordar pelo menos a melodia de uma canção festivaleira e se não me fosse mantendo a par das notícias, nem sequer sabia que ainda existia tal programa.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Não vi o Festival da Canção, nem conheço nenhuma das outras canções concorrentes. Não sei se é considerada uma música festivaleira ou tipicamente portuguesa. Não faço a mínima ideia – <em>e pouco me importa</em> – se terá alguma hipótese de sequer dar nas vistas na Eurovisão ou que classificação obterá. Mas de uma coisa tenho a certeza: <br />Amar pelos Dois – <em>também graças à interpretação do Salvador</em> - é uma canção belíssima, onde as palavras se misturam na perfeição com a melodia que nos roça a pele, que se instala no nosso dia, despertando o calor do sol e libertando um sorriso imenso no olhar.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: right;"><strong><span style="font-size: 10pt; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; color: #008080;">E eu - <em>que a ouvi pela primeira vez há pouco mais de uma hora -<br /></em>já a sei de cor e não consigo parar de cantar...</span></strong></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2312702017-02-14T09:53:00Happy Valentine's Day2017-02-14T10:36:38Z2017-02-14T17:11:58Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="20160214_163607.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B2105b2f1/20254018_JDI6d.jpeg" alt="20160214_163607.jpg" width="500" height="282" /></p>
<p style="text-align: center;"> pelo cuidado que tens nos gestos e nas palavras que me diriges</p>
<p style="text-align: center;">pela paciência com as minhas causas que não entendes</p>
<p style="text-align: center;">pelo abraço que me dás quando chegas a casa</p>
<p style="text-align: center;">pelo beijo que me pedes assim que acordas</p>
<p style="text-align: center;">por enxugares as minhas lágrimas, por me fazeres sorrir</p>
<p style="text-align: center;">por não me deixares sozinha quando as dores se tornam insuportáveis</p>
<p style="text-align: center;">por espantares os meus pesadelos e desmascarar dos meus papões</p>
<p style="text-align: center;">por dividires comigo as minhas (grandes) derrotas</p>
<p style="text-align: center;">por te orgulhares das minhas (pequenas) vitórias</p>
<p style="text-align: center;">por ralhares comigo porque não como, não durmo ou não me agasalho</p>
<p style="text-align: center;">por quereres celebrar todas as datas, mesmo não sabendo bem qual o dia correcto</p>
<p style="text-align: center;">pelo brilho nos teus olhos quando me vês a apoiar-te</p>
<p style="text-align: center;">por não te arrependeres, por me mostrares o futuro</p>
<p style="text-align: center;">por teres tornado nossos os meus cães</p>
<p style="text-align: center;">pelo carinho, pelo riso, pelo apoio</p>
<p style="text-align: center;">por me achares bonita e não te cansares de o repetir</p>
<p style="text-align: center;">pelas nossas conversas sussurradas</p>
<p style="text-align: center;">por te aconchegares em mim quando dormes</p>
<p style="text-align: center;">por acreditares e me fazeres acreditar</p>
<p style="text-align: center;">por me fazeres sentir única e especial</p>
<p style="text-align: center;">por teres tornado importante a palavra nós</p>
<p style="text-align: center;">por ser Valentina todos os dias</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2310712017-02-03T14:17:00Inominável #62017-02-03T14:03:47Z2017-02-03T14:08:40Z<p style="text-align: center;">Pronto... parece que o Alpendre se tornou a segunda casa da Inominável :-)</p>
<p style="text-align: center;">E aqui está a nº6</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://joom.ag/yXeW" target="_blank" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px;" title="003.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1c154dce/20228701_bpb7g.png" alt="003.png" width="355" height="500" /></a></p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2309082016-12-21T12:04:00Inominável #52016-12-21T12:07:13Z2016-12-21T14:07:11Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://joom.ag/Mcmp" target="_blank" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px; border: 1px solid #000000;" title="capa.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7b129a5a/20136563_LfzCJ.jpeg" alt="capa.jpg" width="355" height="500" /></a></p>
