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Sim, é uma chatice. É uma chatice o Metro estar parado por motivo de greve, exactamente à hora a que a maior parte de nós tem que ir trabalhar. Perdemos tempo, paciência e, na maior parte das vezes ainda temos que pagar o transporte alternativo. Depois são os autocarros que vão a abarrotar, lá se vai a comodidade e o civismo fica na rua, que vale tudo para entrar e ainda mais para sair daquele aperto. E lá vêm as queixas, e os lamentos, e as contas às regalias de quem faz greve e que "deviam era viver com o meu ordenado" ou "não sabem o que é ter um emprego" porque, como toda a gente sabe, os nossos salários são sempre mais baixos e as nossas dificuldades sempre maiores do que os daqueles que nos incomodam. E no meio de tanta chatice, aparece sempre alguém – e pasmem-se os céus, que não são tão poucos como isso! – que nem sabia que havia greve dos transportes, falta de informação que só será colmatada, fica aqui a minha sugestão, no dia em que os jornais desportivos a divulgarem na primeira página, talvez como legenda à foto do Ronaldo ou, quem sabe, as associações sindicais ou de trabalhadores telefonarem para todos e cada um dos utentes dos transportes públicos a avisar: “Olhe, não se esqueça que amanhã fazemos greve, sim?”. Notícias e cartazes, não vale a pena.
As greves são incómodas. Até a mim, que não ando de Metro, a greve me incomodou. Mas incomoda-me mais o conformismo das gentes, o “é a vida” com que assistem ao empobrecimento de um país, o “que se há-de fazer” de quem lhe vê negado tratamento médico porque não há verba. Incomoda-me a escolha entre a conta da electricidade ou a do supermercado, o silêncio de quem é explorado porque precisa de trabalho, a miséria de quem nem um tecto tem para se abrigar. Incomoda-me muito mais que não hajam greves, que das poucas coisas – senão a única – que faz com que as gentes se manifestem seja o futebol. Incomoda-me quem não luta, quem se cala, quem ainda não percebeu que Fado é apenas um género musical, não é uma inevitabilidade, um modo de vida. Acima de tudo incomoda-me quem não entende que nos fizeram peões do jogo do “dividir para reinar” e que são os nossos gestos e os nossos gritos ou o deixa-andar e a apatia que podem marcar a diferença.
A greve acabou e com ela foram-se os incómodos desta manhã.
Dos outros, infelizmente, já não posso dizer a mesma coisa.