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Em boa companhia

por Maria Alfacinha, em 12.08.15
 
 

Em boa companhia

 

Não sou filha única, mas por vezes pareço.
Também não sou a mais velha nem a mais nova. Sou a do meio, aquele filho que passa despercebido. Não é uma coisa nem outra, apenas é. Que nome se dá a quem nasce entre irmãos? Nenhum. Não interpretem mal o que escrevo. Não há nenhuma mágoa aqui, nem ressentimento de qualquer espécie. Pelo contrário. Sinto, desde sempre, o privilégio de não ter que cumprir um papel. Nasci, apenas. Entre a primogénita e o benjamim. Não tive o excesso de responsabilidade da mais velha, nem o excesso de protecção do mais novo. Por isso não tive um rótulo, um cargo familiar. Pude apenas ser eu. Como eu quis, quando quis, onde eu quis. Esta espécie de estatuto, aliado à educação que recebi, tornaram-me independente muito cedo. E o não fazer parte da hierarquia familiar permitiram-me apreciá-la, ou não, apenas pelo que ela é sem qualquer tipo de obrigação. Embora, com o tempo, tenha percebido a influência dos genes no meu comportamento ou aspecto físico, não foi por isso que deixei de criar uma forma muito própria de ser e de estar. Não me senti obrigada a crescer e a cumprir o que esperavam de mim, porque nunca me foi definido um caminho ou um modo de agir. Basicamente deram-me os materiais e mandaram-me construir a minha vida. A família manteve-se como uma entidade (mais ou menos) independente, sempre discreta e disponível para o que fosse preciso. E nunca, mas nunca, me fazem perguntas.

 

Talvez (também) por tudo isto sempre fui alguém que lida bem com o estar sozinha. Não me assusta, nunca me sinto só por estar só. Normalmente, quando isso acontece há uma multidão à minha volta. Há sítios onde me sinto só. Entre gente que não me diz nada, no meio de conversas ou gestos de que não entendo o propósito. São lugares ou situações que me fazem entender a solidão. Como se fosse uma estranha em terra estranha, como se não conhecesse a língua, os hábitos ou os costumes. São alturas em que me pergunto mentalmente o que estou a fazer ali. Não é o ser ignorada - algo que raramente me acontece - que me afecta, é o pronunciarem o meu nome, reconhecerem-me as feições e não saberem quem sou, julgarem-me pelo que aparento, pelo que é suposto ser. E quando isso acontece tenho um truque que uso desde miúda. Por muito presente que eu pareça estar, a minha mente foge para locais que mais ninguém conhece, os meus sótãos, os meus refúgios. Entretenho-me a imaginar a vida de quem está presente, interpreto os tiques e os trejeitos, a forma como anda ou como se senta. Atento nas conversas, nas opiniões, no calor ou frieza com que defendem causas ou comentam notícias. Procuro gestos que os humanizem, que desvendem a pessoa que está por trás da gravata ou da jóia, até tudo se tornar demasiado cansativo ou desinteressante. Aí, fecho a porta do sótão e instalo-me naquele sofá velho, mas muito confortável, a ler o livro que um dia vou escrever.

 

Gosto de estar comigo e deve ser por isso que não sei o que é a solidão. Não pensem, no entanto, que é uma relação feita no céu. Lido comigo como se fosse uma outra, sou exigente e amiga, educadora e mãe. Permito-me o não crescer mas não admito a fuga às responsabilidades. Obrigo-me à disciplina e deixo-me preguiçar. Suporto os disparates e concedo-me tempo para chorar. Respeito o espaço que deve ser só meu e partilho o que quiserem aceitar. Zango-me comigo mesma e perdoo-me (quase sempre)  os erros que cometo. Sou complicada e divirto-me com isso. Descubro razões para sorrir em quase tudo e imponho-me a gravidade necessária ao que é sério. E tal como as portas da minha casa, tenho sempre as portas da minha vida abertas para quem quiser entrar. Basta deixar na soleira a inveja, a mentira e a hipocrisia. Não me sinto só quando estou só, mas adoro uma boa companhia.

publicado às 12:50


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