<p style="text-align: center;">mais vale tarde que nunca... <img style="vertical-align: middle;" src="https://blogs.sapo.pt/tinymce4/plugins/sapoemoticons/img/EMOTICON_STAR.png" alt="" width="24" height="24" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2304202016-07-13T22:03:00A biscoiteira2016-07-13T21:04:39Z2016-07-14T08:26:37Z<p class="sapomedia images"><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="19769716_Dmm9W.png" src="https://fotos.web.sapo.io/i/B050448c7/19770016_Biy3I.png" alt="19769716_Dmm9W.png" width="500" height="356" /></p>
<p> </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;">Dezembro, 24. De camisola vermelha como a época exige, foi buscar a mãe para passarem a noite na casa da irmã mais velha. Ainda na escada sentiu o aroma a fritos e açúcar e canela que sempre perfumavam aqueles dias. Abriu a porta com cuidado, não fosse tropeçar nos sacos e saquinhos e saquetas dispostos no <em>hall</em> de entrada, prontos para seguir viagem. Dirigiu-se à cozinha onde a mãe cobria com folhas de alumínio, película aderente e ainda panos da loiça as travessas de arroz doce e fatias douradas que fazia como ninguém. <em>Maria Adelaide!</em> – ralhara – <em>Ainda não estás vestida?</em> E a mãe que se desfazia num mimo indisfarçável quando ela a tratava assim, estendeu-lhe um tabuleiro almofadado com mais panos de cozinha, onde dispôs com cuidado as travessas ainda quentes: <em>Despacha-te a pôr tudo no carro que eu fico pronta num instante</em>. Obedeceu, reclamando pelo atraso – <em>que nem pareceria dia de festa se não reclamasse da desorganização da época</em> - carregou o elevador com os sacos, saquinhos e saquetas, mais o tabuleiro que suspirava fritos e açúcar e canela, arrumou tudo dentro do carro e voltou para casa certa de que ainda faltava alguma coisa, porque nem pareceria dia de festa se não ficasse alguma coisa para trás.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">No quarto, quando se ajoelhou para ajudar a mãe a calçar os sapatos - <em>não porque precisasse de ajuda, mas porque não conseguia ficar parada</em> – reparou numa caixa colorida, um presente esquecido na pressa dos preparativos, com certeza, que nem seria dia de festa se não houvesse um presente escondido debaixo da cama. <em>Isto não é para ir?</em> – perguntou pegando na caixa. Estranhou a rapidez com que a mãe lha tirara das mãos: <em>É, mas vai aos meus pés</em>. Pensou que seria algo frágil que a mãe – <em>com razão, ou não a conhecesse bem</em> – não lhe queria confiar e não pensou mais nisso. Pegou no casaco da mãe, nas chaves de casa, deitou um último olhar para ver se não faltava nada, apagou as luzes, fechou a porta, desceram no elevador, ajudou a mãe a sentar-se, doces nos joelhos, caixa colorida aos pés e seguiram viagem.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Chegadas ao destino, descarregado o carro e cumprimentada a família, instalaram-se os doces no aparador e os presentes debaixo da árvore excepto, é claro, a misteriosa caixa colorida que a mãe não perdia de vista. A noite decorrera sem sobressaltos com os habituais protestos – <em>bacalhau cozido outra vez? porque é que não podemos comer outra coisa? não há demasiados fritos na mesa? tantos doces para quê?</em> – que ajudavam sempre a encurtar a longa espera pela meia-noite, que Natal que se preze não dispensa o ritual e nem seria dia de festa se não se contestasse o menu. Abertos os presentes, um a um, distribuídos pelos mais novos, comentados e agradecidos, restava a misteriosa caixa que a mãe lhe estendeu, num gesto teatral iluminado por um sorriso de criança travessa: <em>Ainda há este aqui por abrir. É para ti.</em> Curiosa, pegara na caixa, rasgara o papel que envolvia e foi então que um sonoro mugido rasgou o ar e calou as vozes que enchiam a sala. O resto do papel desapareceu como por milagre, a caixa foi finalmente aberta e o ultimo presente revelado: <em>Mãe! Deste-me uma vaca? Adoro vacas!</em> E uns sorriam, outros sacudiam a cabeça condescendentes, a biscoiteira mugia a cada levantar da tampa e a mãe ria, e ria, e ria, feliz por ter encontrado o presente ideal e ter conseguido manter a segredo até aquele momento, que presente que é presente tem de ser surpresa.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;">--------------</p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;">Há dias, numa daquelas limpezas periódicas para despachar o que não utilizamos, encontrei a biscoiteira que, já partida, tinha sido relegada para o quintal, para junto dos sachos e das pás com que costumava jardinar. Quando lhe peguei, separou-se em duas partes, a tampa pendeu e a vaca mugiu. <em>Raio da pilha que nunca mais acaba</em>, pensei, enquanto relembrei aquela noite de Natal.</p>
<p style="text-align: justify;">Já não foi para o lixo, voltou para ao pé das ferramentas de jardim.<br />Descobri-lhe uma utilidade: recorda-me o riso da minha mãe.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2298202016-06-06T10:10:00A chamar o Verão2016-06-06T08:54:42Z2016-06-06T09:00:37Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a href="https://blogs.sapo.pt/posts/%20http:/revistainominavel.blogs.sapo.pt/inominavel-no-4-40080" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px;" title="Inominavel #4.JPG" src="https://fotos.web.sapo.io/i/B9b08cc71/19669541_gDzFS.jpeg" alt="Inominavel #4.JPG" width="357" height="500" /></a></p>
<p style="text-align: center;">A Inominável antes de ir de férias cheira a sol e maresia :-)</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:2296162016-05-17T16:01:00Wish you were here2016-05-17T15:02:20Z2016-09-01T13:40:01Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"> </p>
<p><iframe src="//cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fembed%2FkmHWBo46iow%3Ffeature%3Doembed&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DkmHWBo46iow%26feature%3Dyoutu.be&image=https%3A%2F%2Fi.ytimg.com%2Fvi%2FkmHWBo46iow%2Fhqdefault.jpg&key=4eb58034def64e7d9fd85869210c7d0d&type=text%2Fhtml&schema=youtube" width="480" height="270" scrolling="no" frameborder="0" style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;">O meu medo maior - <em>meu querido, meu anjo bom</em> - é que um dia, por vontade ou decreto, se proíbam as juras dos amantes ou que desapareçam, pela mão da descrença, os suaves apertos da alma e a doce melancolia de quem se alimenta do ar que o outro respira. Que por despeito ou prudência, as gentes sensatas que se resguardam dos exageros da paixão - <em>almas infelizes que nunca conheceram o desespero da dúvida</em> - lancem uma qualquer maldição para cobrir de negro a luz que os meus olhos irradiam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;">Como os lamento, pobres tolos convencidos, presos em existências controladas, que não distinguem o palpitar da vida do simples e monótono <em>tic-tac</em> do relógio que lhes determina os passos, que desconhecem que, entre as linhas do livro que escrevem a cada dia que passa, há uma magia que não se vê, que não se mede, não se compra, não tem explicação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;">Que me importa que digam que a paixão me esgota, desde que as tuas ausências me visitem quando o meu coração bater em ânsias de saudade, que a loucura me espreite a cada beijo e uma febre sem tino tome conta de mim a cada carícia. Que me importa - <em>meu querido, meu anjo bom</em> - as promessas de dores e lágrimas, logo a mim que anseio pelo suspiro que soltas enquanto morres de desejo nos meus braços, que sei que nada se pode comparar ao calor do teu corpo enrolado no meu e que não quero outra vida para além desta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva;">Desaconselha-se a paixão, o exagero, o desnorteio, a ansiedade, a insensatez e esse é o meu medo maior, que por vontade ou decreto, me proíbam de sentir assim. Se isso acontecer - <em>meu querido, meu anjo bom</em> - o que é que eu faço, com todo este amor que trago no peito?</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:omeualpendre:1813302016-04-12T16:13:00Robertos2016-04-12T16:56:38Z2016-04-13T08:37:32Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><a class="media-link" href="https://pt.pinterest.com/pin/105482816245863088/" rel="noopener"><img style="padding: 10px 10px;" title="fantoches.jpg" src="https://fotos.web.sapo.io/i/B02132e5b/19447002_YY7Ib.jpeg" alt="fantoches.jpg" width="500" height="316" /></a></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;">Desde que me lembro que faço parte dos alfacinhas que acha que a Costa de Caparica é a praia de Lisboa. A Linha do Estoril era usada para o <em>passeio dos tristes</em> dominical, mas a então vila era sinónimo de férias e muito espaço para correr. Aliás, a Costa de Caparica era tão minha que foi lá que dei os primeiros passos, corria o Verão de 61, no já desaparecido café Costa Nova, pela mão da D. Irene, que me permitia todas as liberdades, desde o entra-e-sai constante na cozinha para falar com o papagaio, até aos jogos de escondidas dentro das vitrinas vazias onde, já mais crescida, aproveitava para brincar às lojas e aos clientes. Nos primeiros anos, instalávamo-nos numa casa bem no meio do Bairro dos Pescadores, ao lado do Daniel das Bolas Novas, o que equivale a dizer que a minha memória desses tempos é de acordar com o cheiro a bolos quentes e açúcar e adormecer profundamente depois de um dia de animada brincadeira, rematado com o passeio nocturno na Rua dos Pescadores, entre a praia e o largo do Mercado. Quando entrei para a escola, as férias grandes – <em>que na altura eram realmente grandes</em> – eram passadas na FNAT, hoje INATEL, onde, como em qualquer boa colónia de férias tínhamos direito a altifalantes que nos brindavam com música e notícias da Emissora Nacional, avisavam que era a hora de nos dirigirmos ao refeitório, de fazermos a sesta ou de nos deitarmos, anunciavam crianças ou objectos perdidos e chamavam os veraneantes ao telefone, algo que provocava sempre alguma comoção.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">A praia era obrigatória logo de manhã, sob o olhar vigilante do famoso Tarzan - <em>que mais do que uma vez espremeu os meus pobres pés tão apreciados pelos peixe-aranha</em> - e onde, para nos fortalecermos para o Inverno, era quase obrigatório o banho no mar, o que, para quem conhece a temperatura da água daquela zona, nem sempre era uma aventura agradável. Mas a praia tinha outros atractivos, além das Bolas Novas: um espectáculo de fantoches com cabeça de madeira, manipuladas atrás de um biombo pintado com o nome da companhia e cenas das histórias que contavam, ou simples saias de chita, e que se chamavam Robertos. Numa única manhã, eu era capaz de ouvir a mesma história tantas vezes quantas as que conseguisse fugir ao controlo adulto, para os seguir na sua digressão ao longo das diversas praias. E mesmo repetidas vezes sem conta, as histórias dos Robertos não perdiam o seu encanto. As personagens eram variadas, consoante as histórias desse dia, mas normalmente havia o rapaz – <em>que podia ser um forcado</em> - a rapariga – <em>que podia ser uma princesa</em> - a figura paternal - <em>que podia ser um caçador</em> – o toureiro e, é claro, o touro, não esquecendo o polícia, o fantasma e até a morte. E traziam sempre consigo um pau, uma frigideira ou uma vassoura com que, a dada altura, haviam de se agredir. Falavam com uma voz estranha, abusavam dos <em>erres</em>, conversavam com o público - <em>agradecendo até os avisos que lhes gritávamos</em> - e polvilhavam os diálogos com grandes e sonoras cabeçadas que nos arrancavam gargalhadas na directa proporção do barulho que produziam. No final, um dos artistas passeava por entre quem assistia, de chapéu na mão, para recolher o pagamento, e eu fazia render as moedas de <em>tostão</em> que me tinham dado, pelos espectáculos todos que tencionasse assistir sempre na esperança de apertar a mão a algum dos fantoches.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Graças aos Robertos a praia era um sítio (ainda mais) animado.</p>
<p style="text-align: justify;">E (também) graças a eles, todos os Verões eu tinha o chapéu mais feio e berrante de toda o areal da Costa de Caparica. Era a forma mais fácil de me identificarem cada vez que eu desaparecia...</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;"><span style="font-size: 8pt; color: #008080;"><strong>in "Histórias de menina"</strong></span></span></em></p>